Edgar apresenta “REWIND”, álbum impulsionado pela cultura soundsystem: “O segredo é não parar”

08/04/2026

The specified slider id does not exist.

Avatar photo

Por: Revista NOIZE

Fotos: Divulgação/Vicente Otavio

*Por Clarice Nilles e Davi Maia

Se o ano de 2026 promete ser um ano de “bombardeio sonoro” para Edgar, ele já puxou o pino da granada. Com o pseudônimo Novíssimo Edgar quando trabalha com moda, artes visuais, audiovisual e performance, o artista abre os caminhos sonoros do ano com REWIND, lançado na última terça (7/4).

O álbum é um mergulho no dub e no reggae, ainda com toques das influências de seus experimentos e vivências dentro da linguagem do funk, do hip-hop e outros ritmos globais. É, na essência, um manifesto de retorno à produção independente ‘DIY’ e à coletividade da cultura soundsystem.

Fazendo referência a seu movimento “faça você mesmo”, Edgar dirige, junto de Vicente Otávio, um projeto audiovisual da Casa Líquida, em que aparece na introdução construindo um sistema de som, em alusão ao cenário underground do soundsystem. Assista aqui.

A relação do artista com a cultura não parte exatamente desse boom de estéticas soundsystem. Começando com ‘bailes na praça’, foi num baile soundsystem organizado por Djanguru que Edgar pegou no microfone e se expressou pela primeira vez. Essa influência era percebida no início de carreira em sua voz e tendências no momento de cantar, pela base e pelo repertório sonoro.

“Eek-A-Mouse é meu pai no reggae […] também tem Horace Andy, e essa ideia da versatilidade dele”, destaca, citando Horace como referência para uma construção artística além da ideia do gênero, lembrando de sua participação no Massive Attack e sua circulação na Europa, especialmente na Inglaterra.



Gestado sem pressa entre 2024 e 2025, REWIND surgiu de uma inquietação com o cenário atual do rap. Ao retornar para sua base em Guarulhos — apelidada de GUARUMAICA —, Edgar se reconectou com o fundamental. O encontro com Laylah Arruda foi o divisor de águas para o aperfeiçoamento vocal dentro do gênero, enquanto nomes como Buguinha Dub (mix) e Arthur Joly (master) garantiram que o peso dos graves fizesse jus à tradição. O álbum também conta com participações de nomes como Jamil Djanguru e Kazvmba.

Esse disco foi feito com 0 reais. Não teve uma gravadora, não teve um budget, não teve um edital… eu não tava com dinheiro para poder chegar e bancar todo mundo, então ele é um disco que tem uma energia de amizade mesmo, de confiança

O novo trabalho marca a sua saída da sua antiga gravadora, a Deck, em uma manobra de guerrilha que resultou no primeiro de uma sequência de lançamentos independentes — este com divisão dos fonogramas entre os músicos participantes. “O próprio hiato entre discos não era uma coisa que eu colocava, vinha da relação com gravadoras e produtora, nunca foi sobre criatividade”, disse.

Além de REWIND, o artista já planeja outras novidades para o segundo semestre. Edgar ainda deve apresentar mais um álbum este ano, junto ao duo carioca de produtores musicais Os Fita, e antecipou que tem trabalhado mais em torno do organismo coletivo do LION ICE, colaborando com projetos de seus amigos. O artista também prometeu mais a partir desse olhar de REWIND, que guarda novos volumes em fase de produção. 

O show de pré-lançamento, chamado Baile Rewind, vai circular ainda em abril no Lado B (RJ) e Porta Maldita (SP) no dia 24/4 [confira ingressos aqui].

Convidamos Edgar para destrinchar cada engrenagem desse sistema de som em um Faixa a Faixa exclusivo para a Noize.

“Pode até tentar” É quase uma diss para a gravadora e para o mercado. “Chegou num lugar que deu um block na minha carreira”, disse. “Tem aquele duplo sentido: aqui usamos ‘elza’ para roubo — eu entrei no radar deles justamente pelo feat com a Elza Soares.”

“Cop with Guns” “É o nosso produto para exportação. Tenho um público internacional que me acompanha desde 2019, então quis trazer essa ponte. É também um exercício pessoal para não deixar o vocabulário enferrujar.”

“Mão pro alto” Para Edgar, o cruzamento entre os universos com Universidade Favela. “Tem uma malícia, shortinho curto safado, umbigo suado, periferia ousada. E tá cheio de easter eggs de Guarulhos, como o Bar do Ricardo, que é 24h, sinuca e karaokê estralando.”

“Baila loco” “É um aceno para essa ficção da ‘Latinoamérica’, o universo Manu Chao, uma alusão a esse retrato e essa cristalização. Aquele imaginário do desastre acontecendo e a galera dançando. Também tem a guitarra de um colombiano que eu amo, Fabian Morales, do projeto BUNURU” 

“ZUMZUMZUM” “Eu tinha 17 anos quando escrevi. É a mais antiga, então. Um amigo reviveu um vídeo no YouTube que tem ao vivo de eu fazendo um show num teatro de Guarulhos, ele me mandou e falou “Essa época que era brabo, hein”. Esse é meu primeiro hit underground, na época o nome da música era ‘Meus Velhos Dedos Amarelos’, antes mesmo de soltar o Universidade Favela, e nessa ocasião a galera invadiu o palco, rola um bate cabeça. Eu amo as novas que já nascem velhas, achei interessante.” Veja esse momento aqui

“Beija e abraça” “A galera tem assimilado muito funk com dancehall. Aqui me vem essa sobreposição da imagem de baile funk e baile soundsystem, aparelhagem e paredão, esse calor de fazer as coisas, resistência cultural.”

“Jah Lone” “Aqui o pensamento é noite soturna, baile mais lento. E experimentação, foi a primeira faixa que usei autotune.”

“Je suis défoncé” “É uma das (faixas) que a galera mais está gostando. O título significa algo tipo ‘nossa, chapei’. Ia ser outro nome, tinha outros títulos, mas a backing vocal (Matilde) é francesa e teve um dia que eu soltei em meio às gravações “je suis défoncé” e ela começou a fazer no ao vivo. Acabou virando o título da faixa.”

“Comme une flèche” “Uma composição que fiz no Rio de Janeiro. Aqui tem a presença de Ruy Rascassi e André Calixto, ex-integrantes da Nomade Orquestra. A primeira versão foi no violãozinho, bem roots. Mandei para a Matilde na época, pedindo ajuda para deixar mais potente a escrita porque meu francês é de uma criança de 3 anos embriagada. Mas eu me comunico e a pessoa entende. Então Matilde pegou e aprimorou algumas palavras, com mais qualidade. 

“Many Man” “Se você for escutar a minha discografia inteira de novo, você vai perceber isso: sempre tem um um spoiler na última faixa. Dá a pista de um universo da próxima pesquisa. Many Man mostra algo mais roots, com menos variação sonora.

Tags:, ,
Avatar photo

Revista NOIZE

administrator