Fernando Catatau, artista de Fortaleza prolífico no cenário independente há 30 anos, está à frente do projeto Cidadão Instigado desde 1996. Após lançar cinco álbuns calcados na mistura cosmopolita de rock e música romântica brasileira pincelada por ritmos nordestinos, o artista lançou músicas solo e, neste 2026, decidiu retomar o projeto que delineou sua carreira.
Mas não espere por um mesmo Cidadão Instigado. Após passar mudanças na formação, 11 anos depois após Fortaleza (2015), o projeto toma novo corpo no álbum homônimo, lançado em março pelo selo Risco. O disco, essencialmente, é fruto das experimentações solitárias de Catatau com uma Roland MV-8800 durante a pandemia. “Quando me vi em casa trancado e sem expectativas, comecei a estudar e experimentar nela pra ocupar meu tempo e não endoidar”, divide o artista à Noize. Então, não espere por solos de guitarra: apesar de tomar o rock como essência ou temática, a sonoridade agora transita por um lo-fi introspectivo.
“Foi um momento muito estranho e confesso que não fui das pessoas que passaram muito bem. Direcionei minhas forças pra criação e comecei a fazer coisas sem um rumo muito certo”, conta. “Fui experimentando o que vinha na cabeça e tudo o que eu fazia me lembrava demais as primeiras fases da Cidadão, como se habitassem no mesmo campo de ideias”.
Catatau mostrou as canções para Dustan Gallas, que sugeriu que ele lançasse o disco como Cidadão Instigado. “Eu até relutei no começo, porque pra mim eu já estava traçando um caminho com meu projeto solo, mas acho que foi uma coisa tão natural que não tive como não aceitar. Era como um resgate da essência “cidadônica” de quando comecei a idealizar o trabalho em 1994”, define.
Como reflexo da nova fase, o artista chamou para colaborar alguns dos mais interessantes e experimentais artistas da nova geração: Jadsa, Anna Vis, YMA, Mateus Fazeno Rock e Edson Van Gogh se unem a Ava Rocha, Juçara Marçal e Kiko Dinucci. As parcerias se deram, em sua maioria, na residência que o artista fez no Centro da Terra, em São Paulo, a convite do jornalista Alexandre Matias, batizado de “Frita”.
“Essa foi a gangue que eu tive o privilégio de me juntar pra essa temporada e o resultado foi algo realmente surpreendente. As únicas pessoas que não participaram da temporada mas estão no disco foram a Ava Rocha e os meninos (Regis Damasceno, Dustan Gallas, Clayton Martin e Rian Batista), mas são pessoas tão especiais na minha vida e que sou tão fã, que não tinham como não estar comigo nessa”, diz.
Ainda assim, os antigos companheiros estão ali: Clayton Martin, Dustan Gallas, Rian Batista e Regis Damasceno participam do disco. Nos shows, Catatau vem bem acompanhado por Dustan Gallas (baixo, synths e vocais), Clayton Martin (voz), Rubi Assunção (voz e baixo synth) e Samuel Fraga (bateria e bateria eletrônica), além de participações especiais que variam de cidade para cidade.
Confira Cidadão Instigado faixa a faixa:
“Sangue no chão”: A música que abre o disco, “Sangue no chão”, fala muito sobre o que eu imaginava como seriam nossas vidas depois da pandemia. O criar forças para se levantar e seguir em frente. Essa é a terceira música que fiz com minha amiga incrível, Juçara Marçal. Já tínhamos feito nossa primeira parceria durante a pandemia, que foi “Lembranças que guardei”, pro DEB.
Quando fiz os beats dessa música, ficou um lance meio duro, quase marcial. E era nesse cenário que eu imaginava que seria a volta pra vida no pós-pandemia. Tem um lance que sempre me impressiona que é a junção das nossas vozes. Acho que tem uma liga de vozes que se complementam que às vezes até eu me confundo quem é quem.
“Tudo vai ser diferente”: Essa música é uma extensão de “Sangue no Chão”. Eu sinto que ela me remete a alguns lugares e coisas que já vivi. Quando entra a voz meio esgoelada e lamentosa e, na sequência, vem a calmaria com o trompete, foi quando tive a ideia de convidar meus irmãos parceiros de Cidadão Instigado, Regis Damasceno, Dustan Gallas, Rian Batista e Clayton Martin para fazermos um solo bem “cidadônico”. E foi exatamente o que aconteceu. Me emociono toda vez que entra essa parte.
