Parte de Tudo Isso (2025) celebra os 35 anos de carreira de Badi Assad. Com produção de Marcus Preto e Tó Brandileone (5 a Seco), metade do repertório é autoral, que nasceu da caneta compartilhada da cantora com Adriana Calcanhoto, Otto, André Abujamra, Ceumar e Pedro Luís, e a outra metade presente de artistas, para que ela interpretasse.
Nesta segunda leva, são canções inéditas de Chico César — “Ê Mulher” —, Vicente Barreto e Zeca Baleiro — “Tororó” —, Nando Reis e Zé Renato — “Imaterial” —, Paulinho Moska — “Possível Manual do Amor” — e Zélia Duncan e Ana Costa — “Tristeza, Nem Vem” —. Celebrando o poder criativo da sua geração.
Mariângela Assad nasceu em uma família de músicos. Seus irmãos mais velhos, Sérgio e Odair, formam o duo Assad, em ativa desde os anos 80, cujo trabalho com o violão influenciou uma geração de artistas. Já na juventude, Badi escolheu alçar voos solos.
Das inspirações clássicas, da música de concerto, ela construiu suas três décadas “dedicadas à musa música”, como ela mesma define, mais de 26 álbuns na discografia e tantas colaborações no caminho, tanto como intérprete quanto como compositora.
Parte de Tudo Isso ganha alma com a voz e violão da artista, que promete muitas outras celebrações, como exposição no museu da família e outro disco em 2026. Em entrevista à Noize, Badi abre seus planos de comemorações, artistas da nova geração que admira e o segredo para carreira longeva.
O que significa, para você, celebrar esses 35 anos com um álbum de inéditas?
É uma verdadeira celebração. Fico feliz e orgulhosa de poder contar com a participação de tanta gente desse tamanho, tanto na parte das composições quanto na produção do disco. Dá uma tremenda satisfação ver um trabalho tão bem feito e cheio de amor. Estou soprando as velhinhas dessa comemoração [risos].
Esse é o primeiro capítulo das celebrações. O que mais vem por aí?
Em março lanço outro disco, com releituras de músicas importantes na minha caminhada, tanto as que eu já gravei quanto outras que sempre quis, mas não tive a oportunidade antes, como “Linha de Passe”, do João Bosco, e “Comportamento Geral” do Gonzaguinha. Também vai entrar um tributo à minha mãe, com uma versão de “Boa Noite, Amor”, ao lado do meu irmão Sérgio tocando violão.
Ainda em março, começa a exposição “35 de Badi” no Museu Família Assad. Antes, em dezembro, tem uma homenagem aos 60 anos de carreira dos meus irmãos. O museu é um projeto de três anos de lançamentos, compartilhando o legado dessa família bem singular brasileira. Por enquanto, é isso de comemoração, terão mais coisas, mas já está bom para compartilhar.
Vocês são nossa verdadeira família tradicional brasileira.
Ai, completamente, né? [risos]
O álbum traz faixas autorais, mas você também divide a caneta com Adriana Calcanhoto, Otto, André Abujamra, Ceumar e Pedro Luís, por exemplo. Como foi o processo de composição?
Cada uma nasceu de um jeito. A Adriana me mandou um rabisco de letra, retornei pra ela uma ideia já musicada, estruturada com harmonia, melodia, e ela continuou fechou a letra. Com a Ceumar já foi ao contrário: enviei algumas possibilidades de canção e ela escolheu.
Com o Otto e com Abujamra foi meio a meio. Cada um enviava uma estrofe e um ia completando, foi um processo muito bacana. Já com o Pedro é uma música que já existia, escrevi quando minha filha tinha dois anos, e só agora, 16 anos depois, decidi gravar.
A Adriana, inclusive, é alguém que eu sempre quis gravar. Há anos falamos sobre isso, foi muito especial que o encontro acontecesse durante essa celebração.

Como foi o processo de curadoria das faixas e escolha dos compositores? Houve alguma música ou parceria que te surpreendeu especialmente?
Todos os processos foram tão bem construídos e tão prazerosos… O disco é metade autoral e metade são músicas inéditas entregues para mim, algo que nunca tinha me acontecido antes. Uma grata surpresa foi “Imaterial”, do Nando Reis e do Zé Renato.
