Nesta quinta-feira (28/1), Catto se apresenta no Rio de Janeiro, no Teatro Riachuelo. Depois, a artista segue para São Paulo, com três shows marcados no Sesc Bom Retiro [ingressos abaixo]. No repertório, ela apresenta Caminhos Selvagens (2025), título #102 do Noize Record Club. Relembre abaixo a entrevista publicada na revista enquanto da play no álbum:
Sete anos separam as primeiras demos gravadas no celular daquilo que se tornou um dos mais promissores álbuns do cenário atual. Caminhos Selvagens nasce de uma urgência de gritar tudo o que pulsa e sangra no peito da multi-artista. É sobre perdas, TRANSformações, separações – mas também celebra encontros, gozos casuais e cicatrizes em evidências, que permanecem brilhando como uma estrela escarlate.
Não estranhe se, ao ouvir o disco, ter a sensação de já o ter escutado no seu toca-fitas dos anos 90. Como fã do grunge feminino, Catto bebe dessas referências para compor o projeto, como To Bring You My Love (1995), da PJ Harvey, Celebrity Skin (1998), da banda Hole ou Tidal (1996), da Fiona Apple. Esses álbuns servem de bússolas para a artista revisitar a estrada da artista e se reinventar à maneira dela.
Entre guitarras distorcidas, atmosferas etéreas e arranjos orquestrais, o álbum revela uma Catto mais íntima – mas também mais crua e feroz. A abertura vem como um soco: “Não Aprendi a Perdoar” estabelece um tom maduro e com sede de vingança. Na sequência, “Te Amo” (com clipe dirigido por Juliana Robin) nos arrebata para uma estrada escura onde o amor é cercado por riscos e delírios – um perigo ao qual a gente sempre retorna.
Em “Solidão é uma Festa”, a vulnerabilidade se mostra triunfante sobre o som de guitarras dilacerantes. É uma Catto embriagada de vinhos e lágrimas, desabafando sobre os encontros mais íntimos. “Para Yuri Todos os Meus Beijos” fecha essa primeira parte com uma confissão nua de amor, sem filtros, onde ela revisita todos os seus amantes, nomeando um por um — sem arrependimentos.
A faixa-título, composta com César Lacerda (que também assina o piano da canção), é um poema-manifesto que sangra entre despedidas e renascimentos. “É sobre a minha transição de gênero e percorrer os caminhos mais selvagens e impossíveis para botar pra fora quem sou!”, diz a artista.
Já “Madrigal” faz do prazer de um sexo noturno uma liturgia densa — uma canção que flui entre “Like a Prayer”, da Madonna, e “Rid of Me”, da PJ Harvey, mas sem perder sua assinatura transgressora. Em “1001 Noites is Over”, Catto traz um frescor de liberdade ao repetir o desejo de querer apenas “arrasar e ser feliz”. Um mantra pós-moderno digno, à la Claudia Wonder. E por fim, “Leite Derramado” encerra o disco como um epitáfio entre ironia, ruínas e até mesmo uma ternura. “Quem diria que o fim desse mundo era você?”.
Gravado no Estúdio 12 Dólares, em São Paulo, Catto contou com a cumplicidade dos amigos de longa data, de Fábio Pinczowski (guitarras, violão, voz e direção musical) e Jojô Inácio (baixo synth e guitarras), além de Tofu Valsechi e Pedro Serapicos e mixagem de Tiago Abrahão (Make Love Studio, em São Paulo) e masterização de Brian Lucey (Magic Garden Mastering, em Los Angeles).
O disco é direto, espontâneo e impulsivo. Fábio Pinczowski explica um pouco esse clima: “Tentamos não editar quase nada, pra não entrar numa busca da perfeição. Quanto mais imperfeito a gente soa, mais potente o disco fica. É um disco cheio de ruídos. Tem o som da casa dela, tem a respiração bem alta na mix. É um trabalho que não está embrulhado pra presente, é como se a gente estivesse gravando uma trilha sonora para o dia a dia dela”, diz Pinc, definindo o álbum como um dos mais promissores de sua carreira como produtor.
“Fizemos várias sessões de voz até acharmos o take que traduzisse aquela canção. Acredito que foi o projeto mais delicado de cantar na carreira dela. Fomos criando as atmosferas, sujando com as guitarras e as músicas foram se tornando épicas”, finaliza.
Jojo complementa: “Ouvíamos as mesmas músicas né?! O baixo que gravei em “Solidão é uma Festa”, é bem inspirado no Black Rebel Motorcycle Club. Tem muita influência de New Order, também. O disco é sobre ela, mas também é sobre mim. Sou eu pensando nela… Foi um processo de confiança muito grande um com o outro”, conta.
Com Caminhos Selvagens a artista soma oito álbuns, entre trabalhos de estúdio e registros ao vivo: Saga (2009), Fôlego (2011), Entre Cabelos Olhos e Furacões (2013), Tomada (2015), CATTO (2017), O Nascimento de Vênus Tour (2021) e Belezas São Coisas Acesas Por Dentro (2023).
A artista entrou em turnê com o novo projeto ao lado de Fábio Pinczowski na direção musical, Jojô Inácio na guitarra e violão, de Michelle Abu na bateria, Gabriel Mayall no baixo e Júlia Kluber no piano. Ouvir Caminhos Selvagens é como estar na cama de um motel beira-estrada com a Catto, nós duas fumando um Marlboro, com uma garrafa de Jack Daniel’s na mão e desabafando sobre todas as angústias e prazeres de ser uma travesti. “Esse trabalho fiz com toda a minha intimidade pra nós, para as nossas garotas. Um disco de trava para trava”, define.
Quais foram as estradas mais selvagens que você andou para chegar até aqui?
Caminhos Selvagens é um grande trajeto de autoconhecimento. Seja através do sexo, do amor, das drogas, da arte, etc. É o nosso próprio corpo colocado nessa encruzilhada que é a vida. É completamente selvagem, não temos nenhum controle sobre ela. Vai nos rasgando por inteira, sabe?! Pra gente conquistar quem a gente é, temos que beber da água da loucura!

