O primeiro álbum autoral da cantora Daíra, original de Niterói, transformou-se em um álbum visual antes do final do ano. Em Nada de Se Matar ou Morrer de Amor, a artista cria uma narrativa que floresce no visual, contando a história de uma vida amorosa marcado por tropeços e decepções, e do processo de cura guiado pelo poder feminino e a espiritualidade.
O álbum é um projeto com 11 faixas, lançado pelo Selo Saravá Discos de Zeca Baleiro, que também é produtor do disco. Cantado em português, inglês e espanhol, “Nada de Se Matar ou Morrer de Amor” é uma união das referências de MPB, pelas quais Daíra tem muito amor e respeito, com toques de folk e veias culturais internacionais.
No lado visual do projeto, assinado por Íris Cristine, Daíra divide sua história em dois lados, introduzindo o público à sua personagem principal em um momento de “romantismo tóxico”, como ela mesma explica, e traçando a narrativa até chegar no ápice de sua cura interna e conexão com sua própria espiritualidade.
Para isso, a artista utiliza de referências visuais como The Love Witch (2016), A Cor Romã (1969), Eu Sei Que Vou Te Amar (1986, com atuação de Fernanda Torres) e Eu Te Amo (1981, estrelado por Sônia Braga).
“Nada de Se Matar ou Morrer de Amor parte da minha própria história — a de uma mulher atravessando um lovebombing (alguns), ghostings e feridas. Em ‘Deus é Mulher’ e ‘Como Frida Kahlo Não Me Calo’, canto uma cura que nasce de dentro, até chegar em ‘Quem Vem de Lá’, onde transformo a dor com a espiritualidade e encontro os ensinamentos necessários para sair daquela situação, e de qualquer situação, dentro de mim mesma”, a artista conta.
O projeto pode ser assistido de duas maneiras, a primeira, de um a um, assistindo a todos os clipes, e, a segunda, em sua versão completa, que traz todos os videoclipes em ordem, como um filme, contando a história total – e trazendo, como conteúdo extra, uma poesia-manifesto escrita e apresentada por Daíra.
Assista e leia Nada de Se Matar ou Morrer de Amor faixa a faixa.
“Manhã de Inverno”: é uma canção que compus com meu pai, Carluiz Saboia, o compositor mais romântico que eu conheço – e quem me ensinou a ser romântica também. É uma faixa ultraromântica, entregue, pura. No álbum visual, a personagem aparece claramente apaixonada, em busca de um amor ideal e luminoso. É o ponto de partida dessa jornada afetiva — uma promessa de pureza que será confrontada e surpreendida nas faixas e nos vídeos seguintes.
“Garfo e Sopa”: A segunda faixa nasceu da minha parceria com Zeca Baleiro. É quase uma ode ao amor e à vontade urgente de estar junto. É como dizer para o parceiro: “vamos se amar, a vida é agora”. É direta, honesta, um recado sem rodeios. No álbum visual, tem algumas falas antes da música que mostram que a personagem nem entende direito como caiu tão fundo: acha que foi por tudo aquilo que esse homem supostamente disse a ela. Ela não esperava se apaixonar tão rápido — mas aconteceu, e “Garfo e Sopa” é esse mergulho.
“Pra Sentar Num Bar”: também composta em parceria com Zeca Baleiro e feat. com ele, originalmente quase se chamou “Eu Quero”, porque essa é a força que move a canção: o querer. O querer encontrar alguém, o querer conhecer, o querer se aproximar, o querer saber mais.
Mesmo que você nem beba, mesmo que não queira exatamente estar num bar, você chama aquela pessoa para lá porque o bar, simbolicamente, é esse lugar onde as verdades aparecem. A personagem quer acolher, olhar nos olhos, descobrir quem é esse outro que despertou nela tanta curiosidade e paixão. No visualizer, ela reza para o Santo Casamenteiro — o “São Cabaleiro” — e faz seus feitiços, porque agora ela quer esse homem. É o desejo assumido, declarado.
“Guitar Hero Too Much Too Little”: foi a primeira faixa que compus em parceria com Zeca Baleiro e Lucas Fidelis. Ela nasce de uma situação muito específica — e muito comum: o love bombing. É aquela história de acreditar que existe uma conexão profunda, intensa, verdadeira… até perceber que não era nada disso. A pessoa que parecia tão inteira, tão entregue, de repente se mostra fria. Quem nunca viveu algo assim?
A faixa é em inglês porque nasceu de uma frase que me disseram: que o meu amor e a minha vontade estavam sendo “too much”. E eu respondi que o amor e a vontade da outra pessoa estavam sendo “too little”. A partir disso, pedi ao Zeca que fizéssemos uma música chamada Too Much Too Little. Ele então trouxe a ideia do “Guitar Hero” — e eu achei simplesmente genial. Essa música abriu a porta para a série de composições que fizemos juntos durante a gravação do disco, marcando a primeira rachadura emocional da narrativa.
“Corazón de Piedra”: nasceu quando minha amiga Lola Parda estava no Brasil. Ela, que faz parte da dupla argentina Perotá Chingó, foi uma das minhas grandes ídolas da América Latina por mais de dez anos antes mesmo de nos conhecermos. Um dia, a vida fez esse presente: nos encontramos no Rio de Janeiro — e viramos amigas.