Quando disse que eu gostaria de gravar a música, Nando decidiu trocar toda a letra, deixando mais a minha cara [risos]. “Possível Manual do Amor”, do Moska, ele já compôs pensando em mim. Isso é muito gostoso.
Você atua tanto como intérprete quanto como compositora. O que mais te encanta em cada um desses lados?
Vou contar uma piadinha antes: um cara entra em uma loja para comprar um passarinho e pergunta para o vendedor: o passarinho que canta é quanto?, no que ele responde R$ 100 reais. Ah, R$ 100 reais é caro, quanto é esse do lado?. Esse é R$ 500. Ué, por que ele é mais caro? O vendedor diz: O de 100 é o cantor, o de 500 o compositor [risos]
A moral é que o intérprete não existe sem o compositor. Mas, respondendo a sua pergunta, eu tenho um prazer muito grande, de viver a verdade da música em todas as vezes que eu canto. Mesmo que a música não tenha sido minha composição, nos três ou quatro minutos da canção, ela passa a ser, minha identidade se mistura a dela.
Se eu escolho uma canção para o meu repertório, é porque gostaria de ter escrito ela. Se eu tivesse que escolher, escolheria ser intérprete, é o momento mais vivo da arte. Agora, na composição, também dá um prazer gigantesco, é uma ideia que nasce.
Esse é um sentimento que existe entre muitos cantautores, você ouve a música já meio pronta, ela passa pela gente e se concretiza sozinha. A música é presente em toda a nossa vida, e se a gente for prestar atenção no batuque aqui das marteladas do vizinho, vai ser uma inspiração rítmica pra alguma coisa.
A música é viva e presente 24 horas por dia em todos os cantos. E poder estar atento a isso e transformar os sons em música, ter uma intuição e sensibilidade para que isso aconteça, é um prazer gigantesco.
O disco transita por diferentes estilos. Além de uma celebração a sua carreira, é uma carta de amor à MPB. Como você equilibrou essa diversidade sonora mantendo uma identidade coesa no álbum? Há uma linha condutora que conecta as canções?
Se essa linha existiu, ela nasceu da intuição, não foi algo consciente. De fato, cada música vem de um lugar diferente, então, meu único recorte para o álbum era ser de artista da mesma geração que eu. Por isso, na sonoridade, tem gente de diferentes vertentes da MPB, do rock à música mineira e nordestina, cada um desses cantautores vem de uma parte, uma região do país, trazendo a sua identidade.
Acho que a coerência acontece por causa da banda, com Débora Gurgel no piano, Fábio Sá no contrabaixo, Serginho Machado na bateria e eu no violão e na voz, criando uma unidade no álbum. As coisas foram acontecendo, não planejamos nada.
Depois da audição, uma roteirista da HBO veio falar comigo e disse: “O álbum traz uma narrativa completa sobre a mulher, as várias fases do feminino, né? A mulher como um vulcão, essa força que há de dentro e explode”. Achei isso muito interessante, ela criou essa narrativa e eu falei depois me manda para eu repetir [risos].

O disco foi produzido por Marcus Preto e Tó Brandileone, mestres de grande sensibilidade musical. Como foi a troca criativa entre vocês três?
Um conglomerado de boas energias! É bonito ver o Tó trabalhando, ele entra dentro do universo de cada música e em toda sensibilidade do artista. Todas as suas sugestões musicais partem de um lugar cheio de excelência e de um jeito tão carinhoso que a gente faz o que ele pede na hora [risos].
E o Preto é o cara que dá o selo final. Se tem um impasse, nossa, eu não sei. Foi meio: O que você acha, Preto? E ele: Eu prefiro isso. Beleza, tá escolhido [risos]. É um cara de uma vivência muito grande dentro da MPB, com diferentes gerações, então, ele tem uma percepção muito aguçada e tudo que ele fala eu ouço com muita atenção, sempre.
O que o “Parte de Tudo Isso” representa? Seria uma síntese da sua jornada, da música brasileira, ou algo mais pessoal?
O álbum é nomeado por essa faixa, que é uma composição minha com a Ceumar. Buscando o novo do disco, batendo o olho pelo repertório, fez todo sentido, é um disco que fala sobre minha trajetória, toda minha caminhada na música.
