Fundada por Candeia, a escola de samba GRANES Quilombo conta uma história de resistência 

11/02/2026

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Por: Airan Albino

Fotos: Divulgação/Arquivo Nacional

11/02/2026

“Eu sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem. Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito. Intimamente ligado às minhas origens. Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: não me incomodem, por favor. Sintetizo um mundo mágico. Estou chegando…”.

*

Este trecho do Manifesto do Quilombo, escrito pelo professor João Baptista M. Vargens, resume a proposta de uma escola de samba revolucionária. Da insatisfação pelos descaminhos que o carnaval tomava surgiu um lugar de resistência e união que se propôs a retomar as origens afro-brasileiras desse espaço: o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo. Seu principal mentor foi ninguém menos que Antônio Candeia Filho.

O embranquecimento do carnaval

Uma ruptura dentro do carnaval carioca começou a dar sinais nos anos 1960. Ismael Silva, da Estácio de Sá, e Cartola, da Mangueira, já criticavam as escolas que eles tinham ajudado a fundar na década de 1920 por deixarem de ser uma festividade popular. Em 1962, aconteceu o Primeiro Congresso Nacional do Samba, reunindo músicos, intelectuais e jornalistas para debater as mudanças no caráter das escolas. Conforme artigo do historiador Guilherme Motta Faria, uma “Carta do Samba” foi escrita em 2 de dezembro – que passou a ser o Dia Nacional do Samba. Nela constam as recomendações coletivas do congresso para a proteção da essência cultural do samba frente à sua modernização.

Mesmo assim, o carnaval estava se tornando um comércio. Nos desfiles, arquibancadas foram construídas, ingressos passaram a ser cobrados, medidas punitivas na avenida foram incluídas. As escolas foram obrigadas a expandir suas bases para acomodar turistas e moradores da classe média. O registro de direitos autorais para a composição dos sambas-enredo obrigou os grupos a se adaptarem às exigências da indústria fonográfica. Mas a principal mudança que representa esse período é a figura do carnavalesco: uma nova categoria de figurinistas, coreógrafos e cenógrafos profissionalizados, alguns de formação universitária. No livro Carnaval carioca: dos bastidores ao desfileMaria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti explica como se relacionavam os sambistas e os carnavalescos:

Os sambistas tinham filiações comunitárias ao morro, à escola de samba, às suas expressões artísticas e aos seus antecedentes históricos: o samba de terreiro, o samba de partido-alto, o jongo, o samba de roda e o candomblé, ao passo que os carnavalescos mediavam as demandas econômicas e culturais do mundo ‘fora’ da comunidade: o turismo, os consumidores de classe média da Zona Sul, e a indústria fonográfica.

Na Portela, escola que o pai de Candeia ajudou a fundar, havia discordância entre a direção administrativa e a ala de compositores, de onde Candeia fazia parte. Em 1967, por exemplo, Monarco, uma referência dentro da Velha Guarda da Portela, estava aborrecido com o presidente Nelson Andrade afirmando que a escola estava vencendo carnavais de forma ilícita. Em 1972, assumiu a Portela o bicheiro Carlinhos Maracanã, que ficaria na escola por mais de 30 anos. Junto do carnavalesco Hiram Araújo, Maracanã teve uma série de atitudes opostas às ideias dos compositores, afastando nomes de veteranos como Zé Keti e Carlos Elias. 

Em março de 1975, Candeia e outros compositores entregaram um documento ao presidente propondo uma série de reformas. A proposta era que a escola fosse fiel às suas origens, alegando que, quanto mais fosse influenciada por indivíduos não integrados na comunidade, mais deturpada, imitativa e não representativa iria se tornar. “A Portela precisa assumir posição em defesa do samba autêntico. Isso não significa um retorno à década de 1930, mas uma posição de autonomia e grandeza suficientes para só aceitar as evoluções coerentes com o engrandecimento da cultura popular”, dizia o texto. 

A direção sequer debateu a proposta e o sambista resolveu então criar seu próprio bloco. Em 8 de dezembro de 1975, com as cores branco, dourado e lilás, foi inaugurada como plena escola a GRANES Quilombo, com sede em Rocha Miranda. 

