Sonhar faz parte de mim. Imaginar o inimaginável. Naquele 2013, fazia quase um ano desde que havia me mudado para Porto Alegre, até os 17 anos morei em Santa Cruz do Sul e depois vim seguir o meu caminho porque queria o planejado: fazer cursinho e passar na federal. Guardei a bagagem e subi no ônibus, me sentei numa poltrona ao lado da janela, botei um álbum de Zé Ramalho nos fones de ouvido e fechei meus olhos, imaginando por que minha mãe me ligou uns dias antes pedindo uma visita de final de semana. Não era do feitio dela.
Faltava uma hora para chegar na rodoviária em Santa Cruz quando começou a tocar, na voz de Belchior, a música “Como Nossos Pais”, versão de 1980. Cantarolei mentalmente: “Vou ficar nessa cidade, não vou voltar pro sertão”, enquanto sentia saudade da família, do quarto de infância, da comida. Numa dessas brevidades da vida, dei play em Belchior, tinha no máximo umas dez músicas dele. Ouvi todas, repeti algumas. “Fotografia 3×4” foi a que me fez questionar por onde ele andava, sumido há anos.
Nesse momento eu não sabia muito sobre Belchior, apenas que tinha um amigo em comum com meus pais. O que eu tinha eram dez músicas e a lembrança de uma matéria sobre o carro dele ter sido encontrado num aeroporto por aí. Mal sabia eu que a ironia da vida havia lhe levado para uma casa na esquina da Rua José de Alencar com a Rua Oswaldo Aranha. Entre os nomes de um cearense e de um gaúcho, lá era onde meus pais moravam.
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Descendo do ônibus, deu vontade de procurar por mais canções dele. Minha mãe saiu do carro, me abraçou e disse que precisava conversar comigo. Nessa hora ela estava séria, um pouco ansiosa. Disse que eu precisaria guardar um segredo.
– Tem um casal lá em casa. Só que ninguém pode saber que estão com a gente. Depois eles te explicam. Tu precisas jurar guardar segredo.
Comecei a rir, e ainda com a história do Belchior em mente, comentei sarcasticamente:
– Que séria! Estão escondendo Belchior?
Minha mãe afirmou que sim, e falei que era brincadeira e que agora podia me contar a verdade. Ela sustentou que aquilo era a verdade, e seguimos. No carro, minhas mãos suavam, meu riso estava solto, corpo inquieto. Entrei pela porta dos fundos de casa. Ouvi uma voz alta, robusta, com sotaque cearense. Fui chegando na sala, um homem alto se levantou da cadeira de balanço, abriu os braços e, com um sorriso largo, falou:
– Marina, que linda! Finalmente estou te conhecendo!
Essa frase grudou na memória. Abracei o maior nome da MPB, que disse que preferia ser chamado por Antônio. Descobri que ele e meus pais tinham um amigo em comum, o Dorgival, e por isso Antônio ia passar um tempo com a gente. Então, comecei a me sentir uma jovem que estava revendo seu tio distante, porque, após um demorado abraço, ele começou a me fazer diversas perguntas.
Estava curioso sobre mim. “O que estás achando de Porto Alegre? Já decidiu qual curso queres fazer? Quantos anos tens?”. Respondi que não me sentia preparada para estudar Psicologia e que estava pensando em fazer História da Arte. A felicidade tomou conta do homem. Logo pediu um papel para escrever uma indicação de livro: História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser.
Belchior estava na minha sala de estar, dizendo o quanto seria fascinante se formar num bacharelado de História da Arte. Dias depois, deu a ideia para um trabalho de conclusão de curso: escrever sobre músicos que pintam. Expressou sua admiração por Bob Dylan também ter um dedo nas artes plásticas e disse que ele próprio também pintava, mas nunca aceitou mostrar suas obras. Me falou sobre as diversas versões de Drummond que pintou e sobre seus autorretratos.
Seguiu me dizendo que sabia que eu era especial antes de me conhecer porque, quando entrou no meu quarto (que, inclusive, foi emprestado pelos meus pais para ele dormir ali) e viu um quadro dos Beatles, juntamente com alguns vinis expostos na parede, dentre eles Pink Floyd e uma coletânea dele próprio com outros músicos, se encantou com meu gosto musical.
– Tão bom ver uma jovem prestigiar os antigos! Onde conseguiu aquele disco de coletânea que nem eu sabia da existência?
Dei risada. Contei que, uns meses atrás, havia encontrado o LP Gala 79 apresenta o melhor de Raul Seixas, Belchior e Guilherme Arantes por menos de R$10. Antônio adorou a história. No dia da sua morte, final de abril de 2017, abri a embalagem e vi que ele tinha o autografado para mim, sem eu saber. Surpresa! “Para Marina, com alegria e amizade, Belchior”, escreveu, com sua caligrafia singular.
Com o inusitado de descobrir que Belchior estava morando com meus pais, comecei a vir mais vezes visitar a família e passar tempo com Antônio. Durante as jantas, Bel gostava de tomar uma ou duas taças de vinho e nos contava histórias de Sobral, no Ceará. Um dia contou o quanto sentia falta de Raul.
– Raul não era louco, era sim muito engraçado.
Eu achava curioso que ele tinha decidido não tocar ou cantar na frente da gente, mas adorava reproduzir vídeos de fãs ou outros cantores tocando suas músicas. Abria o Youtube e brincava de procurar versões de suas músicas que ainda não conhecia.
Numa noite, antes da janta ficar pronta, Antônio nos mostrou vídeos que o faziam demasiadamente feliz. A versão de Engenheiros do Hawaii, nas ruas de Porto Alegre, cantando “Alucinação”. O show do Los Hermanos no programa Altas Horas, em que Bel cantou junto “A Palo Seco”. E claro, “Como Nossos Pais” na voz da talentosa Elis. Revelei que preferia a versão dele, Antônio começou a rir, agradeceu e se sentiu honrado, mas disse que ele preferia a versão dela, pois nunca saberia fazer o que ela elaborou.