E é um processo muito doloroso.
É tanto desamor pra poder achar o que é o amor. A gente vive tantos castigos, tantas dores, pra poder se levantar e olhar de cabeça erguida pro mundo e dizer “essa sou eu!”. Tem que abandonar as expectativas do amor. Tem que se permitir ser odiada. Se permitir ser objetificada e usar isso ao nosso favor. É uma coisa muito maluca! Também é um projeto anárquico, pois ele atravessa outras pessoas trans — especialmente travestis.
Cantar sobre isso é difícil?
É sobre a delícia de ser uma travesti! Não trocaria a minha vida para ser uma pessoa cis hétero. As dores que carrego são absurdas, mas posso te afirmar, amiga, não sou vítima de porra nenhuma! E fico feliz de ter a oportunidade em vida de fazer as minhas verdadeiras escolhas. De verdade mesmo, esse é um trabalho de “Trava pra Trava”, pois tem um recorte de olhar para o mundo que é muito específico. Mesmo sendo um disco de amor — que é um sentimento universal — existem os detalhes, as sutilezas das nossas experiências juntas como travestis.
Como este disco dialoga com as suas obras anteriores? Ou é um início de uma nova jornada que você quer percorrer?
Caminhos Selvagens é o Saga parte 2. Não é uma ruptura, é uma volta. Tudo que está nesse disco já foi dito no primeiro EP. É uma trajetória de retorno à Porto Alegre de 2007. Ele tem um pouco esse senso de como se estivesse fazendo justiça pelo meu passado. Pois, naquela época, já poderia ter transicionado… E acho que só agora que consegui recuperar essa pessoa que sou.
Sei que é uma escolha muito difícil, mas se você pudesse definir uma canção para apresentar o disco, qual seria?
Sem dúvidas, “Madrigal” é a música mais importante da minha vida! Ela me desafiou, ela me assombra. Quando a escrevi, meio que vomitei tudo ali. E amo como é uma música muito ambígua e com várias camadas. Quase uma súplica divina, uma pessoa desejando ser adorada, ser amada por alguém e que nunca sentiu esse amor. Mas é também uma canção de poder! “Quero que você me adore” — ela não está te pedindo, está mandando! Então, não é só sobre uma mulher diante da pessoa que ama, ou sobre ser amada. É uma afirmação da artista, da performer para a audiência… “Você pode me comer como você quiser”. E vou dar tudo que o vocês quiserem! [risos].

No ensaio que acompanhei, você brincou que esse disco é tosco, mas, ao mesmo tempo, polido, que nem o Belezas. “Um grunge sinfônico”, você disse. Como foi o processo de produção?
Foi o trabalho mais interessante que já fiz. Escrevia as canções e gravava no celular “meio lofi”. Era aquela coisa crua, com o violão, os beats. Estava num processo de intimidade muito grande com o Jojo durante a pandemia. Digo que ele é o Noel Gallagher [risos]. A gente bebe das mesmas influências. Ele conhece de onde vim!
Foram 7 anos para o Caminhos Selvagens realmente vir ao mundo! Como foi criar essa sonoridade de uma forma que mostrasse essa “nova vulnerabilidade”? Você chegou a ter medo de se mostrar dessa maneira?
Essa conversa tá parecendo uma terapia! [risos]. Todo o processo de composição foi muito doloroso. Não sabia cantar, não sabia tocar. De fato, estava renascendo ali. Sabe quando a águia arranca o bico e as unhas inteiras na pedra, pois ela precisa se regenerar?! Me vi assim! Reaprendi a cantar. E me sinto grata por ter o Jojo e o Pinc ao meu lado, pois não iria conseguir fazer isso sozinha!
Além de todos esses desafios, você ainda escolheu o disco para ser lançado de forma independente. Isso te deu mais liberdade?
Sou muito grata por todo o período que passei em uma multinacional. Aprendi muito ali, mas sou uma artista que preciso do meu tempo, meu espaço. Sou uma artesã do meu trabalho. Rejeito completamente a ideia de ser um produto, ou uma marca. Faço tudo de forma independente porque não gosto de responder a ninguém. E isso é maravilhoso! Gosto muito de escolher com quem produzo e de estar com quem estou.
E agora o Caminhos Selvagens vem em vinil pela Noize. Isso é muito chique! Como você se sente?
Ter um disco em vinil é tão lindo! Porque a música é apenas um código binário, um monte de número. Algo abstrato. E aí, quando ela é impressa num vinil, parece que de certa forma, ela existe! [risos]. Tenho essa sensação… É um objeto ali concretizado. Tudo o que fiz, toda a minha doação, todos os meus porres e insônias, valeram a pena no final das contas! Me sinto como se fosse uma boa mãe, sei que as minhas crianças estão em segurança! [risos].
Deixa te perguntar: você está feliz?
Tô e muito… [se emociona]. Com a repercussão do Belezas foi apoteótico, orgástico, tudo muito incrível — mas agora já sei o que quero fazer: só quero arrasar e ser feliz!

Catto – Turnê Caminhos Selvagens
Rio de Janeiro – 28/1 – Teatro Riachuelo – Ingressos
São Paulo – 30/1, 31/1 e 1/2 – Sesc Bom Retiro – Ingressos na bilheteria