Flerte Flamingo aborda o desapego em “Dói Ter”, álbum que passeia entre Gal Costa e Arctic Monkeys 

17/11/2025

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Por: Revista NOIZE

Fotos: Divulgação

17/11/2025

Com dez anos de estrada, Flerte Flamingo lança seu primeiro álbum. Produzido pelo vocalista Leonardo Passovi, ao lado de Fernando Tavares, Dói Ter (2025) é um mergulho em todas as fases da paixão, em uma Salvador boêmia para se vivenciar com amigos.

O grupo baiano se completa com Gustavo Cravinhos (guitarra e teclas), Bruno de Sá (baixo) e Igor Quadros (bateria). Além da gravação em estúdio, a banda brincou e trouxe áudios de WhatsApp, narrações de jogos de futebol e registros em jantares, deixando a atmosfera mais crua e vulnerável. 

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“O título também traduz o sentimento que permeia o disco, o aspecto silenciosamente dilacerante de manter algo na vida de que você não consegue se desfazer, mesmo que lhe consuma. É o nosso primeiro disco cheio, e ele marca um novo começo”, reflete Leonardo.

Dói Ter segue o caminho romântico dos seus trabalhos anteriores. A banda, acostumada a versar sobre amor em seus EP’s, agora olha para dentro, refletindo sobre os impactos da paixão em quem se sente. A euforia do início que deságua na aurora melancólica do medo. 

O grupo se define como “indie samba-rock” e, para construir seu som único, eles não poupam referências: Gal Costa, BaianaSystem, Luiza Lian, The Marías, Dorival Caymmi, Jorge Ben e até Arctic Monkeys e Led Zeppelin são listados. 

Dói Ter faixa a faixa:

“Pompoarismo Amador”: é como um gesto desesperado pra fazer alguém ficar, tentando mostrar uma naturalidade e um traquejo que não necessariamente se tem. Começa construindo um mistério que depois revela que todo o agito vem da angústia e insegurança de se reconhecer nesse estado e ver que precisa elaborar o muito que tem a dizer. Um pouco desaforo, um pouco confissão e, ao mesmo tempo que atiça, é o tipo de coisa que quase só se diz ao telefone. Por isso um riff de guitarra no refrão que sugere um número sendo discado repetidas vezes.

“Criatura do Mal”: é se deixar levar pelo fluxo, assumir um estado de entrega, de disparidade de sentimentos, mas ao mesmo tempo com algum resgate de orgulho diante de uma aparente falta de reciprocidade. São meio que canções-irmãs, essas duas primeiras. Criatura do Mal, por mais que não tenha sido composta com esse viés, e até tenha surgido anos antes de Pompoarismo Amador, acaba funcionando, dentro do álbum, como uma sequência um pouco esperançosa, uma luz no fim do túnel em relação à sua antecessora. Por isso é um pouco mais “up-beat”, que nem um começo de noite de sexta ou sábado, que contém ainda uma série de expectativas a serem cumpridas ou despedaçadas ao longo das próximas horas da noite.

“Juízo e Responsabilidade”: um suspiro antecede um anti-conselho: não vá você pensando… Sucede então uma cadência, típica de samba, mas que a princípio parece evitar a tônica como quem tangencia um assunto delicado, até se render em confissões infantis e metafóricas. As texturas se constroem paulatinamente, como ideias se sedimentam no córtex. De repente, já se sente no cerne da questão. Existe alguma coisa de consolo atabalhoado, empatizando ao mesmo tempo que chamando atenção para o quão cúmplice se pode ser do próprio infortúnio. Como armamos nossas próprias armadilhas, erguemos nossos próprios obstáculos. Mas tudo posto de maneira um tanto despretensiosa, como um já volto de quem sai de casa sabendo que só volta de madrugada. Por fim, a compreensão selada num pacto, num combinado. Uma série de memórias esfumaçadas se inicia de uma dissuasão.

“[Devaneio I] Dói Ter”: primeiro mergulho introspectivo do álbum, a quarta faixa é um interlúdio que apresenta o lado mais dócil da psiquê do álbum. Uma cadência de acordes sem resolução aparente se repete como um redemoinho dos pensamentos mais íntimos de alguém que é surpreendido e confrontado por uma reflexão sobre si em um momento inapropriado e se desconecta do ambiente ao redor para olhar pra dentro. Inaugura o ato mais singelo e delicado de Dói Ter.

“Calma, Carolina”: apesar de ser uma regravação, por já ter sido trabalhada antes num outro formato, mais livre, é a principal balada do álbum e já nasceu com esse propósito. O arranjo mais solto havia servido bem, mas a ideia sempre foi ter uma versão com banda como a principal. É uma canção em que pouco diz bastante, porque é mais sobre estado de espírito do que sobre semântica. A simplicidade de se dar por satisfeito ao fazer alguém feliz e não exigir nada pra ter essa pessoa do seu lado. É um sentimento que se percebe entre a respiração e que cresce com a presença. Um discurso sólido o suficiente pra precisar apenas de duas guitarras, um baixo e uma bateria pra soar em sua completude.

“Preciso Demais”: na esteira da introspecção que permeia esse segundo ato de Dói Ter, é nessa hora que se lança luz sobre o retrogosto duradouro dos arrependimentos. Todas as relações interrompidas, mal cultivadas ou feridas recebem um olhar um tanto empático e compreensivo. Um clamor por complacência, um apelo à lembrança de que você, também, sabe como é a sensação. Seja a situação qual for, os detalhes pouco importam. O sentimento parte do mesmo âmago e é amargo da mesma forma.

