Conheça a história d’As Gatas, coro feminino que fez história nos sambas-enredo

24/02/2026

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Por: Damy Coelho

Fotos: Divulgação

24/02/2026

Quando criança, Affonsina Pires já sabia que queria cantar. No espelho, imitava Carmen Miranda. Cruzava os braços tal qual a diva e sonhava. Queria ser estrela. Diferente do cenário da época, não teve o sonho podado pela família. E, como tantas outras pessoas daquela época, saiu, com o avô e irmãos, de Pitangui, interior de Minas Gerais, para tentar a vida na cidade grande. 

Mudaram-se para Belo Horizonte e, por lá, Affonsina começou a cantar profissionalmente. Bateu na porta da Rádio Inconfidência, onde teve certa projeção. Não tardou para que ela migrasse de novo, desta vez, para o Rio de Janeiro. Lá, o samba, que conheceu através de Carmen Miranda pelas ondas do rádio, tinha cenário e contexto. O sonho parecia real. 

*

Enquanto isso, no sertão do Rio Grande do Norte, outra menina, Francineth Germano, também tinha o sonho de cantar. Começou cedo, aos 11 anos. Na família, as irmãs também cantavam, ela era considerada a “desafinada”. 

O apelido não fazia justiça ao seu talento, já que ela assinou com Rádio Poti, em Natal, com apenas 14 anos. Também migrou para o Rio, onde foi aplaudida no célebre programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso (o mesmo que revelou Elza Soares).

Anos depois, na cidade do samba, os caminhos de Afonsina e Francineth se cruzariam. Em 1964, junto a outra futura companheira de grupo, Zenilda, cantaram na coletânea Rio de Janeiro 400, que comemorou o quadricentenário da cidade. Com o tempo, elas cravaram seus nomes na história do samba. Só que juntas.

Uma puxa a outra

Já no Rio, Affonsina venceu um importante concurso da Rádio Nacional. Adotou o nome artístico de Dinorah. Mas, curiosamente, ela não queria cantar sozinha. Apaixonou-se mesmo pela harmonia vocal em conjunto, provavelmente quando integrou o grupo misto Os Rouxinóis do Rio. Cantava entre uma faxina e outra que fazia para sobreviver. 

Então, chamou as companheiras de ofício, Eurídice e Zenilda Barroso (1935 – 2012), para formarem um grupo, desta vez, somente de mulheres. Neste momento, se consolidava a primeira formação do As Gatas. 

Esse nome nasceu quando elas estavam em estúdio. Um maestro ficou impressionado com aqueles timbres diferentes, afinados no tom mais agudo — talvez pelo alcance vocal, ou por serem timbres femininos. Brincou que elas pareciam “gatas cantando no telhado”. Dinorah riu, e gostou. Em 1969, o grupo passou a se chamar As Gatas, e se tornaram o mais importante coro feminino do samba brasileiro.

Aos poucos, a formação foi mudando; Eurídice tinha problemas de saúde e não podia cantar sempre. Para manter a harmonização vocal em trio, Dinorah chamou Zélia Bastos (1941 – 2017), que fazia parte do grupo As 4 Damas, para se juntar ao time. Chegaram a integrar o grupo, ainda, Marlene, Nilza e Noemi. A formação clássica, porém, se consolidou com Dinorah, Francineth, Zenilda e Zélia. 

As Gatas participaram — e ganharam — diversos shows de calouros da época. O primeiro deles foi em 1968, na TV Tupi, com o samba “​​Bloco de Sujo”, de Luís Antonio e Luiz Reis. “Olha o bloco de sujo/que não tem fantasia/mas que tem alegria/para o povo sambar/Bate a lata se não tem tamborim/bate a lata/Carnaval é assim”. Em uma das gravações do grupo, o maestro sentiu falta de uma voz que tivesse “sotaque nordestino”, momento em que Francineth entrou em cena, em 1970.

Também interpretaram clássicos do samba tradicional, como “Cidade Maravilhosa” (André Filho), “Tristeza” (Haroldo Lobo e Niltinho) e “O teu cabelo não nega” (Irmãos Valença e Lamartine Babo), no álbum Carnaval da Pilantragem (1969), com os Vocalistas Tropicais. Mas fizeram carreira mesmo como coro de sambas-enredo — gravaram todos os discos do gênero durante três décadas. 

Quem nos conta essa história é Narinha, filha de Dinorah que entrou para o grupo em 1984. Ela participou de uma das últimas formações d’As Gatas, mostrando que a ideia musical-revolucionária de Dinorah foi para frente — o grupo feminino cantou com grandes nomes até os anos 2000.

Canto coletivo

“Assim como o conjunto Nosso Samba, na parte instrumental, As Gatas foram importantes por levar, para dentro do estúdio de gravação, o ambiente da roda de samba”, explica Denilson Monteiro, pesquisador musical e autor de Divino Cartola, uma Vida em Verde e Rosa. Elas exerciam o papel das pastoras do terreiro. Eram o coro que dava fôlego aos samba-enredo da velha guarda e auxiliavam o puxador.  

Artistas renomados faziam fila para gravar com As Gatas. Narinha, ainda menina, ajudava a mãe a anotar os pedidos que chegavam pelo telefone de casa.  Atendeu de Clara Nunes a Bezerra da Silva. “Acredite se quiser: os grandes artistas do samba esperavam o grupo ter agenda para entrar no estúdio!” lembra Narinha, rindo. 

