Inspirada na tradição pernambucana, relembre história da Orquestra Frevo do Mundo

12/02/2026

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Por: Ariel Fagundes

Fotos: Pablo Savalla

12/02/2026

Para quem nasce em Pernambuco, o frevo é muito mais do que uma expressão cultural. É um estilo de vida, um pilar da identidade estadual, além de ser uma trilha sonora constante que, desde o final do século XIX, ressoa pelas ruas do Recife. 

O dia 4 de fevereiro de 1907 foi escolhido como um marco inicial, pois foi nessa data que o termo apareceu pela primeira vez na imprensa. Contudo, a data tem apesar valor simbólico, uma vez que as origens do frevo remontam ao período imediato após a abolição da escravatura no Brasil. O músico e produtor pernambucano Pupillo destaca o processo de disputa e assimilação cultural que se deu naquele momento em Pernambuco. 

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Os escravos acabavam de ser libertados e buscavam espaço dentro da sociedade. A capoeira e as expressões corporais dos ex-escravos davam o tom de rivalidade com as primeiras bandas militares que surgiam e tocavam marchas e simbolizavam o colonialismo opressor que durante séculos dominou o Brasil. Com o tempo, os golpes da capoeira foram se adaptando e deram origem à dança [do frevo].Tudo isso se reflete na maneira com a qual a elite apropria as manifestações culturais vindas dos ex-escravos e cria clubes de Carnaval excluindo os capoeiristas, mas mantendo as bandas militares. Os capoeiristas, por sua vez, transformam-se em “passistas” para serem aceitos nos clubes, evidenciando a desigualdade comum até hoje – aponta acrescentando que, desde sua origem, o frevo tem “grande importância sócio-política”.

Reunindo uma forte influência rítmica e coreográfica de matriz africana a uma bagagem melódica mais conectada ao choro, à valsa e à música erudita, Pernambuco criou esse gênero único. “Temos aqui a tradição dos clarins, das escolas de metais, que vão passando de geração em geração. E a experiência de tocar no calor das ruas, junto com o povo”, comenta o músico, produtor e publicitário Marcelo Soares: “O Carnaval é a maior festa do calendário pernambucano e o frevo, seu principal ritmo, sua maior expressão. Em 2012, o frevo passou a ser [considerado pela Unesco] Patrimônio Imaterial da Humanidade, um reconhecimento tardio, mas uma grande conquista simbólica”. 

Assim como boa parte dos pernambucanos (se não todos), Pupillo e Marcelo ouviram o frevo ao seu redor praticamente desde sempre. “Minhas primeiras lembranças vêm dos clubes [de Carnaval], onde meus pais frequentemente nos levavam fantasiados e onde pude ouvir pela primeira vez bandas tocando frevo com um naipe de metais que fazia os foliões extravasarem e criarem coreografias das mais alegres e acrobáticas”, lembra Pupillo. 

“Sempre esteve presente na minha memória afetiva. Na casa dos meus pais, lembro que a vitrola tocava, em especial, uma faixa do vinil Sivuca & Rosinha de Valença (1977), na qual Sivuca realiza um passeio, com “Vassourinhas” [um dos frevos mais conhecidos de todos], por diversos países. Na China, ele toca com a sanfona ao estilo marcial. Nos “países árabes”, lembra uma kanun (espécie de cítara). Depois, segue para União Soviética em ritmo de polca. Ao final, chega em Pernambuco e fala: “Mas o que eu gosto mesmo é do hino do Vassourinhas, numa terça-feira de carnaval, na Avenida Guararapes”. Essa versão, pra mim, sempre foi muito forte e mostra na prática que temos muitas possibilidades de ouvir e produzir frevo”, diz Marcelo.    

Mas independente das referências domésticas, dos rádios e toca-discos, e dos clubes, que promoviam suas festas, há um outro espaço que talvez seja o mais importante de todos quando o assunto é frevo. “Além dos clubes, existia a rua, onde toda imaginação e irreverência se manifestavam das mais diferentes formas”, diz Pupillo: “A casa dos meus avós paternos se tornava ponto de encontro para amigos da família se juntarem pra seguir atrás das bandas de frevo sem hora (e, às vezes, sem dia) pra voltar. Eu era muito criança, mas essa memória ficou tão viva que, até hoje, recebemos em casa amigos de vários lugares do Brasil com um baú com fantasias carnavalescas”.

