Na última semana, Isma Almeida lançou Made in Cohab (2026), sua estreia solo após o fim das Irmãs de Pau. O projeto representa uma guinada em sua carreira e a data de lançamento não foi escolhida ao acaso. No Dia da Visibilidade Trans, 29/1, ela deu um próximo passo na música.
Em 2025, as Irmãs de Pau estavam no auge. Com o lançamento de Gambiarra Chic Pt.2 (2025), álbum que traz participações de Ebony e Duquesa, a dupla de Isma e Vita Pereira lotava festas Brasil e mundo afora com seu funk eletrônico, humor e presença de palco.
Porém, em setembro, surpreenderam o público ao anunciar o fim das atividades após cinco anos. “As Irmãs eram um lugar de muita liberdade, mas a minha individualidade também pedia espaço. Precisava desse mergulho em mim mesma”, revelou Isma, em entrevista à Noize.
Made in Cohab apresenta uma nova persona, mas o glamour da diva continua para uma carreira solo que promete muito mais. Nesta entrevista, Isma destrincha o álbum, com som que traz rap, pop, tribal, afrobeat, trap e eletrônico, mas sempre tendo o funk como fio condutor.
Como o álbum representa a Isma? Quais as expectativas para levar esse som para a pista?
Olha, eu estou muito feliz. Neste momento, estou muito grata e também surpresa com a forma como o mercado tem abraçado o projeto, porque é algo em que venho trabalhando intensamente há cerca de seis, sete meses. Claro que isso não me surpreende 100%, porque eu conheço o meu potencial e o meu talento, e fiz esse projeto de forma muito intencional.
Mas, por conta da minha história — eu saí de uma dupla de muito sucesso no ano passado, as Irmãs, que teve uma grande ascensão —, eu tinha esse receio de que as pessoas ficassem presas à imagem da dupla e não conseguissem enxergar o meu trabalho solo, a minha identidade individual.
Felizmente, acho que o projeto está sendo muito bem recebido. Da semana passada para cá, tenho fechado muitos shows, conseguido muitas entrevistas — inclusive esta agora —, o que é algo que me deixa extremamente feliz. Estou surpresa e muito contente por poder trabalhar a minha individualidade, porque era algo que eu estava sentindo como necessário.
Sei que muitas pessoas não entendem o fim das Irmãs, mas, como ser humano e como artista, agora, na prática, eu consigo entender o quanto eu precisava desse movimento. Precisava mergulhar em mim, olhar para o que eu gosto, para o que eu quero e para o que desejo construir.
Tem sido um processo muito gostoso, leve, divertido e extremamente satisfatório. Escolhi o nome Made in Cohab para esse projeto porque ele representa exatamente esse mergulho em mim mesma. Cohab é a quebrada onde eu cresci. Esse projeto nasce daí: desse lugar onde eu cresci, onde nasci, de onde vêm as minhas referências e onde conheci pessoas que são importantes para mim até hoje, na minha trajetória.

Depois da trajetória com as Irmãs de Pau, o que muda (e o que permanece) na Isma na sua carreira solo?
Muita coisa vai permanecer, porque a dupla já me representava muito. Era um lugar de muita liberdade para mim também. Eu e a Vita sempre fomos parecidas em alguns aspectos. O funk, principalmente, continua. Eu sou apaixonada pelo funk, sou funkeira; ele é o meu fio condutor. Já era assim nas Irmãs e vai continuar sendo agora.
A principal diferença é que me aprofundo mais em estilos e vertentes do rap. No álbum, tem cerca de cinco faixas em que eu mergulho no drill, no trap, no rap e no hip-hop. Inclusive, a minha música preferida do disco é um hip-hop, e isso tem impressionado muito a minha família, meus amigos e meus produtores, porque é algo totalmente diferente de tudo que eu já fiz. Acho que vai surpreender bastante a galera e mostrar um outro lado meu, uma personalidade mais evidente.
É aquele momento em que as pessoas vão ouvir e pensar: “isso é a Isma”. Isso não existia nas Irmãs — isso é da Isma. E tem sido um processo muito gostoso, porque a dupla já tinha um conceito pronto.
Nas Irmãs, a gente misturava muitas referências: tinha vogue, eletrônico, várias influências diferentes. Então existia esse cuidado de equilibrar tudo o que eu gostava com tudo o que a Vita gostava, para não perder o conceito. Agora, sinto que é o momento de apresentar uma nova roupagem minha.
Qual é sua música favorita do álbum?
É a “Buffalo Bill”. Inicialmente, ela foi inspirada na Nicki Minaj, inclusive, eu a citava na letra. A faixa já estava pronta para ser lançada, mas acabou passando por uma mudança por conta de uma decepção minha com os posicionamentos recentes da Nicki, que achei bastante desagradáveis. Isso me afetou especialmente enquanto pessoa trans, de esquerda, que luta por igualdade. Foi algo que realmente me decepcionou.
