Segundo o dicionário Machaelis, a sinestesia é uma “associação de palavras ou expressões em que há combinação de sensações diferentes numa única impressão, como em Um som áspero cortou a noite
(audição e tato)”. É essa viagem sensorial que o paulistano Guioak explora em seu segundo EP, Sinestesia Primária.
No projeto, cada faixa ganha uma cor diferente, inspirada pelas paletas primárias: vermelho (explorando a paixão e seus efeitos), o azul (a conexão com a própria individualidade) e o amarelo (a catarse musical). A guitarra baseada no indie rock é o elo entre as quatro faixas. O lançamento, de certa forma, complementa o EP de estreia, Músicas em Preto & Branco (2023). Se, no primeiro, o formato acústico e indistinto dava o tom, neste, os riffs mais expressivos e ensolarados são protagonistas.
Joni e Glimpse (DJ Mochakk)(assinam a produção do novo EP, que também conta com influência dos beats eletrônicos. Sinestesia Primária confirma uma maturidade musical do artista de 25 anos, que se inspira pelo emo, indie e R&B para compor suas canções. O artista respondeu à Noize sobre o processo criativo do novo projeto. Confira abaixo e aproveite para dar o play no EP, enquanto acompanha as curiosidades por trás de cada canção faixa a faixa.
Como foi o processo de produção do EP?
Acho que foi como um LEGO, peça a peça, mesmo sem perceber. Começar a produção de uma das músicas não teria sido possível sem antes finalizar e até mesmo lançar a anterior, com uma se tornando um reflexo direto da outra. Mesmo com quatro faixas, sinto que a entrega foi tanta a ponto de eu perceber elas como diferentes atos de uma história, algo que ia se desdobrando a cada sessão no estúdio, ou então um simples post no Instagram, ao longo dos quase dois anos que me dediquei a construir esse EP.
Enquanto isso, ele ia evoluindo junto comigo. Confesso que, lá quando eu comecei a gravar, em nenhum momento eu pensei que ia demorar todo o tempo que levou pra encerrar esse ciclo, mas todas as experiências que adquiri ao longo desse período foram vitais para que o projeto amadurecesse e pudesse ser materializado da forma como aconteceu. Particularmente, acredito que não existiria outra forma de ter colocado essas ideias para fora, justamente por elas serem um reflexo muito fiel do que eu estava sentindo em cada nova etapa de produção. Foi muito natural, muito fluido.
Cada fase desse projeto foi extremamente gostosa de pensar, seja nas músicas ou nos visuais e clipes, à medida que via ele tomando forma bem na minha frente. No final, mesmo que eu acredite que essas quatro músicas sejam um retrato perfeito do que o Guioak é como artista, eu tenho a sensação de que “Sinestesia Primária” consegue ser maior do que isso, já que o tempo todo ele se conectou intrinsecamente com as minhas sensações, com o meu inconsciente. Acredito que o EP revela algo sobre mim que talvez eu nem saiba e ainda vou descobrir, ou não. Isso é muito louco. E queria aproveitar esse momento para agradecer tudo e todos que me ajudaram a traduzir essas sensações em música, me inspiraram e fizeram parte disso do começo ao fim.
A parte visual do projeto também foi essencial para contar essa história, por isso insisti muito na produção dos clipes. Eles são consequências das sensações que percorrem as três cores do projeto. O mais interessante é que cada um deles eu fiz com uma galera diferente, com estilos e olhares variados, mas que se complementaram tal qual as cores dentro de um espectro. Aqui, a gente se permitiu explorar mais sensações trazidas pelas composições e expandir essa história para outros sentidos.

A ideia da sinestesia já estava clara na sua cabeça? Qual sua relação com a pintura, fotografia e outras artes que permeiam essa multiplicidade de sentidos e estão presentes no conceito do EP?
Sinto que eu carrego essa ideia comigo há bastante tempo. Para mim, a música em si é muito sinestésica. Eu lembro, quando criança, de ouvir o rádio no carro, fechar os olhos e imaginar um monte de cenários, desde cores até clipes inteiros na minha cabeça, tentando descobrir o contexto em que aquilo tinha sido criado. “Sinestesia Primária” de alguma forma é até uma homenagem ao próprio processo criativo, a própria arte que, pra mim, nunca foi simplesmente o ato de ouvir uma música, admirar um quadro ou ver um filme. A forma como percebemos a arte vai muito além dessa materialização, ela dialoga com o nosso inconsciente de formas inimagináveis e que ficam guardadas com a gente para sempre.