Ainda adolescente, por volta dos 16 anos, Pupillo começou a tocar bateria profissionalmente. Estamos falando de 1991, época em que as manifestações culturais tradicionais de Pernambuco viviam um período de menor prestígio. Mesmo assim, muitos grupos e festas populares sempre resistiram e Pupillo entrou de cabeça nesse cenário, que se mostrou uma verdadeira escola. “Acompanhei diversos artistas locais e acabei viajando bastante pelo interior de Pernambuco podendo, assim, conhecer mais de perto a cultura do estado”, lembra: “Poder viver a experiência de tocar em festas populares acrescentou bastante. Pude constatar, entre outras coisas, a capacidade que os artistas populares têm de manter com muita dificuldade uma tradição que define o Brasil e que, tantas vezes, é marginalizada e desprezada pelas camadas dominantes, sem receber o devido reconhecimento de sua importância”.

Mais ou menos nessa época, ele e Marcelo se conheceram. “Éramos todos jovens”, lembra Marcelo, que explica: “Pupilo é um irmão querido que conheci ainda no início da sua adolescência. Estudei com a irmã dele, que namorava um baterista, que também estudava na mesma escola. Sem dúvida, foi a música que nos aproximou e continua sendo um poderoso elo afetivo. É uma relação de mais de 30 anos”.

Marcelo viu Pupillo crescer dividindo-se, naquele momento, como músico de bandas de forró e de blocos de frevo, inclusive tocando no tradicional Galo da Madrugada, e seus outros projetos. “Paralelamente, eu tinha minhas bandas de rock e começava a descobrir artistas como Tom Waits, Velvet Underground, David Bowie e todo o pós-punk através de amigos mais velhos que se comunicavam com fanzines e conseguiam fitas cassetes e LPs, que se transformavam em encontros inesquecíveis e que foram referências para minha formação musical. Viver esses dois lados tirou de mim a arrogância e o preconceito que limitam o músico a um único estilo”, afirma Pupillo.

1991, quando Pupillo tinha 16, foi o mesmo ano em que se apresentou pela primeira vez um grupo chamado provisoriamente de Loustal & Lamento Negro. Na verdade, o Lamento Negro era um bloco de percussão de Olinda do qual fazia parte Gilmar Bola 8. Já a Loustal era uma banda que trazia em sua formação Chico Science, Lúcio Maia e Dengue. Não demorou muito para que houvesse uma reformulação desses integrantes e eles passassem a se apresentar com o nome de Chico Science & Nação Zumbi.

Nesse início de anos 1990, por menos incentivo governamental ou comercial que houvesse, existia um imenso caldo cultural fervendo nos manguezais recifenses, um ecossistema riquíssimo onde conviviam maracatus e bandas de punk rock, cirandas e festas de rap. Há alguns anos bandas como Eddie e Mundo Livre S/A vinham esquentando essa cena até que, 1992, a pressão finalmente explodiu com o lançamento do texto “Caranguejos com Cérebro”, de Fred Zero Quatro (do Mundo Livre S/A).

Escrito como um release à imprensa, quando chegou aos jornais locais, o texto foi conferido de uma importância histórica ganhando ares de manifesto. De fato, ele manifestava em palavras um acontecimento sócio-cultural que se impunha, e ainda dava uma conceituação teórica original ao fenômeno, valendo-se da imagem do mangue típico da região como alegoria às raízes tradicionais, mas agora conectado por antenas ao mundo todo e às novas linguagens da música contemporânea. Reproduzimos abaixo os últimos parágrafo do texto, que são autoexplicativos:  

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcolm McLaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown – finaliza.

Frutos da lama

Rapidamente, esse cenário cresceu e muitos discos importantes saíram dali nos anos seguintes. O Manguebeat revalorizou a cena popular local causando um impacto decisivo em Pernambuco. “De maneira geral, todo mundo em Recife tem contato com a cultura popular, existe uma forte relação com o interior do estado e as épocas dos festejos são momentos em que as pessoas buscam se reconectar com suas raízes. Só que, nos anos 1990, essa relação estava ofuscada por um certo sentimento de inferioridade, que se amplificava através dos meios de comunicação, que só valorizavam o que vinha de fora”, explica Pupillo: “O que o Manguebeat fez foi resgatar a autoestima e dar luz à enorme riqueza de nossa região e fazer com que as pessoas entendessem que toda aquela diversidade estava a serviço da contemporaneidade”.

Ainda em 1993, essa cena chamou atenção nacional e, naquele ano, Chico Science e Nação Zumbi assinaram com a Sony para lançar seu LP de estreia, Da Lama ao Caos (1994). Impulsionado por sucessos como “A Cidade” e “A Praieira”, o álbum ganhou Disco de Ouro em 1995 e provocou uma ascensão meteórica do grupo.

Foi nesse contexto, quando tinha 20 anos, que Pupillo foi convidado por Chico Science para entrar na Nação Zumbi. “Receber o convite de Chico me colocou diante da possibilidade de construir uma obra ao lado de pessoas com as quais me identifiquei desde que assisti aos primeiros shows”, explica. “A partir daí, minha cabeça mudou e pude ocupar um espaço maior de atuação como músico e, consequentemente, como produtor. A partir daquele instante, pude desenvolver toda a minha estética artística que foi o norte pra tudo que eu consegui realizar dentro e fora da Nação Zumbi”.