Então, troquei a letra e decidi dar esse holofote para uma outra artista que eu admiro muito, que é a Cardi B, e que tem um posicionamento com o qual eu me identifico mais. Claro que ela não é perfeita. Quando anunciei isso nas redes sociais, muita gente questionou: “ah, mas em tal época ela também foi transfóbica”. Eu acho que todo mundo está em processo de aprendizado.
Não espero perfeição de ninguém, nem quero que esperem isso de mim. A gente erra, faz parte de ser humano. O mais importante é tentar se corrigir e evoluir todos os dias.
Recentemente, vi que ela participou do RuPaul’s Drag Race e levou pessoas trans da equipe dela, duas mulheres trans que trabalham com ela há muito tempo. Vi isso como um movimento de tentativa de melhora e também de reparação. Mas, para além disso, eu gosto muito do trabalho dela e do posicionamento que ela traz. Tem uma coisa do humor, também: ela é muito engraçada, cria memes, viraliza, e isso eu acho muito legal. Eu também sou um pouco assim.
Quem é a Afroboneca? Você diria que é uma persona que a Isma assume no palco? Como você a enxerga?
Vindo da realidade de onde eu vim — sendo uma pessoa negra, trans e periférica —, foi muito difícil construir a minha autoestima. Hoje, eu tenho uma autoestima muito boa: eu me acho maravilhosa, me acho linda, me acho gostosa.
Mas, para além do estético, existe também o imaginário que eu consegui construir sobre mim, essa imagem de boneca, que eu acho muito poderosa. Conseguir imaginar isso a partir de um corpo trans é algo extremamente revolucionário.
As meninas da minha quebrada, as crianças, me dizem: “você parece uma boneca”. E isso sempre me atravessou de um jeito muito profundo, porque eu penso: eu queria ter tido uma boneca como eu na minha infância. Era exatamente o que eu precisava.
Essa persona me coloca num lugar de alter ego, mas não de perfeição. Eu não quero trabalhar uma boneca perfeita ou inalcançável, e sim uma boneca humanizada. Por isso, não tenho vergonha de falar de onde eu vim, de dizer que sou da quebrada, de falar que ainda sofro transfobia quando ando na rua. Eu não quero criar uma imagem de perfeição que nem eu mesma conseguiria sustentar, porque essa não é a minha realidade.
No meu trabalho e na minha imagem, eu tento sempre trazer essa verdade. Muitas referências de boneca estão ligadas à ostentação: corpo perfeito, luxo, mansões, uma estética muito capitalista. Mas eu sou da quebrada, e é por isso que o afro entra como um elemento fundamental.
Na identidade visual do álbum, por exemplo, no shooting, tem fotos em que eu estou nua, com várias bolsas espalhadas pelo corpo, e usando um sapato que mistura um “doze molas” com um salto de acrílico. As bolsas representam o fato de eu ter crescido sem poder usar os acessórios que eu queria. Eu lembro de ouvir, desde criança, comentários como “vai rodar bolsinha”. Minha mãe, inclusive, se incomodava muito com esse tipo de piada, que vinha do fato de eu ser uma criança afeminada.
Então eu enchi o meu corpo dessas bolsinhas como forma de ressignificação. Os sapatos também vêm desse lugar: eu sonhava em usar salto, mas fui privada disso por muito tempo. Quando era criança, às vezes, eu calçava os saltos da minha mãe escondida, andando pela casa para saciar aquele desejo que eu tinha. Ao mesmo tempo, o “doze molas” representa o tênis masculino que eu fui obrigada a usar durante muitos anos.
Essa imagem traz exatamente isso: eu não sou uma boneca que usa só salto. Eu passei pelo “doze molas”, mas hoje eu posso usar o salto que eu quiser. Se eu quiser rodar quinhentas bolsinhas, eu rodo com orgulho. O que antes foi trauma e dor, hoje eu transformo em símbolo de força e afirmação.
Quais foram os maiores desafios e liberdades que você encontrou nesse novo momento?
O maior desafio continua sendo o financeiro. Pelo nível que as Irmãs chegaram, muita gente acha que a gente é rica. Na época da dupla, até era mais fácil produzir um álbum, porque existia um caixa que se retroalimentava: tinha muito show, muita demanda, então os projetos se viabilizavam com mais facilidade.
No meu projeto solo, a percepção externa continua sendo essa — as pessoas acham que eu tenho um caixa robusto —, mas, na prática, é uma empresa que está começando agora. É um projeto novo, um caixa que ainda está sendo construído. Então, neste início, eu estou investindo do meu próprio bolso para viabilizar o álbum, pagar os custos de produção e estruturar tudo para que, a partir da turnê e dos shows, esse caixa comece a se retroalimentar e possibilite projetos futuros.
Produzir música é caro. E isso se conecta diretamente com a parte estética, que é algo que eu valorizo demais. Eu gosto muito de clipe, de trabalhar identidade visual, mas o audiovisual é, disparado, a parte mais difícil de viabilizar. Clipe é uma fortuna. Além disso, o mercado tem desvalorizado esse formato, o que faz com que muitos artistas repensem se vale a pena investir, quando e de que forma produzir esse material.