São anos e anos dedicados à musa música. Tenho orgulho de pagar minhas contas com a profissão que eu amo tanto.
É uma jornada prazerosa o tempo inteiro, mesmo quando faço show doente, por exemplo, na hora que entro no palco, um milagre acontece e tudo vale a pena, é uma vida regada de satisfação, mesmo com todos os perrengues.
Você transita entre o Brasil e o mundo. Como essa experiência internacional dialoga com o repertório do novo álbum?
Esse é meu 26º disco e o mais brasileiro da minha discografia. Nos outros trabalhos trago, pelo menos, uma música cantada em inglês, exatamente porque sou muito influenciada por artistas do mundo, faço diversos shows fora do país, então exploro esse outro lado.
Mas, neste disco, não tem nada em inglês, ainda sim, ele dialoga com o mundo, porque quanto mais a gente olha para dentro, para nossa cultura, mais internacional o trabalho fica, sabe? Acabei de voltar da Womex, uma das maiores conferências do mercado da música.
Lá, tive a oportunidade de assistir shows de artistas do mundo inteiro e, quanto mais próximo da raiz, mais interessante era o show. Um disco celebrativo, como é Parte de Tudo Isso, era natural que seguisse o caminho mais brasileiro possível.

A música brasileira vive um momento de muita diversidade. Como você vê o papel da sua geração nesse cenário atual? Tem alguém que você gostaria de colaborar?
Tem, tem sim. Eu acho que tem uma galera nova e fantástica surgindo, por várias razões. A Josyara, por exemplo, está trazendo o violão de volta com uma força incrível — essa mulher é porreta, toca demais e as músicas dela são ótimas. A Julinha Linhares, com esse Nordeste tão visceral e bonito que ela carrega, é um prazer de ver.
A Lívia Mattos, baiana, com quem já trabalhei antes, está num momento artístico lindo — dá pra ver o quanto ela amadureceu, o quanto o trabalho dela cresceu. E tem muitos outros, né? Na audição, estava o Ayrton Montarroyos. Que rapaz! Que coisa linda aquela voz, aquele sotaque delicioso, e ainda super conectado com a história da música brasileira. Ele entende mesmo do assunto, é bom conversar com ele porque fala com propriedade, não é só achismo. Tem também o Jota.pê, que é um querido.
E por aí vai: Larissa Luz, Vanessa Moreno… tantas vozes potentes da atualidade, cada um fazendo uma música de excelência, com suas próprias influências e uma qualidade enorme. A música brasileira está em constante progresso, é bonito de ver.
A Maria Beraldo, por exemplo, tem uma autenticidade fenomenal. O novo disco dela, Colinho (2024), concorreu ao Grammy — e é um trabalho super alternativo. É maravilhoso ver esse tipo de som chegando tão longe, dá esperança de que nem tudo seja “chover no molhado”, né? Lindo ver também essas mulheres ocupando o espaço que sempre deveriam ter tido, mas que o Brasil muitas vezes nega.
Agora a Alaíde Costa, com quase 90 anos, finalmente sendo reconhecida, ganhou o edital da Natura pra fazer um disco! Imagina, uma mulher de 90 anos sendo premiada assim, pra que mais gente possa conhecê-la. O Brasil está cheio dessas contradições.
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É um país riquíssimo, mas ainda dá pena ver como os line-ups nem sempre dão espaço pra essa galera nova, cheia de potencial. E eu me incluo nisso — também não sou conhecida nacionalmente, e é difícil furar essas bolhas, entrar nos festivais, se fazer ouvir. Mas seguimos com o sangue jovem.
Vamos ver o que vem pela frente.
E olhando para o futuro: o que ainda te move artisticamente depois de 35 anos de carreira?
Tenho a mente muito curiosa, se precisasse viver fazendo a mesma coisa para sempre, me conheço, ia encher meu saco [risos] Estou sempre pensando qual meu próximo passo. Isso mantém a minha curiosidade e memória aguçada.
Eu vivo a emoção da música. Quero sempre estar nesse mundo, com a janela aberta, pensando no próximo passo porque isso é o que me mantém viva, jovem e saudável, estar sempre com a mente e coração abertos.