Após seis anos de hiato, Of Monsters and Men retomam parceria com o álbum All Is Love and Pain in the Mouse Parade (2025), lançado neste mês. Ícone do indie-folk, a banda islandesa bebe da nostalgia para dar vida ao registro introspectivo e emotivo.
Com produção própria, o álbum constrói uma história coletiva, se inspirando em experiências da própria banda — formada por Nanna Bryndís Hilmarsdóttir (voz e violão) Ragnar Þórhallsson (voz e violão), Brynjar Leifsson (guitarra), Arnar Rósenkranz Hilmarsson (bateria) e Kristján Páll Kristjánsson (baixo) —, em um mosaico entre perdas e alegrias.
Em 2022, o grupo se reuniu para o documentário tíu, em que revisitam lugares de formação da banda. O encontro também nomeia o EP homônimo. All Is Love and Pain in the Mouse Parade é o primeiro lançamento completo no pós-pandemia.

Para além do hit “Little Talks” — com impressionantes um bilhão de plays no Spotify —, a discografia do quinteto se completa com Fever Dream (2019), Beneath The Skin (2015) e a estreia My Head Is An Animal (2011).
Da trilha sonora de séries da HBO ao palco de grandes festivais, Of Monsters and Men já quer colocar o álbum nos palcos. Em entrevista à Noize, Ragnar abriu detalhes da produção, a sensação de fazer música juntos, o show no Brasil e filmes de terror.
Neste ano, vocês lançaram os singles “Television Love” e “Ordinary Creature”, o EP Dream Team e agora o álbum All Is Love and Pain in the Mouse Parade, que marcam a volta de vocês após anos sem lançamentos. Como estão se sentindo nesse momento tão intenso de retorno? Esse tempo foi importante para a maturidade da banda?
Esse tempo foi incrível para nós, principalmente para nos reconectarmos e ficarmos mais animados para criar algo juntos. Estou me sentindo bem com os lançamentos, fazia um tempo que não lançamos algo, estou feliz. Tem muitas coisas acontecendo no momento, são ensaios, entrevistas, e faz um tempo que não faço isso [risos].
O que inspirou esse novo álbum? Houve um tema central durante o processo de composição? Em que momento vocês sentiram que era esse o disco que queriam lançar?
Quando nos juntamos para fazer música novamente, não teve nenhum tipo de pressão. Não tínhamos mais gravadora e nem empresário, então, fizemos música porque queríamos fazer música, precisávamos encontrar essa faísca novamente.
Estar no mesmo ambiente, brincar e criar juntos, sem nenhuma distração foi nossa inspiração para o álbum, recriando o sentimento que tínhamos no início, com 18 anos, que nos encontrávamos toda tarde para ensaiar e nos divertirmos juntos. Essa foi a inspiração. É o sentimento de voltar para casa. Quanto mais velho você fica, mais difícil é capturar esse sentimento de liberdade. Você tem outras responsabilidades e preocupações, mas, para criar, é importante voltar às origens.
O trabalho visual de vocês está incrível — os clipes têm uma estética marcante. O que podemos esperar visualmente de All Is Love and Pain in the Mouse Parade? Há alguma referência artística ou cinematográfica que influenciou essa fase?
Visualmente, estamos nos inspirando em vídeos caseiros que encontramos. Arnar achou vários do avô dele, que gravava de tudo com a sua câmera, tiramos inspirações disso. Nos clipes, tudo foi filmado em película, nesse formato, você consegue sentir as texturas da arte. Era importante para a gente porque estamos tentando criar música daí, sabe?
Uma vez, eu disse que não gostava de nostalgia. Quando era mais novo, esse sentimento me deixava nervoso, me fazia pensar sobre o passado, mas agora eu gosto de beber dessa fonte.
Espero que venham mais videoclipes esse ano também, estamos planejando.
Os integrantes se dividem entre projetos paralelos e carreiras solo. Como essas experiências influenciam o som e a energia da banda ao vivo?