Por outro lado, entre as maiores alegrias do processo está a liberdade. Não que as Irmãs me aprisionassem, mas poder criar algo na minha cabeça e executar exatamente do jeito que eu imagino, sem precisar negociar ou mediar decisões, tem sido muito prazeroso. Era algo que eu sentia que precisava viver. Acho que todo artista precisa desse momento: conseguir idealizar, realizar e ver o trabalho ganhar forma da maneira que sonhou. Isso tem sido, sem dúvida, uma das partes mais gostosas de todo o processo.
O álbum passeia por drill, trap, afrobeat, eletrônico e pop. Como foi o processo de costurar essas linguagens tendo o funk como fio condutor?
O funk é o fio condutor, mas, pensando melhor, eu acho que existe um fio ainda mais amplo, que são os afro-ritmos. Eu gosto muito desse termo. O funk é um afro-ritmo: ele é muito forte na África, e suas batidas e referências vêm diretamente da sonoridade afro.
Sou apaixonada pelo funk carioca, que carrega muito dessa influência. Já o funk de São Paulo, o Mandela, é mais eletrônico. No álbum, eu tento mediar entre esses dois universos. Sou fã de rap e sou fã de funk, esses dois lados existem em mim. O álbum expressa exatamente isso. E eu acredito que isso também pode gerar conexão com o público. Talvez as pessoas pensem: “Hoje eu quero ouvir o álbum da Isma, que tem um pouco de rap e um pouco de funk”. Eu acho que esse é um lugar possível.
O funk é um gênero em eterna transformação, mas que também sofre com a apropriação cultural pelas elites. No som, se antes era algo requebrado, passou para o passinho e hoje a mistura com música eletrônica é cada vez mais comum, como acha que será o futuro do funk?
Eu acredito que o funk é o futuro — pelo menos no Brasil, e cada vez mais também no cenário internacional. O gênero tem crescido muito. Uma vez, eu vi uma pesquisa que dizia que o nosso corpo é composto majoritariamente por água. E, quando você coloca um recipiente com água sobre uma caixa de som, ela se movimenta e chega a formar desenhos, quase como mandalas. Dependendo da batida, essa movimentação muda. O funk é um dos estilos que mais provoca esse movimento.
Se o nosso corpo é feito de água, o funk movimenta muito o corpo. Talvez por isso ele tenha uma energia tão contagiante, que faz as pessoas quererem dançar, interagir, se envolver. Existe uma dimensão quase biológica nessa relação. Mas, para além disso, o funk também é político.
Muita gente reduz o funk a apologia às drogas ou ao sexo, mas eu acredito que, sabendo usar tudo o que vem sendo construído nas letras, é possível avançar socialmente e politicamente. No meu álbum, por exemplo, existem duas faixas muito políticas. Uma delas é “Socialismo da Putaria”, que já circulava nas redes sociais antes do álbum completo.
Nela, eu trago a ideia de redistribuir o gozo. Para mim, o gozo é fundamental para uma vida com qualidade e prazer. Eu falo sobre corpos com buceta que precisam gozar, porque isso ainda é uma urgência. Pessoas trans, pessoas negras, ricas ou pobres: todo mundo merece prazer. A música propõe justamente essa reflexão sobre democratizar o gozo, por isso a ideia de um “socialismo” em que o prazer chega para todo mundo, sem desigualdade.
A outra faixa é “Para de Usar Cocaína”, em que eu trago essa reflexão de um jeito cômico e direto. A ideia é provocar consciência sobre o uso de drogas, especialmente porque isso tem afetado muito a galera da quebrada e dos bailes. De forma leve, eu falo sobre impor limites, pensar se aquilo está fazendo bem, o que está sendo construído ou prejudicado a partir desse uso. É uma tentativa de conscientizar quem me ouve, sobretudo as pessoas da periferia, que são as maiores consumidoras de funk.
Eu sei que nem todo mundo dentro do funk está preocupado com esse tipo de reflexão, e tudo bem. Mas acho importante pensar também para quem a gente está direcionando o holofote dentro do gênero. Existem muitos funkeiros, em sua maioria homens brancos, que estão milionários, cantando sobre mansões, ostentação e objetificação de mulheres. Eu não quero desvalorizar esse trabalho — eu consumo, acho divertido, faz parte. Mas também acho importante dar espaço para quem está pensando em dançar e refletir ao mesmo tempo, em entreter, ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, devolver algo para a sociedade.
Claro que eu quero viver da minha arte e me sustentar com isso. Mas eu também me pergunto o que posso fazer para melhorar a minha vida e a vida de outras pessoas. Acho que artistas que têm esse compromisso — e não sou só eu — merecem reconhecimento e valorização.
É muito gostoso dançar, rir e se divertir com o funk. Mas quando a música também provoca transformação social, isso fica ainda mais potente. Desde a época das Irmãs, eu tento trazer esse lugar de reflexão no meu trabalho. Eu acredito muito no poder da arte, e é isso que eu busco fazer.