A relação com o vinil, para o casal Carla e Rasmus Schack, dupla de DJs por trás do projeto Batukizer, começa muito antes da pista de dança. Os dois — ela, brasileira, e ex- integrante do grupo Lilith, ele, dinamarquês e DJ de longa data — cresceram cercados por discos. Essa relação afetiva evoluiu para a pesquisa.
Movidos pela curiosidade e pelo desejo de construir uma identidade própria para a discotecagem, começaram a buscar discos que fugissem do óbvio. A ideia era criar sets inteiramente dedicados às “brasilidades”, explorando raridades e faixas “Lado B”.
“Discos raros não precisam ser caros. Para nós, também são importantes os discos mais acessíveis, com músicas não muito expostas, o famoso lado B dos álbuns.”
O projeto Batukizer, cujo nome nasce da palavra “batuque” mesclada ao sufixo inglês “izer”, simbolizando ação, nasceu oficialmente em 2014, durante um festival na Dinamarca, com um set de três horas composto exclusivamente por vinil brasileiro.
O insight para a curadoria veio logo após dois anos que o casal passou no Brasil, experiência que aprofundou a conexão com a música do país. Com o tempo, eles também passaram a produzir mixtapes. Já os sets no YouTube, batizadas de Kitchen Mixes, gravadas na casa dos dois, nasceram durante a pandemia.
Desde então, o método de trabalho se consolidou a partir de um ritual quase artesanal. No acervo-estúdio, os discos são limpos, ouvidos com atenção e catalogados com anotações detalhadas sobre estilo, BPM e possíveis usos. A partir daí, surgem ideias de mixtapes organizadas por gênero ou temática, que depois se transformam em sets.
“O ritual vem do exercício da escuta.”
Método e lugares para garimpar
A pesquisa passa pelas plataformas digitais, como YouTube e Discogs, visitas a acervos físicos e trocas constantes com outros DJs e músicos. Ao longo dos anos, Carla e Rasmus construíram uma cartografia afetiva de lojas, feiras e cidades onde o vinil segue pulsando.
Em São Paulo, a Disco7 é parada obrigatória; no Rio, o Dom Discos e a Supernuts; em Belém, a Banca do Max; em Salvador, a Bazar Som Três e a Caveira Discos. As feiras de rua, como a da Praça XV (RJ) ou a do Bixiga (SP) também ocupam um lugar especial.
“O vinil é uma herança cultural material e imaterial, que proporciona o ritual de escutar e desfrutar da arte de uma maneira mais lenta.”
A construção de cada apresentação, aliás, parte desse mesmo princípio. Os sets são pensados de acordo com o contexto, mas sempre carregam elementos essenciais: descobertas recentes, músicas “de coração” e edits próprios.
Após a pandemia, a dupla ampliou sua presença no país, onde hoje concentra sua principal base de fãs. Em 2025, a Batukizer realizou uma turnê de sete semanas, passando por festivais como Rock the Mountain, no Rio de Janeiro, e Curicaca, em Brasília.
Atualmente, a pesquisa se volta com mais intensidade para os compactos, que, além de oferecerem um vasto repertório ainda pouco explorado, facilitam a logística de quem viaja constantemente.
“Somos movidos por muita curiosidade, além da experiência de celebração-dançante e da paixão pelo povo e pela cultura brasileira.”
No meio de tantas descobertas, escolher um único disco que definiria o projeto é tarefa difícil. Ainda assim, a dupla destaca o LP independente da cantora alagoana Leureny, de 1985, gravado no Rio de Janeiro com participação de Rosinha de Valença.
Deste disco, a faixa “Baiana”, incluída em uma de suas mixtapes, sintetiza bem o espírito da pesquisa: uma obra singular, fora dos padrões, mas profundamente conectada à proposta artística do projeto. É essa combinação que mantém Carla e Rasmus cavando, disco a disco, em busca de sons que ainda têm muito a dizer.