“Cinema é a maior diversão”: conheça a filmografia de Kleber Mendonça Filho

06/01/2026

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Por: Thaís Ferreira

Fotos: Victor Jucá / Laura Castor / Divulgação

06/01/2026

“Entre os 13 e os 25 anos de idade, eu ia ao centro ver filmes várias vezes por semana”, Kleber Mendonça Filho conta no seu documentário Retratos Fantasmas (2023). Foram as salas dos cinemas de rua do Recife que alimentaram a curiosidade e o amor do premiado diretor pela sétima arte.

Na hora de escolher um curso na universidade, optou pelo jornalismo. “Era a coisa mais próxima do cinema que existia na época”, disse à Revista Continente, em 2019. Formado, não tardou a se aproximar profissionalmente do mundo cinematográfico.

Nos anos 90, começou a escrever críticas de filmes para o Jornal do Commercio, atividade à qual se dedicou por mais de uma década. Em paralelo, também colaborou com a Folha de S.Paulo e criou seu próprio site, o CinemaScópio. O endereço não está mais disponível, mas é possível acessar um braço dele, o CinemaScópio em Cannes – Blogspot criado em 2008, quando o site original estava sendo reformulado. 

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“Ao longo desses últimos 10 anos, eu tentei escrever sobre imagens da maneira mais viva possível, e nos últimos anos as imagens de Cannes têm tentado entrar na cobertura, aos poucos. Talvez esse ano, mais do que nunca, espero”, escreveu na publicação que inaugurou o blog. Nesse período, Kleber cobriu como jornalista o festival de cinema francês que, em 2025, o premiaria como melhor diretor por O Agente Secreto.

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No malabarismo de funções relacionadas ao cinema, ainda arranjou tempo para mais uma: a de programador. Por 18 anos, esteve à frente da curadoria do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, referência no circuito alternativo e responsável por moldar o gosto dos cinéfilos pernambucanos.  
Dessa experiência veio a leitura de que sua cidade natal poderia ser o berço de um festival de cinema independente.

Ao lado da esposa Emilie Lesclaux, produtora de cinema francesa radicada no Recife, Kleber assina, desde 2008, a direção artística do festival Janela Internacional de Cinema do Recife – o Cinema São Luiz, personagem tanto em Retratos Fantasmas (2023) quanto em O Agente Secreto, recebe sessões da mostra. Há quase dez anos, é também coordenador do cinema do IMS (Instituto Moreira Salles). 

E cineasta

Enquanto isso, a carreira de cineasta acontecia nos bastidores. Em 1992, codirigiu com Elissama Cantalice os curta-metragens Homem de Projeção e Casa de Imagem. Os anos seguintes trouxeram mais obras neste formato, entre elas: Enjaulado (1997); A Menina do Algodão (2002), dirigido com Daniel Bandeira; Vinil Verde (2004); Eletrodoméstica (2005); Noite de Sexta, Manhã de Sábado (2007); e Recife Frio (2009). 

O primeiro longa, Crítico, veio em 2008. O documentário traz depoimentos gravados ao longo de nove anos no Brasil e no exterior, com mais de 70 cineastas e críticos, que falam sobre o exercício de observar e analisar um filme. Quando os anos 2010 chegaram, o cineasta já somava mais de 100 prêmios em festivais de todo o mundo.

Uma nova fase se inicia com O Som ao Redor (2012), primeiro longa-metragem, que abre caminho para Aquarius (2016), Bacurau (2019) e o recém-lançado O Agente Secreto, além do documentário Retratos Fantasmas.

“Faço os filmes que gostaria de ver”, Kleber confessou em entrevista à Continente. Assim, cresce a sua filmografia e os prêmios que ganha por ela. Em Cannes, além do título de melhor diretor pelo seu trabalho em O Agente Secreto, Wagner Moura ganhou o troféu de melhor ator pelo papel de Marcelo. Fora da competição oficial do festival, o trabalho ainda recebeu outro louro: o de melhor filme, escolhido pelo júri da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

“Cinema é a maior diversão”, dizia o letreiro do Cine Veneza, no centro de Recife, numa fotografia feita por Kleber em 1991. Ele não se esqueceu disso. Abaixo, saiba mais sobre cinco dos filmes do diretor para ir além de O Agente Secreto

Vinil Verde

“Mãe dá à filha uma caixa com disquinhos coloridos de músicas infantis. Filha pode ouvir os disquinhos, exceto o disquinho verde”, essa é a sinopse do curta-metragem, cuja atmosfera atinge novos níveis de suspense toda vez que filha toma uma decisão contrária às ordens de mãe.

