A força ancestral é o mote inspirador de Ayô Tupinambá para Exú-Mulher (2025), seu álbum de estreia. Em 12 faixas, a artista percorre caminhos de autoconhecimento e reconexão espiritual, num processo que ela define como “um rito de cura e reconstrução”.
Artista multifacetada, Ayô também é uma referência em educação e conscientização LGBTI+, ministrando palestras em empresas. Para Exú-Mulher, a artista revistou a ancestralidade e suas experiências com as pombagiras. “Eu venho de uma criação que não me deixava sonhar em ser artista. É o encontro com essas entidades que acende uma chama de crença em mim mesma”, explica a artista.
Ao lado dos produtores Dominique Vieira e Leo Matheus, Exú-Mulher nasceu no home studio de Ayô. A lista de participações ainda traz Jup do Bairro, Lume Watanabe, mãe de santo que abre o disco com uma reza a Exú Orixá em “Tronqueira”.
Também Assucena, o Coral Vozes Trans, coletivo do qual a artista é madrinha, e Apêagá. Todas se encontram nesse manifesto que investiga a espiritualidade como um ato de resistência, reverberando a ancestralidade negra, indígena e travesti de Ayô.
Sonoramente, é um álbum muito brasileiro, com MPB, samba, pagode, funk e ritmos percussivos. “Não queria que caísse num estereótipo sonoro. Busquei diversidade de sons, para me apresentar pro mundo da música e foi com essas entidades que eu aprendi que posso cantar o que eu quiser”, diz ela.
Exú-Mulher faixa a faixa:
“Tronqueira”: é a porteira dessa grande encruzilhada. A minha ideia sempre foi trazer os sons que permeiam o meu espaço de terreiro, então, tem sons agudos do portão, o mexer das correntes e da água dentro do quartilhão. Nessa abertura eu convido minha mãe de Santo, Mãe Lume Watanabe com quem aprendi a cultuar Exú Orixá para fazer uma reza. Logo após se escuta o meu nome, que é uma referência do álbum “Cantos dos Escravos” de 1982 de Geraldo Filme, Clementina de Jesus e Tia Doca, como se fosse essa ancestral, essa Exú-Mulher se apresentando pra mim e apontando esse caminho.
“Canela”: Fala dessa infância de menina preta que eu não pude viver plenamente, é esse imaginário, essa ficção, como se pudesse voltar no passado e reescrever a minha criança. Ao som dos tambores, o Coral Vozes Trans, que carinhosamente me chamou para ser madrinha deles, entram no coro final invocando os ancestrais, representando o ensinamento de que é preciso de uma aldeia inteira, ou seja, uma coletividade, para cuidar de uma criança — é uma afirmação de que que foi preciso uma comunidade de vivos e mortos pra curar minha criança.
“Violeta”: é a primeira ruptura nesse álbum e aborda as dores de uma infância e adolescência preta. Nessa canção eu dou vazão a todos os traumas vivenciados nessas fase da minha vida, é uma grande denúncia das violências sofridas por mulheres pretas, uma tensão sentida do começo ao fim da música e que faz referência ao Opanijé, que é o toque para Obaluaiê Omolu ou Xapanã e representa a dualidade entre vida e morte, saúde e doença, o domínio sobre a terra e a cura das mazelas.
“Flor Neon”: essa é colo e afeto dedicada a pequena Ayôzita, lembro de uma consulta com uma pombagira, onde ela me disse que minha criança era muito ferida e eu concordei, mas ela dizia que agora adulta, eu poderia pegar essa criança e enchê-lá de cuidado e carinho. É uma canção de amor, com todos os clichês que uma canção de amor pode ter e muito inspirada no “Dêndê”, meu erê, que me ajuda muito a ser mais afetuosa comigo. É uma composição minha e de Leo Matheus, um dos produtores do álbum.
