Quem anda pela Avenida Ipiranga, mesmo de longe, já avista o Copan. É natural que um prédio que faz parte do imaginário cultural de São Paulo — projetado pelo maior arquiteto que temos, Oscar Niemeyer — desperte a curiosidade de quem passa em frente a ele todos os dias. Não foi diferente com a cineasta Carine Wallauer. Tanto que ela decidiu morar no prédio e, mais ainda, fazer um filme sobre ele. O resultado podemos ver em Copan, vencedor brasileiro do festival É Tudo Verdade, que estreou nos cinemas na última quinta (28/5) com distribuição da Vitrine Filmes.
Não é difícil entender por que o documentário venceu um dos maiores festivais de cinema documental do país. O filme abre mão das entrevistas e narrações explicativas para adotar um ritmo contemplativo, quase poético. A diretora aposta em outro caminho: deixar que o prédio mostre toda a vida que cabe dentro dele.
Moradores em suas rotinas, funcionários batendo cartão — e revelando talentos que extrapolam o labor. Como Carine já tinha relações com o síndico, moradores e funcionários antes das filmagens, o acesso a eles foi mais natural. Com o tempo, a equipe virou parte da paisagem. “As pessoas foram se acostumando com a nossa presença e já não temiam a câmera”, conta ela.
A trilha sonora de Copan — brilhantemente assinada por KL Jay, DJ Will e DJ Kalfani — é pontual, não interfere nos sons que o próprio prédio precisa mostrar: longos silêncios entremeados por ruído de porta se abrindo, passos no corredor, falas esparsas de seus personagens. KL Jay se inspirou na própria vivência como morador para construir a trilha ao lado dos filhos.
A aproximação com o artista também passou pelos laços que Carine já tinha no Copan: “Eu já tinha cruzado com ele frequentemente dentro e ao redor do prédio, mas foi com a ajuda de alguns funcionários que o primeiro contato foi feito.” A partir daí, foram mais de um ano de conversas e trocas. “A confiança dele em mim e no meu projeto foi muito importante, e a atmosfera que a música dele traz contribui imensamente para as sensações que eu quis trazer para o filme.”
No meio disso tudo, o documentário constrói um retrato que mostra o Copan — com seus 5 mil moradores — como uma metonímia do Brasil. O período escolhido para filmar, as eleições de 2022, revela um Copan rachado entre Lula e Bolsonaro: camisas do Brasil e estrelinhas vermelhas convivendo minimamente em paz, se tolerando pelo bem comum. É quase poético que o filme chegue às salas no mesmo período eleitoral. Percebemos que o Brasil segue rachado, ainda que algumas peças tenham mudado nesse xadrez.
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O ritmo que precisa ter
Os primeiros segundos já avisam que este é um documentário diferente. A câmera começa nas alturas, mostrando o Copan pequeno diante da imensidão de São Paulo, e vai se aproximando devagar até revelar a grandiosidade do prédio, com as centenas de janelinhas que revelam vidas tão diferentes.
Carine viveu sete anos no edifício. Ela descreve, na abertura do filme, a experiência de pensar: eu poderia viver aqui. É o truque do imaginário. E então ela foi morar lá, e descobriu que a vida no Copan também podia ser corriqueira. Que dava para percorrer os imensos corredores e pegar um elevador sem cruzar com ninguém, mesmo com milhares de pessoas ao redor. Que lá também tem reunião de condomínio tensa, vizinho que coloca o som alto de noite — ainda que o vizinho seja ninguém menos que KL Jay e o som seja o das suas pickups mandando um mash-up ao vivo, um privilégio.
O Copan segue na vida de Carine mesmo depois que ela deixou o prédio — o apartamento que alugava foi vendido para virar Airbnb. Ela já planeja novos projetos inspirados no lugar. “O Copan ainda faz parte da minha vida. Eu o frequento de diferentes formas”, conta.
Além do documentário, o Copan também virou cenário de livro recentemente. Crime no Copan (Cia das Letras), de Victor Bonini, é um suspense sobre um duplo assassinato no prédio, com ambientação inspirada no centro da maior cidade do país. Mesmo com seus 60 anos, o Copan segue inspirando obras de novas gerações. E promete ser assim por muito tempo.