Após brilhar com Rosalía, Carminho vai tocar no Brasil: “Minha segunda casa”

19/11/2025

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Por: Vitória Prates

Fotos: Divulgação/Mariana Maltoni

19/11/2025

O Festival Fado traz Carminho para três shows, no Rio de Janeiro (23/11), São Paulo (24/11) e em Brasília (26/11). As capitais recebem o evento multicultural que celebra a cultura portuguesa. Para além dos shows, a programação traz exibição de filmes, exposições e palestras. 

A portuguesa acaba de lançar seu oitavo álbum, Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir (2025), como uma carta de amor ao próprio fado. O gênero mais tradicional de Portugal ganha novos contornos com Carminho, inspirada em ícones da vanguarda. “Neste disco, a Laurie Anderson foi uma das vozes que mais me inspiraram. Tal como a Annette Peacock e a Wendy Carlos”, afirma, em entrevista à Noize.

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E ela também tem uma relação próxima com a nossa música — ela já colaborou com Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Marisa Monte e Milton Nascimento, tendo, inclusive, lançado o álbum Carminho canta Tom Jobim (2016) em homenagem ao maestro brasileiro. 

Recentemente, a portuguesa também dividiu um feat com a cantora do momento, Rosalía. Em Lux (2025), ela canta em português na faixa “Memória” – “Ofereci uma canção, e ela gostou tanto que quis ficar pro disco dela”, disse a uma rádio em Lisboa. “Colaborar com quem a gente admira é uma benção”.

Em entrevista à Noize, Carminho reflete sobre a relação entre fado e MPB, a relação com o Brasil e a inventividade musical. 

Logo mais, você se apresenta no Brasil, no Festival Fado. Como estão as expectativas para a apresentação? O que o público pode esperar do show? 

O público brasileiro é extraordinário, é muito diversificado. Varia de cidade para cidade, e isso também é fabuloso. Em Portugal acontece o mesmo, mas as pessoas que assistem no Rio têm uma energia diferente de São Paulo e do Nordeste, por exemplo. Tenho o privilégio de já ter tocado em muitos lugares diferentes do Brasil, sou sempre muito bem recebida. O público que me acompanha no Brasil sabe o amor que eu sinto pela cultura brasileira.

Consigo ser eu mesma, cantando repertório de um país que está do outro lado do oceano. Isso pode parecer estranho, mas ao mesmo tempo já é muito natural. Este ano vou ter a oportunidade de me apresentar no Brasil, no Festival Fado que vai celebrar o Carlos Paredes. Este guitarrista é incontornável, trouxe uma linguagem muito específica e muito particular ao mundo, com a sua guitarra de Coimbra.

Você tem uma relação muito próxima com o Brasil, tanto artística quanto afetiva. O que mais te encanta na música brasileira?

O Brasil é minha segunda casa. Onde eu me relaciono muito profundamente com a música. Quero sempre gravar música brasileira, trabalhar com artistas brasileiros porque realmente é um terreno fértil. Um terreno muito fértil e eu sinto-me muito honrada por ter esta história e poder continuá-la. 

A língua portuguesa é de fato incontornável, é a nossa maior relação, tanto relação de união como a relação que também nos separa e que nos torna ricos e únicos, a cada um de nós. E por isso há uma pluralidade e uma conexão maravilhosa. 

A coisa que mais me fascinou quando cheguei ao Brasil pela primeira vez foi o fato de eu encontrar um país do outro lado do mundo e em que pensavam sobre o mundo e a vida de forma tão diferente, mas que escreviam a mesma língua que nós. 

E, portanto, os poetas tinham temáticas diferentes, mas na mesma língua. E eu podia cantar essas novidades e essas maneiras tão plurais de sentir na minha própria língua sendo eu mesma. Isso foi marcante. Foi uma janela que se abriu na minha vida quando eu descobri os poetas brasileiros. Portanto do Brasil vai sempre haver alguma coisa presente na minha música, mesmo que não declarada. Vai haver sempre essa influência. 

Você já colaborou com grandes nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Marisa Monte e Caetano Veloso. Na sua opinião, o que aproxima o fado da música popular brasileira? 

O Fado tem muito que ver com a linguagem do samba, por exemplo. Eu acho que há ligações irmãs na lírica, na temática, nas produções harmônicas sobretudo, no samba-canção e na bossa nova. Há muitas canções que também foram cruzando o oceano de parte a parte, nos anos 30, 40, 50 havia muitos fadistas cantando na rádio brasileira – e também muitos artistas portugueses que vinham do Brasil e cantavam as canções gravadas no Brasil. E isso só quer dizer uma coisa: que existia linguagem, que existia conexão.

Como você equilibra a herança e tradição do fado com a sua própria identidade musical e inovação? 

O fado é identidade, patrimônio e emoção. É Portugal no seu estado mais puro. Este disco continua um processo que venho explorando nos álbuns anteriores. Que muito simplesmente é a prática do gênero musical em estúdio, trazendo novas letras e novas melodias do fado tradicional, conjugando-as com algumas letras antigas e outras melodias antigas. 

Faço conjugações de alguma maneira novas com elementos próprios do fado. Temos ainda a exploração de outros sons que a mim me parecem dialogar com a linguagem do fado, que me parecem trazer algo que é sempre importante: a emoção. 

Mas também outros elementos que contêm a história dessa canção. Neste disco em particular, fui muito inspirada pela mulher, pela voz, pela ideia de que a mulher ocupa sempre um lugar muito central, intérprete, como se a história estivesse resumida naquela história que é contada por aquela mulher.

Mas na verdade eu sinto que existem muitas outras narrativas paralelas, mesmo ambíguas dentro da própria mulher que de onde surgem outras vozes e essas vozes vieram literalmente para dentro do disco. São vozes que se cruzam e que se põem em dimensões bastante distintas da mesma pessoa, da mesma voz.

Em Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, como você trabalhou essas camadas sonoras — o fado tradicional e as demais influências, como o rock — no álbum?

Neste disco em particular, a Laurie Anderson foi uma das vozes que mais me inspiraram. Tal como a Annette Peacock e a Wendy Carlos. Sem elas eu não faria isso. Além de existirem as vozes que estão no Mellotron, que são as minhas próprias vozes, as vozes Vocoder são uma outra dimensão da mulher. Quase como se cada apresentação da voz, e cada dimensão em que a voz aparece neste disco, que é sempre minha, revelasse diferentes estados de espírito, diferentes mulheres, e até diferentes épocas. 

Isso foi bastante intenso e inspirador. Foi muito inspirada também pelos conjuntos de guitarras instrumentais do Fado, desde o Armandinho, ao Raul Neri, ao Martinho da Assunção. Foram músicos que tinham o seu ensemble de guitarras tradicionais do fado, e muitas vezes duas guitarras portuguesas, que dialogavam muitas vezes com a voz e tinham um papel de diálogo e contraponto.  

Fui muito inspirada por essa linguagem de harmonização das guitarras para alguns dos momentos em que as guitarras, tanto a portuguesa como a elétrica, dialogam. Essa linguagem é realmente muito marcante na história do meu percurso como fadista. 

Carminho no Festival Fado – 2025

Rio de Janeiro – 23/11 – Vivo Rio – Ingressos

São Paulo – 24/11 – Cultura Artística – Ingressos

Brasília – 26/11 – Centro de Convenções Ulysses Guimarães – Ingressos

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19/11/2025

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