O segundo disco do grupo, Afrociberdelia (1995), foi o primeiro dos oito álbuns de estúdio que Pupillo faria com a banda até sair dela, em 2018. Ao longo desses anos, ele desenvolveu centenas de trabalhos paralelos, seja tocando com outros músicos ou como produtor. Vários deles surgiram da parceria com o amigo de adolescência Marcelo Soares. Formado em Publicidade, Marcelo conta que, por seu perfil, acabou desenvolvendo uma carreira mais ligada à área executiva dos bastidores da música. Em 1992, fundou o Estúdio Muzak e criou uma produtora de áudio voltada para o mercado publicitário e fonográfico. 

Com o passar do tempo, o estúdio foi crescendo e, em 1999, ele se tornou uma ferramenta importante para o selo Candeeiro Records, que Marcelo fundou naquele ano com Pupillo. “Tivemos a ideia de produzir e lançar em K7 bandas iniciantes e dar o pontapé inicial rumo às gravadoras”, conta Marcelo. “Nesse período, produzimos a fita demo do Sheik Tosado, que imediatamente assinou contrato com a Trama, lançamos o elogiado e importante disco do DJ Dolores e Orchestra Santa Massa, Mundo Livre S/A e o Baião de Viramundo – Tributo a Luiz Gonzaga (2000), que foi destaque no New York Times”, acrescenta Pupillo. Funcionava mais ou menos assim: o baterista atuava como produtor musical e embaixador do Candeeiro enquanto Marcelo gerenciava o estúdio e o selo.

“A partir daí, a intenção seria criar uma série de discos que prestigiassem os mais variados estilos de músicas do estado e o frevo seria um deles”, diz Pupillo. Em 2007, quando foi comemorado o Centenário do Frevo, Marcelo e Pupillo produziram o disco Frevo do Mundo, financiado pelo projeto Petrobras Musical. A maior parte do álbum foi gravada no Estúdio Muzak, em Recife, outras faixas foram no Rio de Janeiro e São Paulo, e o álbum reúne João Donato, Edu Lobo, Siba, Mundo Livre S/A, Eddie, Céu, Cordel do Fogo Encantado, entre outros, interpretando frevos.   

“Nos propusemos a pesquisar um repertório com certo ineditismo. Neste sentido, fizemos um trabalho de resgate importante. Propusemos arranjos mais livres, mas valorizando os arranjos de metais característicos dos principais maestros de frevo. Pensamos em trazer nomes importantes e misturarmos com jovens músicos da cena nacional e pernambucana. O projeto teve um envolvimento muito bacana por parte de todos artistas. E o resultado não poderia ser diferente — comenta Marcelo sobre o disco.

“A ideia era colocar o frevo em diálogo com diferentes estilos musicais e tornar possível a audição dessas músicas para além do Carnaval. Esse disco cumpriu com sua proposta. Fizemos um show com a grande maioria dos artistas que participaram, em Olinda, e deixamos um primeiro material para que novas gerações começassem a conhecer as possibilidades que a cultura popular tem de contribuir com o universo pop”, acrescenta Pupillo.

Rompendo fronteiras

Após o disco Frevo do Mundo, tanto Pupillo e a Nação Zumbi quanto Marcelo e o Muzak seguiram desenvolvendo diversos outros trabalhos. Com o passar do tempo, Pupillo se afastou do Candeeiro e, por alguns anos, a ideia de um projeto dedicado ao frevo ficou em segundo plano.  

Esse estalo voltou em 2015, quando Pupillo foi convidado para montar um show para os 20 anos do bloco carnavalesco Enquanto Isso na Sala da Justiça. “É uma das prévias mais legais do Carnaval de Recife-Olinda, feita por amigos de longa data. Imediatamente me veio a ideia de fazer um show burilando o repertório de frevo, com uma formação de banda de rock, beats eletrônicos e um poderoso naipe de metais executando os arranjos originais”, explica Pupillo: “Eu precisava dar um nome pra banda e me ocorreu de usar o nome do disco de 2007, acrescentando o ‘Orquestra’”.

Assim nasceu, no dia 7 de fevereiro de 2015, a Orquestra Frevo do Mundo. “Foi um show marcante pra um público aproximado de 11 mil pessoas, que vibraram bastante com os arranjos e com os convidados, que eram: Tulipa Ruiz, Céu, Otto e Siba. Memorável”, recorda Pupillo. “Este foi o piloto do álbum [de 2020]. Foi muito bem recebido, e aí surgiu a ideia de perpetuar a Orquestra Frevo do Mundo”, diz Marcelo.

