Frank Dowding, conhecido como Kiddus I, ocupa um lugar singular na história do reggae. Cantor, baterista, percussionista, pintor, organizador político e pensador espiritual, sua voz se tornou imortal através do hino “Graduation in Zion”, clássico atemporal presente no Rockers (1978), película seminal que apresentou o reggae para diversas gerações ao redor do mundo.
Porém, Kiddus está na ativa até hoje. Sua figura midiática esteve relacionada com vários mitos, mas o fato é que, salvo alguns problemas de saúde, o cantor nunca deixou de fazer música; o maior problema é que muitas de suas gravações foram perdidas. O que existe saiu com décadas de atraso, mas nem isso foi capaz de abalar a força de sua história — que segue impactando a música mundial — mesmo após quase 40 anos do lançamento do filme que o projetou.
Aproveitando a passagem do vocalista pelo Brasil em função da Turnê Rockers, que trouxe Llyod Parks, Kiddus I e Leroy Horsemouth Wallace à América Latina, Leroy e Wallace ampliaram a estadia com dois shows solos na CavePool, em São Paulo [saiba mais abaixo].
Confira o papo da Revista Noize com a lenda, Kiddus I.
Você cresceu cercado por uma variedade musical — estilos cubanos e latinos vindos da sua família, artistas de soul e jazz americanos como Sam Cooke e Louis Armstrong, e até mesmo compositores clássicos europeus. Como esse ambiente musical em Kingston moldou sua identidade artística antes do reggae surgir plenamente?
Saudações.
Musicalmente, sim, minha semente foram os diferentes estilos tocados naquele tempo. Então eu absorvi todas as diferentes tradições de música — inclusive a música clássica, porque meu pai ouvia algumas dessas coisas.
Teve também toda a música americana emergente dos anos 50 e coisas assim… a britânica e europeia, e africana… Extremo Oriente, também os países da América Latina. Então, isso formou o tronco da minha música.
Tendo absorvido todas as diferentes variedades de música, meus galhos têm a habilidade de tocar influências variadas.
Você disse que sua conexão com o Rastafari começou por volta de 1962 enquanto trabalhava como jovem aprendiz, influenciado por irmãos da tradição Nyabinghi. Como esse despertar espiritual influenciou não apenas sua música, mas toda a sua filosofia de vida?
Parecia que eu estava espiritualmente conectado desde menino — três, quatro anos de idade — fazendo perguntas, vendo coisas.
Ao encontrar isso… como um jovem, e vendo como os próprios cristãos se comportavam, algumas coisas ficaram claras pra mim.
Eu não estava muito ligado à religião e acabei me afastando ainda mais. Até quando fui me abrindo, descobrindo o I and I [filosofia da cultura rastafari que representa a unidade entre o indivíduo, o próximo e Jah]. Tem que ser capaz de ver completamente a união da humanidade, e não uma coisa divisiva e separada.
Desde então, me tornei um membro do despertar no agora.
No início dos anos 70, seu espaço na 1c Oxford Road se tornou um ponto central da cultura em Kingston, reunindo músicos como Robbie Shakespeare e Earl Smith, conectando uptown e downtown. Você pode descrever o papel desse espaço na formação do reggae?
Sim, no início dos anos 70, quando I and I conseguiu a 1 Oxford Road [em Kingston, onde Kiddus I projetou, no início dos anos 1970, uma comunidade rastafari + centro cultural/artístico], isso se tornou o centro do movimento cultural e da música na Jamaica.
E como um filho dos Sons of Negus, eu estava baseado em 1C. Então Robbie Shakespeare, Chinna Smith, Dennis Brown, John Holt, Gregory Isaacs, Third World… — todos vinham para 1C.
Nós… I and I, cozinhávamos a comida de ital, e servíamos a melhor ganja/marijuana — uma das melhores ervas para a cura da nação. Juntos, eles são o alimento espiritual e o alimento físico… o que se tornou uma ameaça para a sociedade.
Porque a revolução estava despertando a mentalidade das pessoas. E não… porque não há revolução a menos que a mente e o coração tenham mudado. Caso contrário, muda da frigideira para o fogo. Então quando a revolução acontece — o despertar e a aceleração da mente, as coisas mudam.
Sua conexão com Ras Michael and Sons of Negus te colocou profundamente na tradição Nyabinghi. Como essas sessões influenciaram seu senso de ritmo, canto e o propósito musical?
Sim, 1C era o centro da cultura, em certo sentido. Então, pessoas de downtown e uptown de Kingston podiam se misturar naquele tempo. E nós éramos, tipo, tabu como rastafarianos. Então, a cultura se espalhou, e isso é o que estava se tornando uma ameaça — o despertar da mentalidade das massas.
Nós damos graças, pois participamos disso. Os Ras estavam baseados lá naquele tempo — Sons of Negus — e a tradição Nyabinghi estava viva.
