Kassu Escuta: como o vinil moldou minha relação com a música

27/02/2026

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Por: André Kassu

Fotos: Unsplash

27/02/2026

Sabe aquela sensação de encontrar um vinil que você escuta há muito tempo? Você olha pra ele, relembra algumas partes, tira a poeira da capa, abre o encarte e faz uma nova escuta. Agora, com uma certa distância. Você não é mais o mesmo daquela primeira audição, mas traz ao seu lado uma bagagem de inúmeros sons que ouviu nesse tempo distante. Então, cada faixa é uma redescoberta não apenas do disco, mas de você mesmo. Isso também acontece comigo quando reencontro um texto antigo.

O texto a seguir foi escrito há mais de 10 anos. Eu não sou o mesmo daquele tempo, então resolvi passar não apenas um pano úmido para tirar a poeira. 

*

O apartamento era grande. Um belo exemplar da velha Copacabana. A vista era inexistente. De frente para o meu prédio, havia um edifício de quitinetes. Cada janela, uma vida. Eram muitas. Hoje, eles chamam as quitinetes de outro nome: studio. Assim, a falta de espaço naqueles poucos metros finge ganhar um ar de modernidade, de uma nova vida urbana. Continua sendo um lugar apertado para se viver. Um ex-jogador do Vasco morava em uma delas, uma grande figura. Paulo Mata era o nome dele. Anos depois, ele ficou pelado em campo quando era técnico do Itaperuna. Foi um ato de revolta contra a arbitragem. Eram outros tempos. 

Em um dos quartos deste apartamento em que residi até a adolescência, tudo o que eu podia ver eram discos de vinil. Havia um quarto inteiro reservado só para eles e para um sofá solitário. Um empreendimento imobiliário rapidamente acharia um nome em inglês para isso: vinyl room, audio experience room, listening room. Pouco me importava. Algumas pessoas têm closet para sapatos? Os meus pais tinham um quarto para os discos de vinil.

O leitor mais jovem, acostumado com música de fácil acesso, talvez não entenda esse sentimento. Normal. Em 2009, um adolescente chamado Scott Campbell trocou o seu iPod por um walkman. Um experimento de uma semana. Ele demorou 3 dias para descobrir que a fita tinha um outro lado. O que nos leva a outro fato curioso: a expressão lado B não faz mais sentido. Scott reclamou da capacidade de armazenamento, do peso, da pouca praticidade do walkman e dos ruídos. Com toda razão. Não farei aqui um inocente brado “na minha época era melhor”. Sinto saudades de alguns rituais, da espera, do quarto de vinis. É disso que eu falo.

Voltar à fita K-7 na caneta para economizar pilha do walkman era um ritual sagrado. Lembro que as locadoras de vídeo cobravam uma taxa extra para quem não entregasse o filme VHS rebobinado. Fita K-7, VHS, locadora de vídeo e rebobinar: tudo caiu em desuso. Mas era uma arte delicada que podia quebrar ou enroscar a fita. Coisa para se gabar no recreio. Como conseguir soprar uma bola dentro da outra de chiclete Ploc ou fazer a Torre Eiffel com o ioiô.

Mesmo cercado  de música, ainda me dava o trabalho de gravar os programas da rádio Fluminense, a Maldita. O Mississipi Dreams era um clássico. Você ficava ouvindo o programa e olhando para a fita. Rezando para dar tempo. Para driblar essa pirataria old school, as rádios colocavam uma vinheta no meio da música. Amaldiçoei cada uma delas enquanto esperava a pilha ficar na temperatura certa no congelador.

O vinil envolvia uma série de outros rituais. Acertar a agulha entre uma faixa e outra era a técnica em disputa. Quando falo em espera, falo também desse intervalo. Do silêncio que envolvia o começo da primeira faixa de cada lado do disco. Do estalo, do ruído bom. Pronto. 

Disco de vinil pode ser lavado com água. Encontrar aquela música específica dava um trabalho danado. Download era um amigo que voltava de viagem com muamba na mala. Era a minha mãe ou o meu pai entrando em casa com as amostras invendáveis que chegavam das gravadoras. Era um acontecimento inesperado. Sem data certa para ocorrer. Os discos não vazavam, havia um longo atraso entre o lançamento no exterior e no Brasil. É, a gente chamava de exterior.

Subindo a ladeira, de volta ao meu apartamento. O trajeto para o quarto de vinil era uma viagem pelo mundo da música. O corredor não tinha um espaço sequer nas paredes. Tudo estava coberto com cartazes de shows dirigidos pelo meu pai, eventos que a minha mãe trabalhou, fotos de família com cantores no meio. Não bastasse isso, meu vizinho de baixo era o Sérgio Cabral (o pai). E seu apartamento era outro templo do samba e da MPB. Eu cresci filho único cercado de sons por todos os lados. O tempo passava com o girar de um disco.

O forte do acervo era MPB. Mas o clima Copacabana de mistura não escapou do quarto. Se o bairro é famoso por reunir uma ampla fauna, o quarto também tinha de tudo. Forró, bossa-nova, heavy metal, reggae, rock, ópera e o disco inesquecível: John Mayall & the Bluesbreakers featuring Eric Clapton. A partir da descoberta desse vinil, comecei a ouvir blues. Depois entrei pelo rock. E fui mergulhando cada vez mais fundo na estante até sair dela com uma gaita no bolso. Só mais velho, já com CDs, fui redescobrir a música brasileira. 

Quando os meus pais se separaram, o espólio dos vinis ficou com a minha mãe. Quando a minha mãe faleceu, um pedaço desse quarto voltou para mim. E eu fiquei sem coragem de tocar esses vinis por anos e anos. Eles ficaram na casa da minha sogra durante esse tempo. Como se os discos estivessem adormecidos e cobertos por uma fina camada de poeira.

Um belo dia, eu acordei para a vida e eles acordaram comigo. Eu abri a primeira caixa da mudança e percebi que não estava mais na Mooca. Estava de volta em Copacabana. E aquele quarto inteiro se revelou em seus mínimos detalhes. Eu que estava cercado pela facilidade da música digital, redescobri quem eu fui. Tal e qual um Scott Campbell grisalho, eu tinha esquecido que na fita há sempre um outro lado. Virei em busca do meu passado. E encontrei essas lembranças gravadas. 

*André Kassu é publicitário, canhoto, daltônico e gaitista nas horas vagas. Música é uma parte fundamental da sua vida. É a coisa mais perto do divino que ele conhece.

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27/02/2026

André Kassu