Gravar com As Gatas era, de fato, a coqueluche. Nesse embalo, cantaram ainda com Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Maria Bethânia e uma série de nomes importantes das várias vertentes do samba.  

Mas Francineth conta à NOIZE que achou surreal mesmo quando gravou com Paul Simon. “Ele veio ao Rio e precisou de três grupos vocais. Ele passava músicas experimentais para a gente, com vocalizes. Graças a Deus, nós conseguimos fazer. No final, fomos aplaudidas por ele” — convenhamos, nada mais justo.

Um outro encontro foi ainda mais especial. “Eu estava cantando na boate Bom Gourmet, no Rio. Não tinha nenhum cliente! Depois, alguns foram chegando, subi ao palco, e, quando voltei, o garçom me falou: ‘tem gente te esperando no camarim’. Era ninguém menos que Elizeth Cardoso”, lembra.

A rainha da rádio lhe disse: “olha, minha filha, você tem uma voz muito boa, um sotaque bonito. Você gostaria de cantar numa orquestra?”. Ela disse que sim, claro. “Então, a partir de hoje, você está contratada para tocar na orquestra do maestro Moacir Silva”, disse Elizeth. A cantora foi sua madrinha musical, dando a ela o lisonjeiro apelido de “Dama do Samba”

Legado vivo 

Nos anos 2000, as Gatas se mantinham na ativa e, merecidamente, foram reconhecidas por uma nova geração. Elas participaram, por exemplo, das gravações de Eu Tiro É Onda (2001), primeiro álbum de Marcelo D2, na faixa “Batucada”. 

Estão também no Enxugando Gelo (2003), do Bnegão & Os Seletores de Frequência e no Vô Imbolá (1999), de Zeca Baleiro. Juntas, em 1999, participaram da trilha sonora do filme Orfeu Negro, de Cacá Dieges, estrelado por Tony Garrido. Em 2022, apareceram no documentário O Canto Livre de Nara Leão, da Globoplay

Com o grupo, as cantoras fizeram o terreno no samba para as respectivas carreiras solo. Dinorah chegou a ser diretora vocal do programa Buzina do Chacrinha, da Rede Globo. Cantou por anos com a Vila Isabel, e fundou a Escola de Samba Mirim Herdeiros da Vila, onde também promovia programas sociais voltados para a educação musical de crianças. 

Ia para a avenida em todos os carnavais. Em 2006, no ano de sua morte, ganhou um samba-enredo de sua escola. O nome foi digno à sua grandiosidade: “De mineira a carioca, o sonho se tornou uma realidade”. A cantora faleceu vítima de um câncer na bexiga. “Minha mãe gravou samba-enredo até o fim da vida”, lembra Narinha.

A filha, hoje, carrega o legado da mãe. Há 20 anos, canta com Zeca Pagodinho — enquanto eu escrevia esta matéria, ela se preparava para embarcar no “Navio do Zeca”, que reuniu atrações como Fundo de Quintal e Xande de Pilares. 

Zeca, grande incentivador da carreira das Gatas, convidou-as para participar de seu memorável primeiro show no Canecão, em 1999. Dinorah cantou com ele por 15 anos. Quando passou a ter problemas de saúde, Zeca convidou Narinha para se juntar a ele no coro.

Já Francineth se consagrou como a Dama do Samba. Gravou, entre muitos, o samba-enredo da Portela, sua escola do coração, “Tal Dia é o Batizado”, de 1967. Também já cantou com cantores como Paulinho da Viola e Luiz Gonzaga.

Em 2019, após duas décadas sem cantar sozinha, foi convidada pelo grupo Os Batuqueiros e Sua Gente, que resgata o samba tradicional, para gravarem juntos. Nasceu o excelente Francineth & Batuqueiros e sua Gente, com participações de Zeca Pagodinho, João Camarero e Nailor Proveta. Fran (como hoje gosta de ser chamada) fala dos integrantes com carinho. 

“Os Batuqueiros fazem parte da minha vida. São criaturas maravilhosas, carinhosas, que realmente gostam de mim, do meu trabalho. Eu os amo como meus filhos”. Os integrantes conheceram Francineth por meio do cantor Tuco Pellegrino. Desde então, os laços se estreitaram, e, ao conhecer a história da Fran, entenderam sua grandeza e a importância de resgatar seu legado. 

O samba, importante pilar cultural do Brasil, tem memória. Por isso, todos deveriam conhecer As Gatas, apesar das poucas informações sobre elas disponíveis na internet. Ouvir, provavelmente, muitos já ouviram. 

“Depois delas, as pastoras, como a saudosa portelense Tia Doca, passaram  a figurar em discos de intérpretes como Beth Carvalho. Hoje, se há grupos como as cariocas do Entre Elas e do Samba que Elas Querem, as catarinenses do De Pretas e as paulistas do Samba de Dandara, é porque lá atrás, Dinorah, Zenilda, Francineth, Eurídice e Zélia pavimentaram o caminho”, finaliza Denilson Monteiro.

Para além de terem sido um coro formado majoritariamente por mulheres pretas, todas as integrantes tinham o batuque correndo nas veias. Francineth resume aquela que poderia ser, também, a fala de suas companheiras que já se foram. “Na minha vida o samba é tudo. É com o samba que eu durmo, acordo, brinco, falo”, diz, emocionada. “O samba é a minha vida.”

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #156 que acompanha o disco Senhora da Terra, de Elza Soares, lançado pelo Noize Record Club.

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Damy Coelho