Da Batalha do Santa Cruz às premiações: retorno às origens de Emicida

21/01/2026

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Por: Thaís Regina

Fotos: Divulgação/Walter Firmo e Acervo Pessoal/Marcello Gugu

21/01/2026

Emicida retorna às origens no álbum Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores (2025). Das mixtapes à influência direta dos Racionais na sua rima – passando pela participação de parceiros como Rashid e Projota –, o trabalho evoca o início de sua carreira, que começou na Batalha do Santa Cruz.

Foi um vídeo que mudou o jogo. A segunda edição da Batalha do Santa Cruz aconteceu em fevereiro de 2006, num sábado à noite, naquela mesma estreita calçada saindo do metrô Santa Cruz, em São Paulo, onde a batalha ainda acontece hoje em dia (só que às segundas-feiras). Não poderia ser mais simbólico: de um lado, o shopping; do outro, a batalha de rima.

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Era 2006, três anos antes do Emicida soltar seu disco de estreia, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (2009), e dois anos depois do maior hit do Cabal, “Señorita”, tomar a pista, as rádios e os programas de videoclipes na televisão. Na época, as batalhas de rima em São Paulo eram muito esporádicas e, geralmente, os participantes eram convidados.

A Batalha do Santa Cruz, por sua vez, chegou com a proposta de promover um encontro semanal em que as pessoas pudessem se inscrever para rimar na hora. Na primeira edição, foram poucas pessoas, só os amigos do grupo Afrika Kidz Crew, que fundou a batalha, e um jovem franzino de 21 anos, um tal de Leandro, ou melhor, Emicida – que ficou sabendo da batalha pelo Orkut, chegou, rimou e levou a batalha.

Na segunda edição, Cabal passou a catraca do metrô Santa Cruz e, percebendo que estava adiantado, desceu pelo lado do shopping. Deu uma volta e foi acumulando burburinho em torno de si. Marcello Gugu, membro do Afrika Kidz Crew, viu o movimento e começou a ligar para os amigos, dizendo “você não sabe quem está aqui”. A segunda edição chegou quente, com um público grande.

Era Emicida versus Cabal. O vídeo rodou todas as comunidades de Orkut, rendendo milhares de visualizações no YouTube. Não é um duelo virtuoso, com grandes rimas, mas era o Cabal, que era conhecido, em uma batalha em que todo mundo podia rimar – e o Emicida, apesar de uma gaguejada ou outra, se destacou.

A circulação do vídeo mudou o jogo porque anunciou que ali existia uma escola em que qualquer um podia se aventurar no freestyle, lapidar suas rimas, sua cadência, sua postura, toda semana; então, era só questão de tempo: dali iria emergir a próxima geração do rap. Nomes como Bivolt, Drika Barbosa, Emicida, Rashid e Projota passaram pela chamada calçada sagrada. No sábado seguinte, a Batalha do Santa Cruz ia ferver.

“O hip-hop chegou pra gente de uma forma muito orgânica e muito inocente”, relembra Marcello Gugu, de 39 anos, “A gente começou a vivenciar uma parada que a gente não sabia nem o que era direito.” No começo dos anos 2000, gostar de rap significava roletar a cidade: colar no encontro quinzenal do site Bocada Forte no centro, descobrir onde tinham os bailes e as festinhas de rap, e encostar para rimar em qualquer batalha que aparecesse.

Como Marcello não tinha contato com o pessoal da Academia Brasileira de Rima, grupo formado por Akin, Paulo Napoli, Kamau, Max B.O, Donão, que faziam batalhas com convidados, o negócio era desbravar qualquer canto que desse para rimar. A pouca informação sobre rap vinha do Bocada Forte e da rádio 105 FM. Cortando a cidade grande pelos trens, Marcello e os amigos queriam fazer o Wu Tang Clan brasileiro. Criaram a Afrika Kidz Crew e foi aí que três amigos chegaram do Rio de Janeiro com vídeos de péssima qualidade, histórias extremamente duvidosas e a vontade de abalar a cidade.

“A Batalha da Santa Cruz surge num ímpeto da gente fazer um movimento nosso aqui em São Paulo, mas ela foi totalmente baseada na Batalha do Real do Rio de Janeiro”, conta Marcello Gugu. “Tanto que a gente falou com o pessoal da Brutal Crew na época, a Batalha do Real foi a grande matriarca do rolê, tá ligado?” As regras eram simples: as inscrições acontecem na hora, com 30 segundos para cada um rimar em uma melhor de três e o público decide quem ganha.

