Daúde e Lia de Itamaracá cantam composições de Emicida e Céu em álbum inédito 

04/12/2025

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Por: Vitória Prates

Fotos: Divulgação

04/12/2025

Afinidade, cumplicidade artística e um desejo compartilhado de “quero mais” deu origem a Pelos Olhos do Mar (2025), álbum conjunto de Daúde e Lia de Itamaracá. Lançado pelo Selo Sesc, o projeto une a guardiã da ciranda à cantora que dialoga com a MPB e a música eletrônica, num gesto que celebra memória, ancestralidade e invenção. 

Com produção assinada por Pupillo e Marcus Preto, as 10 faixas são divididas entre inéditas — compostas especialmente para a dupla por Emicida (“Santo Antônio da Boa Fortuna”), Karina Buhr (“Bordado”), Otto (“Pelos Olhos do Mar”) e Céu e Russo Passapusso (“Florestania”).

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Também releituras de cocos afetivos, como “Se Meu Amor Não Chegar nesse São João”, do Mestre Baracho, e “As Negras”, faixa de abertura do álbum, foi um presente de Chico César, que ganhou novos contornos na voz da dupla. 

Outro grande colaborador do projeto é Beto Hees, produtor e empresário Lia, que visualizou e deu força para tirar esta parceria do papel. As artistas já tinham dividido o palco anteriormente em diversas ocasiões, só faltava ganhar forma no estúdio. 

Lia assume a coroa de “Rainha da Ciranda” com muito orgulho. Reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco e Doutora Honoris Causa pela UFPE, ela é símbolo da cultura local e dos ritmos ancestrais, em especial a ciranda e o coco. Com quatro álbuns na discografia, ela completa 81 anos com a certeza que deixou uma marca para a cultura popular, inclusive pelo trabalho como fundadora do Espaço Cultural Estrela de Lia, dedicado à preservação da cultura da Ilha de Itamaracá. 

Já Daúde, baiana criada no Rio de Janeiro, tem uma formação clássica, que passa por especializações no canto, artes cênicas, literatura e história africana. Tem cinco álbuns na discografia, começando por Daúde (1996). Apaixonada pela MPB, com toques eletrônicos e com uma série de turnês internacionais no currículo, seu quinto e mais recente álbum é Código Daúde (2015). Pelos Olhos do Mar, inclusive, marcam o retorno da baiana para o estúdio, após uma década. 

As trajetórias podem parecer distintas, mas elas se completam e são potencializadas em Pelos Olhos do Mar. O repertório navega pelas cirandas, coco, boleros e MPB, em um encontro que ultrapassa gêneros, gerações e fronteiras regionais, em prol de uma celebração pela cultura popular.

Em entrevista à Noize, as artistas contam como essa parceria, cultivada em palcos, ensaios na Ilha de Itamaracá e longas conversas, se transformou em um álbum completo. 

Da afinidade e admiração mútua, nasceu Pelos Olhos do Mar. Como vocês definem, cada uma a seu modo, esse encontro artístico que foi concretizado no álbum? Qual foi o momento em que vocês sentiram que essa parceria precisava virar um registro? 

DAÚDE: Acho que vem da insatisfação [risos] Há um tempo que vamos participando dos trabalhos e dos shows uma da outra, mas sempre algo pequeno, e não um projeto cheio. A Lia tem um feat comigo no meu próximo álbum e, a partir daí, nasceu a ideia do álbum. Vem do gosto de quero mais, sabe? Também pela intimidade que foi se criando, não só com a Lia, mas com toda equipe. Sempre digo que fui adotada pela ciranda da Lia.

LIA: E foi adotada mesmo! Com certeza.

Lia, você é guardiã da ciranda enquanto Daúde sempre dialogou com a música eletrônica e a MPB. Onde vocês se encontraram musicalmente? Que lembrança mais forte vocês guardam das apresentações ao vivo que antecederam o álbum?

LIA: Sempre guardamos lembranças de felicidade, tranquilidade, amor e carinho. Isso é muito importante para o artista.

DAÚDE: A gente criou uma intimidade, participando do trabalho uma da outra, nasceu uma amizade. E amizade é assim, a gente vai construindo aos poucos. No trabalho, alguns encontros marcam, e o nosso é esse caso.

Teve também o processo de maturação, de querer estar junto. Fiquei muito tempo na ilha ensaiando para o show, tem que estar disposta a viver uma outra realidade, sair da rotina. Uma coisa é gostar da música, outra é ter interesse em viver a realidade do parceiro.

O repertório é dividido entre releituras clássicas e canções inéditas. Nas releituras, entram “Quem é?” de Maurilio Lopes e Silvinha; “Galeria do Amor”, de Timóteo, “Pout-pourri de Cocos”, de Dona Celia e Dona Selma do Coco, e em “Se Meu Amor Não Chegar nesse São João”, de Mestre Baracho. Quais foram os critérios de escolha para estas faixas?

