Mandamentos Black: Por que a nova geração se inspira na disco e soul music 

03/02/2026

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Por: Daniela de Jesus

Fotos: Divulgação/Fernando Schlaepfer/Afrovulto/ David Obadia/ Ariel Cavotti/Gavioli

03/02/2026

“A dança expirando em suor/ Os crespos livres ao redor”, canta Cristal em “Obrigada Black”, faixa do seu primeiro disco, Epifania, lançado em agosto de 2024. De certa forma, o trecho sintetiza algumas das inspirações do álbum, cuja forma e conteúdo bebe do movimento black e da música soul da década de 1970 e 1980. 

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Inclusive, foi garimpando nos discos dos pais que ela encontrou o caminho que buscava para as onze músicas do registro. “Tim Maia, Jorge Ben Jor e Sandra Sá estavam no meu radar pelo gosto musical da minha família”, explica. 

“Ouvia esses artistas nos churrascos e nas festas de fim de ano. Acredito que agora, mais madura, a minha visão sobre essas obras tomou uma outra dimensão. Me despertou a vontade de saber sobre o processo criativo de cada um desses discos. Foi tudo mágico, fiz uma imersão nesse período, vivi uma viagem no tempo.”

A partir desse mergulho, a artista porto-alegrense trabalhou com o produtor MDN Beatz para incorporar o clássico ao jeito moderno de fazer música, mesclando batidas eletrônicas aos tradicionais grooves do baixo elétrico. Para arrematar, apresentou letras que ressaltam a beleza negra e o espírito comunitário.  

Epifania veio da necessidade de resgatar melodias, composições e vozes que me formaram enquanto artista e fazem parte do meu universo familiar”, aponta Cristal. A partir do resgate pessoal, encontrou as respostas que buscava. “Ao me reencontrar, entendi que o disco era sobre reverenciar e homenagear esses artistas que, infelizmente, às vezes não tem o devido reconhecimento.” 

No disco Gerson King Combo (1977), o cantor propõe um manifesto em “Mandamentos Black” envolvendo dança, amor e comportamento. “Eu te amo, brother”, ele afirma. O espírito dessa reivindicação se mantém vivo e atravessou gerações da música. O trecho clássico e mântrico foi propagado através de samples, como em “Não Pare”, pelo grupo de rap dos anos 1990, Câmbio Negro, e por Marcelo D2, em “Qual É?”. 

Para Cristal, esses versos representam afirmação identitária, atitude e liberdade. “Acho genial e poderoso ver um homem preto celebrando sua cultura, isso é fantástico. Ao mesmo tempo que serve como um abraço, é um convite para o povo preto se amar. Amar o que vê no espelho, a sua comunidade e as suas raízes.”

Ainda que as demandas sejam outras, não há nada como experienciar a sensação de pertencimento a algo maior, a uma comunidade de pessoas que dividem as mesmas crenças e dores. “Ainda existe o despertar da solidão do mundo que nos aprisiona, escutar essa música é celebrar a nossa cultura. É um hino.” 

O som e o frescor 

O brilho do globo de espelhos e a áurea enevoada da pista de dança também foram influência para FBC no disco O Amor, O Perdão E A Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta (2023). O rapper mineiro é um dos expoentes da nova geração que se inspiraram por essa estética visual e sonora para compor seus trabalhos. Em seu caso, ele canta sobre diferentes configurações dos relacionamentos modernos ao som do sintetizador e do grave encorpado do passado. 

No caso do trio carioca Os Garotin, formado por Anchietx, Cupertino e Léo Guima, o debute Os Garotin de São Gonçalo, apresentado em maio de 2024 e vencedor do Latin Grammy de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Português, traz influência dos bailes na caneta sagaz e divertida sobre amor e afeto.

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Anchietx revela que, para além dos nomes clássicos, os timbres e arranjos da música gospel formaram a sonoridade do grupo. “A musicalidade nos uniu, nós três crescemos em igreja e isso nos influenciou a gostar de música swingada e groovada, conectada ao gospel e r’n’b, então a nossa referência de black music vem da música religiosa.” 