“Medo do invisível”: Surgiu na época da temporada ‘Frita’. Estávamos eu e Kiko Dinucci na minha casa levantando ideias para o show e, de repente, começamos a conversar sobre os estragos causados pela pandemia. Sobre como ficou marcado pra mim o medo do que eu não via. Ele contou também que sentiu umas coisas assim. E o papo foi seguindo e falamos até sobre como os insetos buscam a luz o tempo todo. Uns até fritam sem perceber. Ele foi embora e, dois dias depois, me mandou a letra. Achei muito foda! Dei umas mexidas nela e pensei numa canção romântica. Na temporada, nós tocamos só com guitarra e vozes, mas pro disco, ela se transformou numa música baladona, com synths incríveis que o Kiko gravou. Pra mim é sobre se amar, observar os próprios limites e entender a importância de saber que tudo passa.
“Daqui desse lugar”: Essa foi uma canção que saiu bem freestyle. Estávamos eu e Anna Vis em casa, também criando para a temporada, e comecei a improvisar em cima de um beat que eu tinha acabado de fazer, e a canção saiu. Minha inspiração na hora foi nos cancioneiros românticos. Me imaginei numa estrada, simplesmente seguindo em frente, ao mesmo tempo sentindo algo me perseguindo — e eram os meus próprios pensamentos.
“Nuvem movimento”: A Jadsa trouxe essa pérola pro ‘Frita’. Um dia estávamos ensaiando e, de repente, ela começou a cantar em cima de uma levada que eu tinha acabado de fazer: vem vem vem vem vem… vai vai vai vai vai… Fiquei hipnotizado. Aquele brincadeira com as palavras como se fosse um mantra de apego e desapego. Foda demais! A gente tinha acabado de se conhecer e eu fiquei muito impactado com ela. Daí tive a ideia de uma parte nova complementando o que ela tava dizendo. Os beats ficam se destruindo e as nossas guitarras conversando. Amei demais.
“Tremendo”: Uma das primeiras faixas que criei quando comecei a mexer na MV. Uma música bem do começo da pandemia. Ela não entrou na temporada pois pra mim já era uma música com um caminho bem definido e era eu que ia cantar. Quando comecei as gravações das vozes no Estúdio Brocal do meu chapa Gustavo Ruiz, me veio a vontade de chamar a Ava Rocha pra cantar. Mesmo ela não tendo participado da temporada Frita, eu visualizei ela na música e minha cabeça acreditou tanto, que a partir daquele momento só faria sentido com ela. Fiquei muito feliz quando ela topou. Sou muito fã da Ava e ficou a coisa mais linda a interpretação que ela fez.
“Frita”: Quantas vezes eu fritei sem perceber… Nem mesmo eu sei. Engraçado que essa é uma música que tem uma linguagem muito próxima dos primeiros experimentos do Cidadão Instigado (1994/1995). Da época em que eu ainda só pensava em criar trilhas sonoras para as histórias que eu queria contar. Tem essa vibe de contador de histórias perambulante das ruas. É uma música mais minimalista em termos de instrumental e o beat é que sustenta o rolê. As coisas entram e saem como um passeio por ruas vazias.
“Insônia”: A insônia é algo que me persegue muito durante a vida. Às vezes mais, às vezes menos, mas na pandemia ela se mostrou bem mais próxima. Quando tive a ideia de jogar ela na ‘Frita’, fiquei imaginando amigos fritos que nem eu pra compartilhar desse sentimento. Daí pensei: Yma, que considero uma artista completa e com quem tenho uma sintonia muito grande, e Edson Van Gogh, que pra mim é um dos guitar heroes mais estilosos do Brasil. Duas pessoas que eu amo muito e de quem, além de eu ser muito fã, me identifico em vários processos emocionais. Engraçado que várias pessoas que escutam esse som ficam meio agoniadas.
Eu tenho um pensamento sobre isso. Acho que, parado, a pessoa deve se sentir assim mesmo, mas, pra mim, ela foi feita pra se movimentar. Jogar a agonia no movimento e se deixar cansar. Cansar e relaxar.