DAÚDE: Isso vem de longe, desde quando a Lia cantava nos festejos. O repertório foi muito sugerido com prazer de reviver, e os cocos. Trouxemos as memórias da Lia nas releituras e, nas inéditas, foi muito prazeroso ouvir o que os compositores trouxeram para a gente. Eles já me conheciam, mas a Lia foi um fortalecimento, é a cereja do bolo! Ouvindo as músicas, eles pensaram muito em nós duas, tem muito carinho. “As Negras”, do Chico César, não é inédita, mas coube como uma luva dentro do álbum. 

Queria falar exatamente disso: o que vocês sentiram quando receberam essas canções inéditas? Há uma reverência grande dos compositores envolvidos — Emicida, Russo Passapusso, Otto, Karina Buhr, Céu, a vocês. Como cada colaboração ressoou em vocês?

LIA: Quando recebemos as músicas, a gente não pensou duas vezes: vamos estudar. Estudar para poder dar certo, nada vem do céu, né? São coisas novas para mim.

DAÚDE: São estilos de músicas que não fazem parte do repertório da Lia. Lia sempre ressalta isso porque é um outro tipo de trabalho, movimento e demandas. Quando eu recebi as músicas, pensei primeiro na melodia e na emoção do que estava ali.

Em todas as músicas que recebi, confesso, me emocionei. Teve algumas que não me pegaram tanto, mas, depois de pronta e produzida, viraram outra coisa. Isso também faz parte da magia e da feitura de um álbum. Algumas canções que você pensa que são “Lado B” se transformam nas principais.

Como foi o processo de criação e gravação com Pupillo e Marcus Preto? 

DAÚDE: O processo foi de muita conversa. Entender qual canção cabia mais na voz da Lia, que ela se sentiria mais à vontade e conversasse com o universo dela. Tudo foi de muito consenso, harmonia e respeito. Torcendo sempre, os acertos eram comemorados. Às vezes, durante o processo de gravação, aquele momento se torna algo pesado, mas isso não aconteceu conosco, foi algo prazeroso e vitorioso.

“As Negras”, do Chico César, abre o disco com força. Por que ela foi escolhida para introduzir esse encontro? 

DAÚDE: Acho que é uma mensagem de responsabilidade, né? Somos duas mulheres negras. 

LIA: Mensagem de responsabilidade, respeito e dignidade. 

DAÚDE: Mas, como eu sempre digo, a responsabilidade não é só nossa, mas de todo mundo. É sua nos dando essa oportunidade de falar na revista e o trabalho se multiplicar. Pessoas que nos conhecem e que não nos conhecem, vão escutar o álbum. A responsabilidade é dividida com todas elas. 

Divido a responsabilidade com você para difundir nosso trabalho, isso nos fortalece. Como em uma casa, se você divide as tarefas domésticas, tudo fica mais fácil, né? [risos]. Sim, a música e a poesia tem sua responsabilidade, mas ela é coletiva. 

Como vocês enxergam o papel da música popular na manutenção da memória e da identidade negra no Brasil?

DAÚDE: A música é negra. Do rock ao samba, tentam nos apagar, mas a música é negra, isso não estou citando nem ritmos tradicionais, como coco e maracatu. A música é resistência, no real significado da palavra mesmo: fazer música é uma forma de resistir. Isso é muito potente. Mesmo com todas as tentativas de nos aniquilar, a música negra é forte.

A música é negra. Do rock ao samba, tentam nos apagar, mas a música é negra.

Lia, ser Patrimônio Vivo de Pernambuco coloca sua obra em um lugar de referência cultural. Como você enxerga essa responsabilidade?

LIA: Ser considerada Patrimônio Vivo é sensacional. Reconhecer meu trabalho agora, enquanto estou aqui, é receber flores em vida. Se tiverem que fazer qualquer coisa por mim, façam enquanto ainda estou aqui, não esperem eu morrer. 

Daúde, seu último álbum, Código Daúde, acaba de completar 10 anos. Como tem sido retomar os lançamentos de estúdio agora ao lado de Lia?

DAÚDE: Maravilhoso! Porque tem uma leveza, né? A gente divide as responsabilidades [risos]. Acho demais, amo demais essa parceria.

LIA: A união faz a força! 

Há algo que cada uma descobriu sobre si mesma ao cantar ao lado da outra?

DAÚDE: Desde o meu primeiro álbum, sempre olhei para os mestres, de cocos e maracatus, essas pessoas que estão fortemente inseridas na cultura popular, passam por todas as tempestades e continuam ali. Sempre foram fonte para mim, a Lia é uma vitoriosa dentro desse quadro. Nada é em vão, em 1995 eu estava fazendo meu primeiro álbum e hoje estou aqui com a Lia.

LIA: Estamos dividindo esse encontro maravilhoso, esse Axé! 

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04/12/2025

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Vitória Prates