O processo criativo de todas as faixas do EP começou na guitarra, ela é o esqueleto do projeto, mas sem eu nem mesmo saber sobre o que eu queria falar em cada umas das músicas. O que me deu esse norte foi justamente a sonoridade do que eu ia tocando, me inspirando a escrever sobre determinado assunto até eu finalmente terminar de compor e entender sobre o que eu estava falando. Eu me entreguei ao meu inconsciente nesse projeto. O foco era despejar nessa construção tudo o que eu sentia que dialogava com cada uma das três cores, desde situações pessoais da minha vida, cheiros, toques, gostos, até exposições, cenas de filmes e por que não memes engraçadinhos que eu encontrava no Twitter também. Foi nesse momento que todas as minhas experiências sensoriais anteriores com o vermelho, o azul e o amarelo tiveram um papel fundamental para influenciar a forma como as músicas foram concebidas. “Como soar vermelho?”, “Será que esse timbre não é meio azul?”, “Qual acorde é mais amarelo?” eram perguntas que eu ia me fazendo com frequência.
Leia o faixa a faixa:
“Sinestesia“:É a primeira faixa do projeto, mas a última que eu escrevi. Quer dizer, não exatamente… A letra sim veio por último, mas a linha de guitarra, um instrumento, inclusive, central para a construção de todas as músicas do EP, é algo que eu carrego comigo deve fazer uns cinco anos ou mais. Eu sempre tive um apego gigantesco a ela e eu busquei reimaginar esse riff no contexto desse projeto. Eu diria que o processo de concepção do EP foi um resgate de tudo o que me fez artista até aqui. Essa faixa então antecede até o momento em que pensei em trazer o conceito das cores que abrange “Sinestesia Primária”, sendo um convite não só para o projeto, mas uma porta de entrada para minha própria exploração artística pessoal. “Sinestesia” é, portanto, a união de todas as cores e sentimentos que vão ser apresentados logo em sequência.
“Perspectivas“: Essa, sim, foi a primeira faixa que produzi. Eu buscava algo que destoasse o máximo possível do meu projeto anterior, o “Músicas em Preto & Branco”, pra me obrigar a sair da zona de conforto. E acho que nada mais oportuno do que me guiar e me deixar ser inspirado pela cor vermelha. Ela surgiu como um estalo, lembro de começar a escrever ela numa madrugada, tipo, às três da manhã, e terminar ela já na noite seguinte. Aqui, o vermelho é intenso, é uma ruptura, é um “chute na porta”. A faixa reflete exatamente sobre o ímpeto de sair da inércia e se jogar de forma inconsequente nas nossas ambições. O interlocutor é um amor inconsequente que nos motiva a ir de encontro a nossa melhor versão. “Perspectivas” é uma mistura de sensações sobre amor, coragem e desejo em um anseio de encontrar propósito na vida.
“Pulsões“: A cor azul sempre me trouxe uma ideia de sobriedade e de autorreflexão. Lembro de ter reescrito a letra umas três, quatro vezes, porque eu nunca ficava satisfeito com ela. Foi de longe a faixa mais trabalhosa das quatro nesse sentido. Inclusive, existe uma outra versão inteira finalizada de “Pulsões”, com um beat e um verso completamente diferente que provavelmente nunca vai ver a luz do dia, justamente porque, quando ela ficou pronta, eu ouvi e senti que eu não estava sendo sincero comigo mesmo ali. Ela é uma música que fala essencialmente sobre autossabotagem, mas reconhecendo que ela é um comportamento natural e humano. É sobre buscar um equilíbrio entre vontades e expectativas, consciente e inconsciente, mas no fim priorizar a conexão com a nossa própria identidade. Acho que a estética mais pop da faixa esconde um pouco isso e acaba propondo uma brincadeira legal, até porque nossos próprios sentidos também nos enganam às vezes.
“Passagens“: “Passagens” conclui “Sinestesia Primária” com um momento de realização, algo que, pra mim, é bem “amarelo”. Diria que é uma catarse depois de tudo o que foi sentido ao longo das outras faixas, e de todo o processo que envolveu a concepção de cada uma delas. Nesse sentido, o projeto acaba se tornando uma reflexão sobre ele mesmo, com a última faixa simbolizando uma espécie de carta à Música em si. Aqui, é pura entrega. É a música mais visceral que lancei até agora, e isso se traduz na ideia dela representar uma certa emancipação das inseguranças que às vezes nos impedem de poder confiar na nossa intuição para ir atrás dos nossos sonhos. O projeto conclui com a sensação de encontrar paz dentro desse caos; um emaranhado de pensamentos, ideias e cores.