“Mundo estranho”: Essa é uma música que surgiu na temporada quando convidei minha amiga Anna Vis, que é uma artista muito foda e que se joga em vários abismos artísticos, pra participar do Frita. Acho que fritamos bem nesse lugar de rebuscar as sombras pra tirar coisas boas. “Mundo estranho” é lá dentro e é o estranho até ser compreendido. Começa com a Anna e aquelas vozes em camadas que vão criando uma estrada sem muito chão. Parece que tá tudo meio suspenso no ar.
É uma música bem profunda pra mim. Me leva aos meus antepassados árabes e bate muito agora, nesse momento em que estamos vivendo no mundo. Vejo ela como uma colagem de sentimentos que vêm e vão. Novamente o entra e sai das coisas até o beat entrar e firmar o chão. Quase como quando a gente abre os olhos ao acordar de um sonho ou pesadelo e não consegue lembrar.
“Pressão”: Se eu seguir na sequência da história do disco como se fosse a próxima etapa, eu diria que “Pressão” é quando a gente se esforça um pouco além da conta pra continuar e sente o peso das coisas que carregamos pela vida. A instrumentação me leva pro passado também, mas de uma forma diferente: me leva pra me tirar de lá.
Tem essa levada do beat que segue meio dançante, mas sempre com cortes. Para e vai, para e vai. Tem vários diálogos de guitarras com sopros e esse meu jeito mais contador de histórias novamente. Os vocais da Jadsa são incríveis e, por sinal, estão em várias outras músicas do disco. Essa é outra das músicas que eram uma e se partiu em duas, e que deu em “Consciência”.
“Consciência“: Repartida, ela fez e deu total sentido a tudo. A música fala sobre aquele momento em que a gente para pra refletir e, de repente, se depara com alguma verdade. Os riffs da guitarra levam a música pra outro lugar. Me levam pra Fortal. Pro que eu sou de verdade.
O entender que às vezes deliramos, mas que sempre existe essa possibilidade de ir bem longe e poder voltar. Ter consciência do que se quer ou de quem a gente é.
“O grande vazio”: É tão louco que, quando a gente chega no grande vazio, é aquele momento mais abstrato, mas que pra mim é incrível, porque é quando a gente tem a possibilidade de preencher com o que quiser. Essa música é outra parceria com a Juçara. Foda! Quando ela compôs as partes dela fiquei emocionado.
É tipo uma conversa profunda com a própria dificuldade de viver ou de se levantar dos baques da vida. Me imaginei bastante em Fortal, cheio de vontades e tendo que sair de lá e traçar meu próprio rumo. Saí de lá pra voltar pra SP e, um mês depois, veio o lockdown. Momento bem louco. Como preencher esse grande vazio depois de uma pandemia ou de qualquer momento complexo que já passei? Enfim… dou muito valor à vida e quero seguir bem.
“Sobrevivendo”: Última faixa do álbum. Outra da leva dos primeiros testes com a máquina. Essa tem a parceria com o meu chapa ídolo Mateus Fazeno Rock, que é uma das maiores referências do som de Fortal de hoje. Comecei a compor ela também no início da pandemia e, na minha cabeça, ela, por mais arrastada que seja, me traz justamente essa vontade de sobreviver a todas as mazelas, sejam elas reais ou imaginárias. Do querer estar vivo e bem.
Tem, de alguma maneira, uma menção ao maracatu cearense, que é uma expressão artística de resistência até hoje, mas sem ser exatamente isso. Pensei em reggae nela também, que é outra modalidade de expressão do povo de Fortal e faz muito parte da cultura de rua local.
Essa música tem alguns atos na minha cabeça. Começa nesse espaço pós-esvaziamento e, ao longo dela, fui tentando mostrar caminhos que eu mesmo encontrei para a minha própria sobrevivência. Aí entro nessa parte mais orquestral antes do solo, que é quando tudo vem à tona e aparece novamente uma possibilidade. E aí o Mateus chega com aquela maravilha que é: “Espero ser um rastro de luz na escuridão…”. É sobre isso.
Depois de tudo que passamos e das coisas que ainda temos pra viver, é algo muito valioso ter seus próprios rastros de luz pra se guiar.