“Íntima Guerra”: é um grande drama, do jeito que eu gosto. É uma composição do Leo Matheus também e é a música que representa a minha adolescência, com meus conflitos internos e toda a puberdade que envolve isso, tem uma energia densa: no começo só voz e piano e depois entra um beat que muda a energia e traz o envolver sensual de descobertas dessa fase, é uma das minhas preferidas, eu sou dramática. Risos.
“Vênus”: ela é a maior surpresa desse álbum e me arrisco a dizer que traz muito a essência do álbum, já era uma música que fazia parte do meu repertório, mas ela tomou um outro lugar, ela representa a fase adulta após o encontro com as pombogiras e a transição de gênero, onde eu realmente comecei a me sentir mais bonita e atraente e comecei a me sentir livre para vivenciar amores. É um som bem dançante com referências do brega e do pagodão baiano.

“Ô Baixin“: não podia faltar samba. Ô Baixin é um pagode com tudo que tem direito. Eu a escrevi em 2021, quando eu estava vivendo a minha primeira relação transcentrada, cheia de afeto e com muitos momentos de conchinha. Eu tenho 1,94 de altura, ou seja, quase todo mundo que me relaciono acaba sendo mais baixo que eu e é uma característica bem comum entre casais trans em que a travesti é mais alta que os boys trans. Então essa música se tornou uma grande celebração aos amores dissidentes.
“Matando a Sede”: é uma música sobre levar um grande chá, sabe, risos. Aquele chá que você quer repetir toda hora e em qualquer lugar, quando você sente algo intenso e forte, que te deixa meio desnorteada. Foi também inspirada em relações transcentradas. A música tem um groove delicia e é ideal para fazer um amorzinho gostoso.
“Para Menina de Logunedé”: essa música é um presente que minha amiga Assucena me deu. Depois de uma roda de samba que eu fazia participação, ela chegou em mim e disse: Eu tenho um samba que é a tua cara! E começou a cantar pra mim, eu me apaixonei na hora e não tive dúvidas que entraria no álbum, é uma bossa bem intimista e ela representa algo muito bonito na macumba: a vida vai continuar tendo momentos difíceis, mas vale a pena continuar e eu nunca estarei sozinha.
“Tempestade“: eu sou completamente apaixonada nessa música. Sou filha de Oyá, Orixá das Tempestades e Transformações. E essa música carrega a força de minha mãe — eu queria muito que os sons de trovão acompanhassem durante toda música, que vai crescendo e tomando uma proporção maravilhosa. Tem poema no meio e termina saudando essa Orixá que rege meus caminhos e que é composição de uma amiga/irmã Clarissa Libra que também compôs Canela e Vênus.
“Pintoza”“: essa música tem uma história muito interessante — ela é uma composição de Uma Luiza Folha, assim como “Violeta”. Uma é outra irmã com quem estudei na Etec de Artes. Naquela época, nós éramos adolescentes e eu pedi uma composição para ela, nossos caminhos seguiram e a gente acabou meio que se afastando. Mas, anos depois,nos reencontramos e ela me contou que tinha feito essa música inspirada em mim e que através dela começou seu processo de transição. É um funk maravilhoso com referência da Ballroom e que traz a participação de Jup do Bairro. Ela trouxe um texto incrível sobre a gente se fortalecer enquanto comunidade.
“Exú-Mulher”: é o fechamento desse ciclo chamado “Exú-Mulher”. A ideia era começar e terminar o álbum com Exú Orixá, então, eu canto pra ele no começo e correlaciono a travestilidade com esse Orixá, que carrega características tão potentes. Sem sombra de dúvidas, é a musica mais percussiva do álbum e eu tenho honra de ter minha irmã de Santo e de vida APEAGÀ trazendo um de seus poemas. Foi da boca dela que ouvi pela primeira vez a expressão “Exú-Mulher”, nada mais justo do que ter ela fechando esse ciclo e cantando para e sobre as Pombogiras. O final do álbum tem um áudio de uma das Giras do TEU Urubatão, que é o terreiro que sou filha, cantando para Maria Mulambo, que é a grande inspiração desse trabalho!