Estávamos juntos, eu, Lucas Fidelis, Lola Parda e outros amigos. Junto com Augusto Feres, no violão, terminamos a música que começou num piano desafinado lá na hospedagem do nosso amigo. Na época, Lola vivia uma fase criativa muito intensa: ela estava envolvida em um projeto de compor 100 músicas com um amigo. Essa energia fértil nos inspirou profundamente. Foi desse encontro que “Corazon de Piedra” nasceu temperada por sentimentos e histórias que estavam latentes em todos nós naquele momento. No visualizer, vemos a angústia e a reflexão da personagem sobre esse amor que ela já não tem mais — um eco silencioso das perdas que moldam essa fase da narrativa.

“Nada de se matar ou morrer de amor”: A faixa-título é uma música que compus de uma vez só. Saiu inteira, como um rompante de lucidez e renascimento. No visualizer, vemos a personagem percebendo que não podia mais apenas chorar: ela precisava dar a volta por cima. E mais do que isso, precisava comunicar essa virada. Quando ela liga para falar sobre trabalho, fica evidente que algo mudou. Ela se empoderou. Não vai mais permanecer naquela condição penosa, presa ao pensamento fixo naquela pessoa. Agora, ela renasce. Percebe que é mais, que tem valor, e que nunca mais permitirá que alguém faça isso de novo. É um recado para todas as mulheres.
“Deus é Mulher”: Agora ela decidiu se reconstruir. Essa faixa eu compus com a Andrea Bak, minha parceira de composição lá do Rio de Janeiro. Conheci ela no slam das Minas e logo fizemos essa música. Talvez ela seja uma das primeiras músicas que eu fiz que estão dentro desse disco. Ela fala sobre essa mulher se reconstruir, se entender o seu valor a quem ela é, espelho e semelhança, a deusa. Deus pode ser mulher. Se você parar para pensar, faz muito mais sentido Deus ser mulher do que homem. Ela tem o poder de gestar, de gerar uma vida. As mulheres são donas de uma criatividade ímpar. E nessa sociedade são sempre colocadas para baixo. Escrever que Deus é mulher não é somente querer desafiar algo que já está posto. É raciocinar e entender que faz bem mais sentido Deus ser uma mulher.
“Como Frida Kahlo Não Me Calo”: escrevi com Diana Manacá, minha grande amiga do Rio de Janeiro. Essa música surgiu de uma vontade minha de escrever uma canção inteiramente formada por frases de efeito, frases fortes, frases que carregassem potência. A primeira que me veio à cabeça foi “Como Frida Kahlo Não Me Calo” — e essa frase ficou meses ressoando dentro de mim, até que pedi para Diana me ajudar a transformar aquilo em uma poesia completa. Quando finalmente a canção nasceu, o refrão acabou surgindo como se fosse um dialeto de uma outra língua — mas, na verdade, é a junção de vários nomes de mulheres icônicas. É uma saudação a todas as mulheres: as grandes referências históricas, mas também as do nosso cotidiano — nossas avós, nossas mães, nossas irmãs, nossas amigas.
“Como Frida Kahlo Não Me Calo” fala sobre reconhecer que temos espelhos, que temos exemplos, e que é possível construir a própria vida sustentada por essas mulheres que vieram antes, que nos formam, que nos inspiram. No visualizer, há referências diretas à própria Frida Kahlo: as cores fortes, o vermelho, representando o fogo da ação, a paixão pela vida — a mesma pulsão que atravessa todo o disco Nada de se matar ou morrer de amor.
“Parece Paz”: Fala da Palestina, das vidas ceifadas nas favelas, do momento atual que vivemos. É a minha percepção de como fica a nossa cabeça em meio a tudo isso — uma vontade de viver a paz, e só. No visualizer, estou com meu grande parceiro Álefe Passarim, artista completo, compositor pernambucano e responsável pela coreografia das músicas com dança no álbum visual. ‘Viver sob o medo, nunca mais.’ Manifesto: aparece no álbum visual antes da música Little Gipsy. É algo que veio mais de mim do que da personagem. É como me sinto como cantora no Brasil hoje, embora o tom — de filme antigo, de entrevista — ainda pertença à narrativa da personagem.
“Little Gipsy”: Então emendo numa conversa com Zé Ibarra o feat nessa música. A música Little Gipsy é primeiramente do João Mantuano, figura super genial do Rio de Janeiro, e eu e ele fizemos a versão em inglês dessa música que se chama “nosso preço” em português. É o sentimento de um poeta marginal. Também uma certa crítica social, mas ao mesmo tempo o alento de um conselho de alguém mais velho pra alguém mais novo.
“Quem vem de lá”: É uma letra quase toda do Zeca Baleiro. Coloquei pouca coisa nela (“vidas antigas, bibliotecas”, por exemplo) e fiz toda a melodia. Algo muito importante para uma pessoa se reerguer depois de alguns golpes da vida, e só quem sabe entende a força de um canto desses quando, de verdade, precisamos. O visualizer tem esse caráter. Traz os banhos, a natureza, a casa, a dança. “Ser quem se é Oxumaré!”.