A música que nós tocávamos é um batimento do coração. Então, talvez isso tenha me enraizado um pouco mais nessa história. Mas nós já estamos enraizados em padrões rítmicos vindos de muito tempo, entende?
Mas o binghi é um batimento do coração.
Você se aproximou do Aston “Familyman” Barrett nas redondezas da 56 Hope Road, ao lado de figuras importantes do movimento reggae. Você pode contar a história por trás da gravação de “Be Careful How You Jump” e como essas sessões se encaixavam naquele momento da música jamaicana?
Eu fiz alguns trabalhos com Aston Barrett em 70 e 71, 72… em 56 Hope Road… e outros.
“Be Careful How You Jump” — aquilo era uma linha de baixo. Family Man tocou teclado nisso. Carton Barrett tocou bateria. Sangie Davis entrou e tocou o ritmo. E então Bunny Wailer entrou — isso ainda na 56 Hope Road — e eu dei a linha de baixo pra ele e ele tocou.
Foi assim que “Be Careful How You Jump” foi feita primeiro. Infelizmente, essa versão nunca foi lançada. O Bunny Wailer usou a melodia para fazer “Armageddon War”.
Você gravou extensivamente com Lee “Scratch” Perry durante meados dos anos 1970, incluindo faixas como “Security in the Streets”, mas muitas dessas fitas foram perdidas. Como foi trabalhar com Scratch naquele período — e como você lida com a perda de tanto material?
Sim… Scratch e eu tínhamos um vínculo muito forte. Depois que me envolvi mais com Sons of Negus, eu trabalhava em um clube no oeste chamado Tente and Pen.
Mas Scratch se interessava por esse lado mais “chill” — do chá de cogumelo — então, eu levava pra ele.
Começamos a trabalhar em 1976. Então, as faixas foram… eu não sei exatamente o que aconteceu, mas “Security in the Streets”, “Cry Wolf” e “Mr. Too Fat” foram feitas lá na Black Ark.
E então ele passou por sua conversão espiritual e com isso vieram algumas mudanças, mas nós ainda éramos próximos. Quero dizer, mesmo quando fui para Nova York — ele estava lá em 1988 — quando eu deixei meu apartamento, eu dei para Scratch usar. Eu fiquei fora por cerca de quatro meses, e ele estava lá.
Eu não vou dizer certas coisas, mas… Sim, Scratch era diferente da maioria dos artistas e músicos. E quando eles riscaram todos os artistas no Black Ark studio, o único retrato na parede que não foi riscado foi o meu.
Lee Perry foi um bom mentor musical e amigo.
Você falou abertamente sobre violência policial, prisão e perseguição durante os anos 70. Olhando para trás, como você entende esse período?
Sim… o mau uso e abuso…
O uso da força contra Rastafari e outros…. A criminalização da erva — marijuana, ganja — que é para o uso do homem, a cura da nação. Muitos de nós fomos perseguidos, criminalizados e muitas vezes brutalmente espancados. E eu passei por coisas assim.
Quase fui aleijado pela polícia, que me bateu nas costas com um cacetete enquanto eu me abaixava para tirar os sapatos. Eu não conseguia sustentar meu próprio peso por cerca de oito meses depois deste acidente.
Hoje damos graças por podermos fumar um spliff sem prisão obrigatória com duração mínima de 18 meses. E se você tivesse um pouco mais, poderia pegar de três a cinco anos de gancho. Você precisa lembrar que Bunny Wailer e Toots, por exemplo, foram presos por 18 meses por isso nos anos 1960.
E eu devo dizer que sou o último membro vivo da Judah Coptic Nyabinghi House que ajudou a descriminalizar a nossa erva sagrada. Com visitas de Ras Michael em 72, e depois em 73. Nós pagamos o preço.
Seus primeiros álbuns completos só surgiram nos anos 2000, por selos como Dub Store, Makasound e Iroko. O que significou finalmente compartilhar sua música com o mundo após décadas de gravações perdidas?
Sim, foi uma alegria ver o meu trabalho vindo à tona, do começo ao fim.
Porque muita música foi perdida. Eu perdi cerca de 16 fitas de 2 polegadas. E muitos LPs desapareceram, mas ainda temos bastante material.
Vamos lançar novos trabalhos. Damos graças por ainda estarmos aqui e olhamos para o que o amanhã trará musicalmente. Sempre busco enviar uma mensagem positiva de reconstrução, autossuficiência, cuidado…
É importante equilibrar as coisas e fazer o melhor pela humanidade, pois o reggae cumpriu seu papel e a mensagem de Rastafari atravessa fronteiras, levando luz à escuridão, enviando mensagens para o coração e a mente das pessoas.
Kiddus I na Cavepool – SP
Sábado, 4/4, a partir das 17h
Av Eliseu de Almeida, 984 – Butantã
Próximo ao metrô São Paulo Morumbi – Linha Amarela
Ingressos aqui.
Para o show de Leroy Horsemouth Wallace no dia 2/4, clique aqui.