Sim! Sempre que alguém vai para um caminho paralelo ou dá um passo solo, eles trazem essas vivências para a banda. É importante, inclusive para você mesmo, saber que é possível fazer algo para além do grupo que você já conhece, dá mais propósito e liberdade. Isso influência na dinâmica da banda, é positivo as pessoas se permitirem vivenciar outras formas de fazer arte.
Vocês já participaram de trilhas sonoras como Game of Thrones, Jogos Vorazes e A Vida Secreta de Walter Mitty. Se pudessem escolher, em que tipo de história vocês imaginam uma faixa do novo álbum entrando na trilha sonora?
Boa pergunta! De um filme que já existe ou eu posso criar a história? Que legal, deixa eu pensar. Acho que seria legal estar em um filme de terror, um idoso que mora em uma casa no fim da rua, e as crianças do bairro começam a desaparecer. Esqueça, isso ficou horrível [risos] Só quero estar em um filme de terror! Ia ser muito divertido.
“Little Talks” explodiu mundialmente em 2013. Como foi lidar com esse sucesso tão grande tão cedo? Ele trouxe alguma pressão para os lançamentos seguintes?
Na época, falamos que não existia pressão, mas, quando olho para trás, percebo que existia, sim. Os jornalistas sempre mencionam em entrevistas, os fãs nos perguntam sobre, o que te leva a pensar: é bom ou ruim ter uma música tão viralizada?
No fim do dia, eu sou da opinião de que é ótimo. “Little Talks” nos levou para o mundo, como o Brasil. É apenas uma música, hoje não sinto mais nenhuma pressão, sou muito grato pelo sucesso e espero que as pessoas escutem as outras músicas também.
Como tem sido a reação dos fãs ao álbum? Há planos de turnê, podemos esperar um retorno ao Brasil em breve? Vocês disseram que o show no Brasil em 2013 foi um dos mais marcantes. Ainda mantemos esse posto especial?
Os fãs estão gostando! Tento me manter longe das redes sociais o máximo possível, mas tudo que eu vi foi positivo, acho que entenderam a mensagem que gostaríamos de passar. Voltamos para casa, mas de um jeito mais maduro, sabe?
Trouxemos elementos dos trabalhos mais antigos, que as pessoas sentiam falta e nós também. Em Fever Dream, nós exploramos muito mais, principalmente sonoramente, oq eu era muito importante artisticamente, mas é muito bom escrever para voz e violão. Mal vejo a hora de tocar ao vivo, olhar nos olhos dos fãs é quando você sabe que eles estão gostando.

Espero que possamos voltar ao Brasil logo, no momento não está nos planos, estamos esperando as ofertas, mas é um sonho voltar. Os brasileiros são os melhores fãs, vocês sempre escutam isso. Super apaixonados, então quem não ia querer tocar aí? O público é diferente, da melhor maneira possível, é outra energia. Você não sente que está só tocando, mas que é parte de algo maior.
Já são 14 anos de estrada. Como vocês se mantêm atualizados na música sem perder a essência? Quais são os maiores desafios hoje?
Redes sociais. Elas mudaram muito, é difícil se manter no radar das pessoas com tantas outras coisas acontecendo ao mesmo tempo. Tentamos fazer o nosso melhor, mas não somos de outra geração, esse é o nosso maior desafio.
Se pudessem voltar no tempo e dar um conselho para vocês mesmos lá em 2011, no começo da carreira, o que diriam?
Aprenda outros instrumentos, mas, principalmente, aprenda a relaxar e aproveitar o momento. Em grupo, sempre conseguimos nos manter unidos, até quando alguém se afasta para tocar outro projeto, nos reaproximávamos depois.
Como foi o processo de gravação deste álbum? Houve algo diferente na abordagem em relação aos álbuns anteriores? O que vocês aprenderam sobre vocês mesmos durante a criação desse novo trabalho?
Não tentamos super produzir ou deixar “o mais perfeito possível”. Neste álbum, a maior parte das letras está do jeito que nasceu. Foi poderoso não pensar demais, às vezes o excesso de pensamentos estraga um pouco. Já passou muito tempo desde que começamos a fazer música juntos, então aprendemos alguns truques, você começa a conhecer melhor a si mesmo e os outros ao seu redor.