Afro-brasilidades relembradas

Em sua fundação, a Quilombo tinha em seu corpo-diretor os sambistas Paulinho da Viola, Monarco, Wilson Moreira, Elton Medeiros e Rubem Confete, os jornalistas Juarez Barroso, Dulce Alves, Lena Frias e o ator Jorge Coutinho. Muitos dos membros vinham da própria Portela, mas, também, de outros grupos, pois a Quilombo não pretendia substituir a afiliação às outras escolas. A proposta era criar um “espaço simbólico, criativo”, que congregasse sambistas da cidade inteira.

Conforme os textos da escola de Candeia, os objetivos centrais da GRANES Quilombo eram: desenvolver um centro de pesquisa de arte negra, enfatizando sua contribuição à formação da cultura brasileira; lutar pela preservação das tradições sem as quais não se pode desenvolver qualquer atividade criativa popular; afastar elementos inescrupulosos que, em nome do desenvolvimento intelectual, apropriam-se de heranças alheias, deturpando a pura expressão das escolas de samba e que as transformam em rentáveis peças folclóricas; atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, destacando a importância do elemento negro no seu contexto; organizar uma escola de samba onde seus compositores, ainda não corrompidos pela “evolução” imposta pelo sistema possam cantar seus sambas, sem prévias imposições. Uma escola que sirva de teto a todos os sambistas, negros e brancos, irmanados em defesa do autêntico ritmo brasileiro. 

Era tarefa do Quilombo atrair novos pensadores e novas leituras da história do negro. Do discurso à prática, além das rodas de samba, a escola organizava palestras, exibição de filmes, exposições que tinham a função de reunir a comunidade local para construir um sentido político em torno da negritude e do resgate de suas tradições culturais. Jornalistas, professores universitários, produtores culturais e outros formadores de opinião desempenharam um papel importante nesse processo. 

Os enredos da escola cumpriam função semelhante, optando por apresentar temáticas raciais. Em 1977, o enredo escolhido foi “Apoteose das mãos”, sobre a união dos negros. A Quilombo se apresentou pelas ruas dos subúrbios de Coelho Neto e Acari e ainda fechou o carnaval na Avenida Presidente Vargas. Com um contingente de 400 pessoas, dentre as quais Paulinho da Viola, Candeia, Martinho da Vila, Clementina de Jesus e sambistas de outras agremiações, roubou o espetáculo, desfilando livre e descontraída pela avenida, sem esquemas, imposições, figurinos ou estrelas, despreocupada com novas fórmulas, apresentação musical ou com contagem de pontos.

O jornal A Notícia publicou que “a Quilombo mostrou o verdadeiro papel de uma escola de samba e apresentou seu Carnaval de 77 visando apenas realizar a mais genuína festa brasileira”. Já o jornal Movimento falou que “as faixas ‘samba sem pretensão’ e ‘samba dentro da realidade brasileira’ tomaram outra dimensão nas horas que antecederam o momento do desfile. O Quilombo reunido, tendo Candeia ao centro, tocava samba-de-roda, lutava capoeira e dançava o jongo”. 

Em 1978, a diretoria da Quilombo decidiu aceitar o convite para fechar de novo o carnaval no centro da cidade. A escola desfilou no subúrbio e na Avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel. O professor Vargens esteve presente e testemunhou a emoção do compositor Casquinha, veterano portelense: “Tá tudo direitinho. Tudo certinho. Parece a Portela de antigamente”, disse o sambista.

Legado quilombola

Em 1978, Candeia se juntou ao professor Isnard Araújo, responsável pelo projeto Museu Histórico Portelense, que tinha um acervo de relatos de membros da Portela guardados para a produção de um livro. Em Escola de Samba: árvore que esquece da raiz os dois autores refletem sobre o legado das agremiações carnavalescas, a partir da história da Portela. Segundo o pesquisador inglês David Treece: “Longe de ser um simples antimodernismo ‘preservacionista’, a crítica ao modelo industrial das escolas agora se tornava uma defesa explícita da identidade negro-popular”.