“O Último Homem”: liricamente, essa canção exprime um sentimento que serve bem justaposto ao ilustrado em Pompoarismo Amador. Tem um tema melódico forte a ponto de prescindir de refrão, e o arranjo condensa a atmosfera que o disco propõe em sua totalidade: é possível remexer e canalizar sentimentos controversos. O tom apologético que predomina nos versos carrega uma boa dose de autoconsciência. Temos um eu-lírico que assina em baixo de seus defeitos e não foge da responsabilidade sobre as máculas de uma relação moribunda. O arranjo, em especial o balanço rítmico, que flerta com um brega estilizado, envolto em trevas, mantém a energia nos quadris enquanto a atmosfera vai ficando cada vez mais pesada. Os versos ebulem desse caldeirão e decalcam, como pinceladas em tons soturnos, os contornos incompletos de uma historieta romântica que transporta o ouvinte diretamente para o desconforto de viver e/ou abandonar uma paixão.

“Boletim (Recuperação do Amor Infantil)”: dissecando os aspectos infantis do comportamento de quem está apaixonado, Boletim se ambienta numa sala de aula na qual dois alunos se esforçam para esconder o que sentem um pelo outro e falham miseravelmente. A letra constrói um diálogo entre os dois, adornado por um indie samba-rock sombrio em seu estado mais puro. Mais adiante, a canção visita paragens cavernosas, sublinhando o lado mais macabro do álbum. Uma ponte que flerta com o drum and bass leva tensão a seu nível máximo de desorientação – algo presente desde os primeiros segundos da faixa – até desaguar num refrão final carregado de suingue latino.

“Pensando Bem”: provavelmente a faixa mais progressiva de Dói Ter, começa e termina em polos diametralmente opostos. Certamente a menos samba e mais rock, também. Com dois solos, um de guitarra e outro de bateria, foi a faixa em que, no processo de produção, o curso foi tornado o mais livre possível para as ideias serem testadas e sentidas por todos. Ao contemplar a composição crua, jamais se imaginaria este como resultado final. É um dos momentos no qual é possível apreciar o Flerte Flamingo sendo banda, no sentido mais cândido e integral da palavra. É a ficha técnica mais curta entre as canções do álbum, mostrando o muito que se pode fazer com oito mãos hábeis e cabeças criativas. Tudo isso para adornar a história de alguém que aprecia e se atrai por comportamentos controversos e desaforados, da mesma natureza daqueles que eventualmente a repeliriam. É um aceno a todo mundo que um dia decidiu partir.

“Ano Que Vem”: a terceira e última regravação presente no álbum vem, entre outras funções, pra reforçar a ambientação do trabalho na nostálgica Salvador pré-pandêmica. Com poucas mudanças em relação ao arranjo da versão single, a diferença se dá na interpretação, nas texturas e, acima de tudo, na estrutura composicional. A singela “anti-música de carnaval” do Flerte Flamingo ressurge sem sua seção final, que dá espaço a uma simulação de festa de rua construída com áudios de whatsapp, narrações de jogos antigos – entre elas uma briga dentro de campo entre as seleções de Brasil e Uruguai em 1976 – e outras camadas de sound design que ambientam o ouvinte em algo que parece ser o Carnaval de Salvador.

“[Devaneio II] Perdido na Barra”: essa ambiência caótica que vem costurada diretamente da faixa anterior leva ao segundo mergulho introspectivo do álbum. Assombrada por lembranças involuntárias e perdida num estado de entorpecência, a psiquê do álbum vagueia por ruelas de Salvador em busca de recobrar a plenitude de sua consciência, enquanto enfrenta a solidão e seus próprios demônios, como qualquer folião em algum momento de sua jornada. É um momento pivotal na odisseia boêmia que se constrói ao longo de Dói Ter. 

“Vida de Cigarra”: a desventura nas ruas e becos culmina numa acolhedora festa caseira, remetendo aos memoráveis after-parties dos eventos do Flerte Flamingo. Um ambiente em que se pode cantar uma canção singela de maneira despretensiosa e desfrutar de boas companhias e algo pra comer e bebericar. Nem só de memórias complexas e problemáticas se fez esse álbum. 

“Até de Manhã”: na medida em que o after avança e a manhã se aproxima, é quase inevitável refletir sobre tudo o que passou e serviu quase como justificativa para as coisas terem ido tão longe. Até de Manhã é uma canção simbólica para a banda por encapsular a transição entre a sonoridade anterior e a atual do Flerte Flamingo. Parte de um balanço benigno de pandeiro e nos leva até a ferocidade de uma guitarra ultra distorcida, valorizando os jogos de pergunta e resposta entre os instrumentos, sem sair do compasso do samba-rock. Os vocais de apoio destacam a reflexão sobre um desejo que parece insaciável. Além das texturas caleidoscópicas, o apelo do refrão une as pontas do disco, recobrando o retrogosto dos arrependimentos da faixa 6. 

“Onze de Dez”: o momento em que o álbum finalmente amanhece, depois de uma longa noite de discórdia, satisfação dos desejos carnais mais imediatos, e cultivo de novos arrependimentos. Um baião discreto e etéreo nos devolve à realidade externa com um sentimento melancólico e nostálgico. A saudade com pitada de rejeição descrita na letra traz de volta sensações presentes no começo do álbum. Fica evidente que, mesmo depois de toda essa digressão emocional e psicológica, a disposição das coisas a seu redor não está tão diferente assim. Quem mudou foi você.

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