“No sábado, dia 18 de fevereiro de 2006, foi a primeira Santa Cruz e, na sexta seguinte, o Criolo e DJ Dandan jogaram a Rinha”, relembra, “Então ficava uma batalha de sexta, que era a Rinha dos MCs, e de sábado, que era a Santa Cruz. Então, do nada, você tinha dois dias de batalha com formatos diferentes e uma fortaleceu muito a outra.”

Rashid tinha acabado de voltar de Minas Gerais quando começaram os comentários que iria começar a Batalha do Santa Cruz em São Paulo. Ele foi na segunda semana, para assistir e, na terceira, para rimar. “Sempre fui muito tímido, então cheguei para observar, não conhecia ninguém ainda. Meus amigos do rap da zona norte não colaram e já vi uns nomes talentosos, inclusive um tal de Emicida”, brinca Rashid.

“Na outra semana, eu botei meu nome para batalhar. Minha primeira batalha foi contra o Emicida. Perdi – quem acompanha batalha de rima sabe o estrago que o Emicida fez nessa época. Foi minha primeira batalha oficial no Santa Cruz, o lugar que mudaria a minha vida, na cultura que mudou a minha vida e com uma das pessoas responsáveis por essa mudança na minha vida também. Ali eu encontrei minha família da rua, pessoas que acolhiam a gente, entendiam a gente, se pareciam com a gente, falavam como a gente falava e estavam atrás do que representava a contracultura daquele momento.”

Por mais delirante que possa parecer hoje, em 2010 o debate ainda era se rap é música ou não. Toda essa movimentação dos grupos que se reuniam semanalmente perto da Galeria Olido nas quintas, na Rinha dos MCs nas sextas e na Batalha do Santa Cruz nos sábados ajudaram a formar uma geração underground expressiva – e com uma curiosa afinidade literária.

“A minha geração tem peculiaridades muito engraçadas”, relembra Marcello Gugu, “Tinha uma época que colava o Rashid, Emicida, eu e uma galera de mochilinha assim e a disputa não era só na rima: era quem tinha o maior livro, quem estava lendo o livro com mais páginas. Era muito bobo, mas eu nunca vou esquecer um dia que o Emicida trouxe uma versão do Dom Quixote que tinha muitas páginas, e eu ficava olhando e pensando assim, mano, sem maldade, eu já li esse livro e não era tão grande, o que tem nessa edição, tá ligado?”

Para Marcello Gugu, o que motivou essa fome literária da geração era o sistema de regras da Batalha do Santa Cruz. Eram proibidas referências à mãe ou namorado nas rimas, proibido ser homofóbico e encostar no adversário. Para uma batalha de sangue, em que o objetivo passa por ridicularizar o seu adversário, ter essas regras era raro.

“Você realmente precisava entregar sua melhor rima, seu raciocínio fora da casta”, comenta, “E aí, para além disso, acho que as batalhas em geral ensinam o MC a lidar com ele mesmo, porque você vai aprender a lidar com os seus pontos fracos, com coisas que você não gosta em você que vão ser expostas na frente de uma galera de mil pessoas. Você vai aprender a lidar com o público, entender o que cada público quer, lidar com situações adversas, então, acho que a batalha não forma só MCs, mas também forma mestres de consciência.”

“Na época, a gente era muito apaixonado pela cultura samurai por ver a batalha de freestyle meio próximo da mentalidade de samurais”, conta Rashid, “O Hagakure foi indicado pro Emicida pelo Marechal e virou meu livro de cabeceira por muitos anos.” Nesse movimento, Rashid mergulhou na literatura a fim de se munir de novas ideias, novas referências e novas palavras, para rimar mais e melhor. Ler era desbravar um universo já pensando em como ostentar seu repertório na semana seguinte. 

“A melhor parte da batalha de rima é quando você ganha”, brinca Rashid. “É a resposta mais óbvia, né? Para mim, a melhor parte da batalha de rima era chegar, trombar todo mundo, cumprimentar, fazer a sessão de rima antes e depois da batalha. E a pior parte da batalha pra mim é botar o nome, se inscrever sempre era o momento em que eu tremia na base”.

“Perder e ganhar não são nem a pior, nem a melhor parte. Na batalha de rima, tanto a vitória quanto a derrota valem a mesma coisa, no sentido de que elas valem o que você vai fazer delas. Você transforma a vitória ou a derrota em alguma coisa que vale a pena ou que não vale a pena. Várias vezes eu perdia e voltava pra casa louco, não via a hora de chegar a próxima semana e batalhar de novo e, dessa vez, ganhar.”

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #158 que acompanha o disco Portal, de Rashid, lançado pelo Noize Record Club.

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Thaís Regina