Assinado por Kleber e Bohdana Smyrnova, o roteiro adapta uma fábula russa infantil, Luvas Verdes. Outra inspiração, mas quanto ao formato, foi o curta francês La Jetée (1962), de Chris Marker. Em vez de ter sido filmado, Vinil Verde foi montado a partir de fotografias em 35mm.

Este foi o primeiro filme de Kleber exibido em Cannes, na Quinzena dos Realizadores. O trabalho se destacou no Festival de Brasília de 2004, ganhando Melhor Direção, Melhor Montagem e Prêmio da Crítica. 

O Som ao Redor

O roteiro do primeiro longa foi escrito em apenas oito dias, num hotel de Belo Horizonte, bem longe de onde a história se passa: na Zona Sul do Recife. Quando um grupo de seguranças particulares chega ao bairro de classe média, o dia a dia dos moradores ganha outro rumo, caso de Bia, interpretada por Maeve Jinkings. Essa é a ponte que o diretor atravessa para tratar de temas como o espaço urbano e as dinâmicas sociais que se constroem nele. 

O Som ao Redor recebeu o título de Melhor Filme em diversas premiações, entre elas, o da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Festival de Gramado e Copenhagen International Film Festival. O filme figurou na lista de melhores do ano do The New York Times, junto aos trabalhos de diretores como Steven Spielberg, Michael Haneke e Paul Thomas Anderson.

Aquarius

“Faz uma coisa. Toca Maria Bethânia pra ela. Mostra que tu é intenso”, vem deste filme um dos diálogos mais famosos da carreira de Kleber. Quem escuta o conselho é Tomáz (Pedro Queiroz), sobrinho de Clara, personagem interpretada por Sônia Braga, personagem inspirada na mãe do diretor.  

A protagonista é a última moradora do Edifício Aquarius, onde está há mais de 30 anos. A partir desse enredo, o diretor discute a especulação imobiliária no Recife e as transformações pelas quais a cidade passa, tema que o diretor voltaria a abordar alguns anos depois, em Retratos Fantasmas.

Aquarius teve sua estreia mundial em Cannes, onde Kleber e a equipe do filme protestaram no tapete vermelho, com papéis que denunciavam o golpe de estado sofrido por Dilma Rousseff. Assim como seu antecessor, o longa entrou na lista de melhores do ano do The New York Times, assim como da Cahiers du Cinéma. No ano de lançamento, o longa levou os troféus de Melhor Filme e Melhor Roteiro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). 


Bacurau

“Se for, vá na paz”, diz a placa na entrada de Bacurau, cidade fictícia do filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Embora na trama, a cidade, de fato, exista, ela logo desaparece do mapa, deixando seus habitantes perplexos. Esse é um dos ganchos que movimentam o filme, um faroeste de ficção científica gravado no sertão pernambucano, que ao mesmo tempo tem ares de história universal. 

Em “Bacurau”, a importância da preservação do arquivo e da memória novamente ganham espaço na obra do diretor, bem como as alegorias que ilustram questões sociais e políticas da contemporaneidade brasileira. Coroado com o Prêmio do Júri em Cannes, esta foi a primeira vez que uma obra brasileira venceu nesta categoria. 

Retratos Fantasmas

A nostalgia é o fio condutor deste documentário, que mostra as mudanças que o cenário do Recife sofreu nas últimas décadas. A narrativa começa do lado de dentro, no apartamento da família de Kleber, no bairro de Setúbal, mesmo lugar onde o diretor gravou alguns curtas do começo da carreira e também O Som ao Redor

Depois, o espectador parte num passeio pelo centro da capital pernambucana. Fotos e vídeos de arquivo abrem uma brecha para o passado, sobretudo para aquele quando os cinemas de rua embalavam a cidade – só não mais que o carnaval, também caro às lembranças de Kleber, que voltou a trazer uma cena carnavalesca em O Agente Secreto. O Cinema São Luiz, mostrado no documentário, é outro elo de ligação com o filme mais recente do diretor. 

“Eu amo o centro do Recife. Eu cortei e depois coloquei de volta duas vezes no filme essa frase, achando que era redundante dizer isso. Mas depois eu lembrei que a gente precisa dizer quando gosta de alguém”, declara seu amor no longa.

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Thaís Ferreira