Léo Gima afirma que, para o grupo, a música é uma forma clara de expressão. “Aprendemos muito com Tim, Cassiano e Black Rio, eles são nossos professores. Entendemos como fazer esse tipo de som, que é uma coisa lá de fora, e trazer a música dançante para o Brasil. Queremos explorar o que o corpo é capaz de fazer quando se escuta uma música boa: chorar, se alegrar, dançar, se acolher, extravasar.” 

Já a cantora mineira Augusta Barna bebeu da fonte para criar um som autêntico e testar novas linguagens em seu segundo disco, Na Miúda, lançado no final de agosto. Criando pontes entre o presente e o passado, ela propõe uma mistura fina de disco music com rap e r’n’b. 

“Quero contar uma nova história da cena jovem negra musical. Estou resgatando o meu passado ao fazer música. Esse movimento tem uma importância enorme no Brasil com a criação dos bailes, lugar onde o povo se encontrava para dançar a vida. Acho bonito lembrar desse lugar com ternura e respeito. Sigo fazendo ao meu modo e respeitando os modos antigos de se fazer”, afirma a compositora. 

Mandamentos atemporais 

Assim como nos EUA, a soul music no país é marcada por ideais como a valorização da beleza e da cultura negra. Inclusive, o estilo permeava tanto a moda quanto a música. Na década de 1970, a política se misturou aos movimentos culturais, então não à toa, as canções eram recheadas de versos sobre afeto afrocentrado e reivindicação de direitos civis. 

Na esteira da ascensão de James Brown e do slogan “Black is Beautiful”, criado no bairro do Harlem pelos irmãos Kwame Brathwaite e Elombe Brath, a classe artística brasileira traduziu esses anseios para o público jovem. Foi assim que Tony Tornado, Tim Maia, Sandra de Sá, Cassiano e Jorge Ben Jor se tornaram representantes dessa geração. 

Além dos artistas, as equipes dos bailes – eventos criados por e para a comunidade negra –, deram vazão aos anseios dessa parcela da população que desejava lugares para se encontrar e se expressar. Eventos como o Noite do Shaft – criado em 1974, no Rio de Janeiro, por Dom Filó –, e o Chic Show – fundado em 1968 na capital paulista por Luiz Alberto da Silva, o Luizão – , são essenciais para o movimento black no Brasil. 

Os DJs eram os responsáveis por apresentar as novidades para o público: além das garimpagens importadas, promoviam as produções nacionais. Não tardou para essas festas terem shows ao vivo. “Aquilo parecia um cobertor humano que flutuava. Você via aquele caldeirão fervendo, o som batendo muito forte, e o pessoal dançando a noite toda. Era um mundo mágico, uma farra incrível”, compartilhou Luizão à Folha de S.Paulo em 2023. 

Cada festa representava uma possibilidade de suspensão do espaço-tempo, pois o dia a dia era marcado pela repressão militar e pela falsa crença na democracia racial. Para uma parte da sociedade, o Black Power era encarado como uma propagação do racismo no país supostamente igualitário – falácia ainda perpetuada por parte da sociedade 50 anos depois. 

Se os próprios artistas sofriam repressão, imagina como era com o público? Em entrevista ao Splash UOL, em 2024, Luizão abordou o assunto: “A polícia militar era muito difícil. As pessoas que iam nos nossos bailes eram trabalhadoras, o problema é que eram pretas”.

Com o tempo e a profissionalização, as equipes de som se transformaram, inclusive musicalmente, caso da Furacão 2000, que se tornou berço do funk carioca. Já o Chic Show diminui a frequência de noitadas, mas se manteve na cena. Em julho de 2024, realizou uma edição especial no Allianz Parque com Sandra Sá, Jimmy “Bo” Horne, Criolo, Rael, Mano Brown e Lauryn Hill, com participação de seu filho, YG Marley

A princípio, a ideia era fazer uma versão pequena, como conta André Matalon, sócio e booker da produtora Music On Events: “O Luizão nos procurou com a proposta de uma festa para oito mil pessoas, mas crescemos a ideia para o estádio. Começamos a discutir a melhor forma de fazer isso e surgiu a ideia de um baile contínuo com shows no meio”. Com adesão de 45 mil pessoas na primeira edição, os preparativos para o festival em 2025 já estão a todo vapor.

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03/02/2026

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Daniela de Jesus