Do sonho do violão à Marielle Franco e Vini Jr: o que cabe na caneta d’Os Garotin

04/12/2025

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Por: Thaís Ferreira

Fotos: Reprodução Foxton

04/12/2025

Os Garotin são conhecidos pelo som grooveado que deságua nas letras divertidas e em clima de romance. Mas o trio também explora a veia política em suas composições. A estreia do grupo, Os Garotin de São Gonçalo (2024) com vinil em pré-venda no NRC+ também aborda os obstáculos e injustiças da sociedade brasileira. 

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Caso de “Violão Amarelo”, inspirada na história de Leo Guima, que queria o instrumento, mas não tinha dinheiro para comprar — spoiler: a história tem um final feliz, já que a música foi tocada com esse mesmo violão, como num sonho que vira realidade. Outro caso é o de “Vini Jr.”, em homenagem ao jogador de futebol, conterrâneo do trio, que enfrentou episódios de racismo em diversos momentos da carreira.

“Em Nome da Paz” é nossa música mais política. Toda vez que ela estiver no repertório, nós vamos falar o nome de Marielle Franco”, Cupertino reflete, em entrevista à Noize. “É uma coisa que está na nossa arte, na nossa música. A gente não tem como viver sem falar disso.”

Em setembro deste ano, no festival The Town, o grupo se manifestou no palco contra o projeto de anistia a participantes de atos golpistas. Uma semana depois, ao lado de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque, os três estiveram na manifestação no Rio de Janeiro que mobilizou diversos artistas contrários à tramitação do projeto — aprovado alguns dias antes na Câmara dos Deputados e derrubado pelo Senado. 

“A gente canta o que as pessoas vivem. A gente é fruto da identificação”, Cupertino afirma.“A temperatura do que a gente vai oferecer tem a ver com a temperatura das pessoas, com a forma como elas respondem. É uma coisa que se retroalimenta.”

Conheça mais sobre as músicas do disco no faixa a faixa feito pela banda: 

“Garota”

Leo Guima: Antes de a gente assumir que era um trio, tínhamos somente duas músicas: “Pouco a Pouco” e “Queda Livre”. A gente sentia que precisava escrever mais pra cantarmos juntos, e daí surgiu “Garota”. No violão, o Cupertino já fazia um riff que lembrava muito nosso ídolo Michael Jackson, e ficou claro que na produção esse riff não poderia morrer independente. O produtor, [Julio] Raposo, amou e comprou nossa ideia. Depois que a gente viu que eram nossas três primeiras músicas, começamos a estabelecer um ritual de ir escrevendo a partir de “trincas”, ou seja, de três em três músicas até montar um álbum com doze.

Curva Escura”

Cupertino: Foi muito interessante o jeito como ela nasceu. A gente estava dentro do carro, engarrafado, e tinha um violão no carro. E ia perder aquele tempo? Não ia perder aquele tempo! A gente aproveitou pra fazer uma música. A gente não imaginava que ia nascer uma música que fosse gostar tanto. Muito louco, né?

Leo Guima: E a gente já chegou no rolê cantando a música: “Olha a música que a gente fez!”

Anchietx: No carro!

Cupertino: Não tem nem como reclamar do engarrafamento, foi o melhor engarrafamento da nossa vida.

“Calor do Momento”

Leo Guima: A cara dos Garotin é sempre essa musicalidade pra frente, animada e repleta de swing. De fato, faz sentido que as pessoas vejam assim, porém, a gente sentiu que esse álbum precisava de alguma música um pouco mais lenta, mas sem perder o balanço e a sensualidade.

Vínhamos de um show conversando sobre isso, até que, nesse pós, fomos pra casa do Cupertino, que morava em um apartamento grande, que sempre dava pra receber pessoas. A gente chamava de “QG”.

Entre boas risadas e conversas, pegamos o violão e, naturalmente, a melodia veio criando forma e, ao mesmo tempo, a letra também foi nascendo como em um passe de mágica. Até que fizemos a nossa love song “Calor do Momento”.

Estranha Vontade Louca”

Anchietx: Estranha vontade louca: ela já fala por si.

Leo Guima: É aquela vontade selvagem, você entende?

Cupertino: E eu adoro também as energias diferentes que rolam na música. Ela começa de um jeito tranquilo, e aí vem o refrão matador do Leo.

Leo Guima: É, isso é verdade

Anchietx: Tem um “jeitinho” safado.