“Em 2016, resolvi registrar o show em estúdio e, a partir daí, junto com Marcelo, começamos a elaborar o repertório e convidados”, explica Pupillo. O processo de gestar esse novo trabalho foi sem pressa até porque, diferente do álbum de 2007 que foi financiado por um edital, nesse caso não havia nem o apoio nem o prazo de um agente externo. “Já tínhamos produzido algumas faixas em 2018. Em 2019, reiniciamos o projeto para lançar no carnaval de 2020. Fomos pensando no repertório e nos convidados de maneira quase simultânea. Como no projeto de frevo anterior, alguns intérpretes gravaram em Recife e outros no Rio de Janeiro e São Paulo. Todos os metais foram gravados em Pernambuco”, diz Marcelo.

Reunindo como convidados principais Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Céu, Otto, Siba, Tulipa Ruiz, Duda Beat, Almério e Henrique Albino, Orquestra Frevo do Mundo, Vol. 1 (2020) conta ainda com nomes como Maestro Duda e Beto Barreto (do BaianaSystem). “A escolha dos artistas se deu a partir do fato de que o conceito do disco estaria intrinsecamente ligado a cada um deles, pelo modo como cada artista se posiciona em relação à arte. Ou seja, a maneira livre de dialogar com diferentes referências”, comenta Pupillo: “Por isso, resolvemos colocar [no título] ‘Volume 1’. A quantidade de artistas que se encaixam nesse conceito é enorme”.

Frevo do Mundo (2007) foi um disco mais focado na pesquisa e resgate de antigos frevos. Já no Orquestra Frevo do Mundo, Vol. 1 tivemos uma pesquisa mais aberta, em que músicas que não eram frevos se transformaram em frevos. O frevo sempre estará vivo e em eterno processo de evolução, na medida em que dialoga com outros gêneros musicais – comenta Marcelo. 

O disco saiu no dia 6 de fevereiro de 2020, na véspera do aniversário de cinco anos do show que inaugurou o nome do projeto. No dia 23, Pupillo comandou no carnaval paulistano o bloco Eu Quero é Frevo e, reunindo Céu, Tulipa Ruiz e China, levou para a rua o repertório do álbum recém lançado. Marcelo e Pupillo confirmam que pretendem lançar anualmente os volumes seguintes da Orquestra Frevo do Mundo, trazendo a cada vez com repertórios e intérpretes novos. “Um dos focos do projeto é tocar com a Orquestra fora do período de carnaval, em festas específicas e shows pelo Brasil. Em agosto, começamos a produção do novo álbum, ainda sem nada pra adiantar”, afirma Marcelo.

– Existe uma história que Antonio Maria contava que, nos anos 1940, durante a visita de Orson Welles à cidade de Recife, mostraram o frevo pra ele e ele ficou encantado, mas teria dito que o frevo jamais sairia de lá. Antonio Maria discordou dizendo que o frevo sairia pelo mundo, mas que era preciso encontrar uma maneira de fazê-lo. Mesmo que adulterando, até que se tornasse possível um certo entendimento por parte de outros países – narra Pupillo. 

O músico menciona o caso para reafirmar sua visão de que as culturas ancestrais e as linguagens de vanguarda podem não apenas conviver em harmonia, mas além disso têm muito a acrescentar uma a outra.  

– Eu concordo com a visão de que toda manifestação artística merece e deve sofrer mudanças no sentido de buscar novos significados diante das atualizações que naturalmente ocorrem no mundo, sem perder sua essência e, principalmente, para que não corram o risco de caírem no esquecimento. Acho importante, inclusive, que existam pessoas que discordem dessa visão, pois é dessa forma que conseguimos manter viva a nossa cultura. A tradição e o contemporâneo, na minha opinião, não devem assumir papéis antagonistas – declara.

Herdando a ideia da Antropofagia postulada pela Tropicália e, antes, pela Semana de Arte Moderna de 1922, os ideais defendidos pelo movimento Manguebeat trazem em si uma carga que é revolucionária ao mesmo tempo que conciliadora. Pernambuco nunca mais foi o mesmo depois que aquela geração dos anos 1990 lembrou o estado do valor que tem a sua arte popular tradicional e mostrou ao Brasil (e ao mundo) como essa cultura dialogava com linguagens de outros locais. Por um lado, a tradição teve seu mérito reconhecido, por outro, teve seus dogmas flexibilizados para incluir outras estéticas. A história do frevo e suas transformações é um reflexo da própria história do Brasil, esse gigante múltiplo, cuja cultura riquíssima não para de ferver jamais.     

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #101 que acompanha o disco Orquestra Frevo do Mundo Vol.1 lançado pelo Noize Record Club.

12/02/2026

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