Retratos Sonoros: Flesh Beck Crew e a história por trás de capa clássica do D2

23/02/2026

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Por: Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação

23/02/2026

Em 2003, nas ruas do Rio de Janeiro, era possível ver o famoso logo “D2” grafitado por diversos muros da cidade. A ação, feita para divulgar o lançamento de A Procura da Batida Perfeita (2003), juntou grafiteiros e pixadores da cena hip-hop que se concentrava na Lapa para espalhar o símbolo pela da capital carioca. 

A Procura da Batida Perfeita foi um dos lançamentos do NRC; conheça o clube de vinil

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O logo é de autoria da Flesh Beck Crew, coletivo de grafiteiros responsável pela capa do disco. Misturando o grafite e o estêncil, com elementos visuais do hip hop e o samba característicos de Marcelo D2, a arte virou simbólica de uma época em que o grafite saía de uma posição de marginalização e passava representar a cultura de rua em outros espaços.

A Flesh Beck foi formada pelos designers Bruno Bogossian, que atende pelo pseudônimo BR, e seus colegas Toz, Pia’, SWK, Rod e Krrank em 1998. O grupo se conheceu na faculdade e passou a publicar uma zine, além de formar o estúdio de design Motim. 

“Quando a gente começou, o Rodrigo [Abranches, o Rod] viajava muito pra Nova York e trazia várias daquelas revistas de hip-hop ‘The Source’, e sempre tinha grafite nas últimas páginas. A gente achava irado e começou a fazer”, conta Bogossian. 

Na época, o bairro da Lapa, na zona sul do Rio de Janeiro, era “o ponto de encontro das galeras alternativas”, fala o grafiteiro Airá OCrespo, que também começou a pintar nessa época. Era lá que acontecia a Zoeira, festa de hip hop que foi eternizada em versos de D2 e outros rappers cariocas, como MC Marechal e Aori. Na Zoeira, Bruno e a Flesh Beck Crew começaram a espalhar os zines do coletivo. 

Com o tempo, a FBC passou a se tornar popular entre os frequentadores dessa cena de rua carioca. Bruno conta que eles eram conhecidos de Marcelo D2, mas que um dia se surpreenderam ao ouvir a campainha no estúdio de design, que ficava na Lagoa, olhar pela janela e ver que Marcelo foi quem tocou. 

“Ele não avisou nada, sacou?”, relembra Bogossian. “Chegou lá e falou que o designer com quem ele estava trabalhando não estava acertando a capa do próximo disco dele. Pô, foi a minha maior honra, né? A gente tinha 20 e poucos anos e pegou um projeto icônico assim.”

Marcelo chegou sem muito briefing, mas interessado pela arte do grupo e explicando a ideia do disco. “Começamos a criar a partir do zero. Fomos trabalhando com o estêncil, com diferentes texturas de pincel. Hoje em dia todo mundo usa, mas na época era uma estética meio suja, urbana”, conta. “A gente queria expressar graficamente o que ele estava mostrando no som. Por isso pegamos esses elementos, o pandeiro, o MPC…”

O resultado é uma capa icônica que, além dos instrumentos de samba e hip hop, também mostra um estêncil de três ângulos do rosto do rapper sobre um fundo texturizado que se assemelha a um muro grafitado, além do tradicional logo, que se tornou a marca registrada do artista. 

Segundo Airá OCrespo, o estêncil naquela época não era muito bem aceito pela comunidade do grafite. “Era uma cena, às vezes, muito fechada para determinadas influências. A gente achava que tinha que ser do modo mais difícil pra mostrar o seu talento, então usar estêncil era ‘roubar’. Mas isso foi mudando”, comenta o artista, que foi um dos grafiteiros que espalharam o logo da capa do disco pelos muros do Rio de Janeiro. “Foi muito marcante da época, mobilizou a cena”, diz. 

“Deu o maior orgulho de fazer essa tag”, comenta Bruno Bogossian. O artista diz que o trabalho do coletivo foi importante para o estúdio, que ganhou reconhecimento e espalhou o nome do Motim não só pelo restante do Brasil, mas também pelo mundo. O impacto também se deu na própria cena de arte carioca, que passou a ser mais receptiva com o grafite e seus elementos particulares. 

Em agosto deste ano, D2 e a produtora Luiza Machado abriram uma instalação para o lançamento do álbum nas plataformas de streaming, na Ocupação IBORU, na região central da cidade. Na ocasião, Bruno recriou a capa na parede do projeto, voltando a evocar sua importância para o hip hop carioca. “É um disco que tem um diálogo muito forte com o momento que o Rio de Janeiro estava passando, e o Marcelo foi um pioneiro na onda dele”, finaliza Airá. “Então uma capa de grafite, de estêncil, foi perfeita.”

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #157, que acompanha o disco A Procura da Batida Perfeita, de Marcelo D2, lançado pelo Noize Record Club.

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