Cupertino: Isso, eu adoro. Eu adoro “Estranha Vontade Louca”. Se pá, é até a minha predileta.

“Violão Amarelo”

Leo Guima: A história por trás dessa música é muito interessante, porque é verdadeira. Eu passava em frente a uma loja de música e sempre ficava olhando aquele violãozinho amarelo, mas nunca podia comprar. Sendo que essa história não termina mal, porque a avó de um amigo meu me presenteou com esse violão. Comprou esse violão pra mim e eu consegui aprender a tocar graças a isso. E o mais interessante é que a gente fez essa música com esse violão amarelo, justamente com ele. E eu tenho ele até hoje, amarelinho, bonitinho e maneiro.

“Em Nome da Paz”

Anchietx: Então, “Em Nome da Paz” é uma canção que, além de contar nossa história, a gente cita algumas histórias reais que aconteceram, injustiças que aconteceram. E eu queria te fazer um pedido: pesquisa os nomes que a gente cita na música. Espero que essas histórias possam te tocar de alguma forma.

“Desapega”

Cupertino: “Desapega”, a gente adora essa música. Inclusive, a gente já ouviu algumas pessoas falando que essa poderia ser cantada em ambientes religiosos, dentro da igreja. É uma coisa muito interessante, porque, quando fizemos essa música, a gente falou: “Cara, ela lembra um pouco a nossa essência lá do começo, de quando a gente era da igreja, de quando a gente foi criado nesse ambiente.” E de fato, né? É uma música que eleva a energia e traz coisas boas, além de jogar para fora as coisas ruins. É isso!

Anchietx: Desapega!

“Queda Livre”

Leo Guima: “Queda Livre” é uma das nossas preferidas. E aconteceu uma coisa inusitada, porque eu e Anchietx começamos a fazer essa música — no caso, a gente estava trocando ideias e começou a fazer a música — sendo que estava faltando alguma coisa. A gente não chamou o Cupertino nesse dia.

Anchietx: A gente já sabia que estava faltando alguma coisa, e aí mostramos a música para o Cupertino, e ele também sentiu que estava faltando alguma coisa.

Leo Guima: Ele foi e soltou esse refrão aqui: 

Cupertino: “A saudade é ladeira…”, sendo que não era com a minha voz, né? Era com a voz do Leo.

“Pique Anitta”

Anchietx: Cara, o que é uma mulher “Pique Anitta”, mano?

Cupertino: Então, você que deu essa ideia na hora da composição, então acho que você está incumbido de falar.

Anchietx: Ah, cara, é mulher que dança, mulher talentosa, mulher que se entrega, mulher que sabe o que quer, mulher que corre atrás.

Leo Guima: E a gente quis comparar essa mulher que é assim, comparar à Anitta, que ela é uma referência inquestionável da nossa música pop.

Cupertino: Ela é uma referência de sucesso, muito focada no que ela quer, né? É demais.

“Absurdo”

Cupertino: Sabe aquela pessoa que faz o que quiser com você? Que bagunça com sua vida, mas você continua gostando dela?

Leo Guima: Porque você tem coração mole. A gente te entende, a gente também.

Anchietx: Dedinho podre, né?

Cupertino: Eu conheço você, por isso você gosta de “Absurdo”.

Leo Guima: Aí essa pessoa faz absurdos, mas você atura tudo. Fazer o quê?

Cupertino: Fazer o quê? Gostei de você.

“Pouco a Pouco”

Cupertino: Essa música é muito linda. No dia do meu aniversário, eu apresentei essas duas figuras aqui. Não imaginava que ia dar essa história toda que a gente tá vivendo, muito louco. E, no nosso primeiro encontro, a gente compôs “Pouco a Pouco”, que é a música que fez nascer o conceito d’Os Garotin, cada um canta uma parte.

Leo Guima: Essa música é muito importante.

Cupertino: Nosso primeiro encontro. Muito louco isso.

“Vini Jr.”

Anchietx:
Essa canção conta muito da nossa história, das coisas que a gente viveu. Vini Jr. é uma inspiração pra gente, porque ele vem de São Gonçalo, assim como a gente. E é muito maneiro ver um cara que veio da onde a gente veio alcançar um lugar tão grande.

Leo Guima: E não só do lugar que a gente veio, das periferias em geral, em todo lugar do Brasil. A gente sabe como é difícil conquistar, sonhar. Então, a gente quis trazer a história dele como referência.

Cupertino: Sim!

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04/12/2025

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Thaís Ferreira