“Para se falar em SAMBA temos que falar em negro, para se falar em negro temos que contar sua árdua luta através de muitas gerações, erguendo o seu grito contra o preconceito de raça e cor, herança da escravidão. O negro, com sua luta, vem de muito longe, dos Quilombos e das insurreições de escravos. Se voltarmos para a história nacional, encontraremos sua presença em todos os setores de nossa vida social”, diz trecho da obra de Candeia e Isnard.

Em 16 de novembro de 1978, Candeia sofreu uma parada cardíaca, provocada por uma septicemia (infecção na corrente sanguínea), e veio a falecer. A morte de Candeia foi abrupta e ocorreu no momento em que ele estava no auge de sua carreira. Como consequência imediata de sua partida, o Esporte Clube Vega interrompeu seu contrato com a Quilombo, resultando na perda de sua sede. 

Em depoimento à historiadora Ana Cláudia da Cunha, Feliciano Pereira, conhecido como Candeinha, conta como foi encontrar uma nova sede para a Quilombo. “Durante 1979, após a perda da sede, alguns poucos encontros foram realizados na ‘tendinha’ do Tião do Mocotó, no bairro de Coelho Neto. Logo em seguida, os encontros foram transferidos para um clube chamado Pau Ferro, no Irajá, do qual Nei Lopes e seus familiares eram fundadores. Em 1980, por empenho e intermédio de Jorge Coutinho, Dulce Alves e apoio dos políticos Jorge Leite e Miro Teixeira, deu-se a conquista da sede em Acari/Fazenda Botafogo, em um terreno cedido pela Companhia Estadual de Habitação (Cehab)”, relata. 

A pesquisa de Cunha mostra que em 1981, aconteceu a primeira grande crise no Quilombo, devido à divergência de visões e na disputa do samba enredo para 1982. O samba vencedor, que falava sobre Zumbi dos Palmares, creditava os holandeses pela existência do quilombo centenário. A polarização dos discursos e suas diferentes interpretações, gerou um conflito em que muitos deixaram a escola. De 1986 a 2014, a Quilombo seguiu com atividades voltadas para a comunidade que tivessem relação com a cultura afro-brasileira, como a capoeira, maculelê, jongo, caxambu, aulas de percussão, de cordas, e cursos de culinária.

De lá para cá, a escola não foi encerrada oficialmente, mas passa por dificuldades. Para Selma Teixeira Candeia, filha do compositor, a Quilombo não conseguiu superar a perda da sua maior referência. “Depois da morte do meu pai, a família se afastou da escola. A gente não tinha estrutura emocional para participar da Quilombo. Os fundadores deram continuidade no trabalho da escola. Ao longo dos anos, outras pessoas, que não eram pertencentes da comunidade, estavam na gestão da escola. Fato que não colaborou para a Quilombo, que já sofria por conta de enchentes”, conta.

A região onde está a escola, na Zona Norte do Rio, sofreu muito com inundações segundo Selma. “Acari é considerada zona de risco, teve enchentes que chegaram a ter 3 metros aqui na região. Em 2014, uma grande enchente foi responsável pela suspensão das atividades da Quilombo, destruindo todos os materiais da escola de samba. Cadeiras, quadros, material escolar, tudo. A Quilombo não consegue manter suas atividades atualmente por conta da falta de interesse das pessoas da comunidade e, também, por falta de apoio de entidades e do Estado. Hoje, ninguém mais quer nos ajudar. Estamos procurando um novo espaço”, lamenta.

Já no estado vizinho de São Paulo, em 2007, sambistas oriundos de diversas escolas de samba fundaram a Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo, com o mesmo propósito de ser um refúgio, um teto. Nas cores verde e branco, a escola se inspirou na iniciativa de Candeia para resgatar a cultura negra e prestar homenagens às suas referências carnavalescas. Assim como a escola carioca, a Quilombo de São Paulo não faz parte dos desfiles oficiais da cidade, mas mantém atividades voltadas para a comunidade e escolhe enredos pautados pela questão racial. “Zumbi-Candeia, o sonho não acabou, a chama não se apagou” foi o samba-enredo que apresentou em 2009, mostrando que o legado de Antônio Candeia Filho segue vivo e iluminando as raízes negras do carnaval. 

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #97, que acompanha o disco Axé, de Candeia, lançado pelo Noize Record Club.

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11/02/2026

Airan Albino