Bel me perguntou se gostava de escrever e respondi que, quando criança tinha um diário. Então, perguntei se seria possível ele autografar para mim. Afetuoso do jeito que era, pediu meu diário, uma caneta e silêncio.
Nesse momento, acabou a luz. Aí ele adicionou velas ao pedido. Passou meia hora e me entregou, à luz de velas, uma mensagem junto ao autógrafo: “Beauty is a joy forever”. Belchior mencionou o poeta inglês John Keats e me pediu para um dia ler o poema que conserva essa frase.
Minha família tem umas terras no interior de Sobradinho, num lugar chamado Murta. Como não queria ser visto por mais ninguém, o levamos para conhecer. Nunca o tinha visto tão feliz. Belchior acordava cedo, visitava a horta, colhia tomates. Na hora do almoço, peixe e lentilha. Não comer carne vermelha e frango era uma escolha sábia, consciente e de muita admiração minha, que sou vegetariana.
á não tinha TV, nem computador. Belchior passava suas tardes ouvindo rádio ou CDs que emprestamos. Um que gostou bastante foi Songs Around The World (2008), do projeto Playing For Change. Carinhosamente contei o propósito do grupo, que atravessa o mundo conectando pessoas pela música. Outro que adorava ouvir era Vitor Ramil.
Um dia à tardinha, fomos caminhar por Murta, ver o pôr do sol. Belchior começou a olhar para cima, observar as árvores, os pássaros, e assoviou imitando um passarinho. O som ecoava nas sombras dos galhos e chamava os seres voantes. Os passarinhos se aproximavam e cantavam no mesmo tom que Bel. Os sons de ambos se fundiram numa bela canção. Soa sonhadora demais uma cena dessas, mas sorte minha ter a testemunhado.
No primeiro dia que o conheci, sentou-se ao meu lado e disse que decidiu viver assim, longe da mídia, dos conhecidos, da família. Belchior morou menos de três meses com a gente, minha opinião sobre sua escolha de vida é baseada em pequenas observações e conversas durante as jantas.
O que me pareceu é que ele vivia um paradoxo, numa constante luta consigo mesmo. Falou em alto e bom tom que estava vivendo uma experiência diferente, que escolheu passar por isso e nos pedia, gentilmente, para manter segredo. Entretanto, em determinados momentos, seus olhos e seu sorriso pareciam demonstrar uma vontade de voltar a cantar.
Um dia emprestei meu caderno antigo de História, do Ensino Médio. A capa trazia uma fotografia preto e branco dos Beatles. Bel agradeceu profundamente e desde aí, não parava de escrever nele. O que, exatamente, não sei. Mas suas mãos se cansavam de tanto se dedicar naquele caderno. Nunca mais o vi, não sei onde foi parar.
No dia 28 de dezembro de 2013, saiu a reportagem “A divina tragédia de Belchior”. Foi o motivo de Belchior ter que ir embora da nossa casa. Lembro bem, lemos todos juntos logo após o almoço. Meus pais ficaram preocupados, porque o jornalista aparentemente sabia que o último paradeiro dele havia sido a menos de 200 km de Santa Cruz do Sul.
Neste momento eu não o via mais como um músico famoso, Antônio era um amigo próximo da família. E foi difícil ver seu mal-estar e inconformismo com essa reportagem. Quem leu esta carta até aqui talvez esteja se perguntando por que eu ainda não abordei a relação de Bel com Edna. Depois de ouvir e ler tanto sobre, decidi comentar somente isso: Belchior e Edna se respeitavam e se amavam. Era um amor simples, tinham seus acordos, suas definições e isso bastava para serem felizes juntos. Para mim, era isso que importava.
Bel chamou meu pai para conversar, pois queria ver a possibilidade de voltar para Murta, assim quem sabe não os descobririam em Santa Cruz do Sul. Porém, dias depois meus pais iam viajar, e eu iria ficar sozinha com o casal. Foi medo o sentimento de todos, de algo dar errado. Lembrando que eu tinha somente 18 anos na época.
Dia 28, de noite, Belchior desceu as escadas com suas malas e seus materiais de desenho e pintura. Mesmo descontentes, nos demos tchau. Abraços tristes, lágrimas no rosto e o peito apertado. Ele saiu pela garagem, levando junto um cartão que escrevi com nossos telefones e informações caso precisem.
Decidimos não perguntar para onde iria, qual seria o próximo plano. A imagem dele indo me conectou às suas palavras: “Eu estou muito cansado do peso da minha cabeça, desses dez anos passados, presentes, vividos, entre o sonho e o som”.
Desde que foi embora, quando o escuto, me arrepio ao perceber que suas letras escritas há décadas refletem seus últimos anos de vida. Belchior escolheu morar em Santa Cruz, ficou quatro anos nessa nem tão pacata cidade, com um pouco menos de 150 mil habitantes. Ficou ali porque as famílias que o receberam respeitaram seu pedido de manter tudo em segredo. Amizades fortaleceram sua relação com a cidade, com seu momento de introspecção e de fascínio pelo lado simples da vida.
Escrevo esse texto com lágrimas nos olhos ao lembrar de seus abraços matinais, de seus sorrisos envergonhados quando tocava suas músicas durante a janta, da sua rotina de ver filmes brasileiros durante a tarde. Mês que vem vai fazer dez anos desde que o vi pela primeira vez. Mais um ano torcendo que lá em cima sua vida esteja sendo leve como foi seu canto e assovio breve num pôr do sol na Murta.

