Nada foi como antes após Maysa: 49 anos sem o ícone do samba-canção

22/01/2026

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Por: Renan Guerra

Fotos: Divulgação/Thereza Eugênia

22/01/2026

A cultura pop não dá a devida atenção à memória. O público parece sempre mais interessado na “melhor banda de todos os tempos da última semana”, enquanto o passado fica num baú de guardados. Samba-canções, músicas de fossa e o romantismo brasileiro pré-bossa nova ficam esquecidos, como se fossem aquém dos modernismos pós-tropicalistas — o que é um erro, já que Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia reverenciavam nomes como Elizeth Cardoso, Ataulfo Alves, Dolores Duran e Ângela Maria. 

Mas, de tempos em tempos, temos a sorte de vislumbrar novamente o passado. Como nos  anos 2000, quando houve um reencontro do imaginário popular com a figura mítica de Maysa. Cantora popular nas décadas de 1950 e 60 e de alto refinamento, foi fundamental na modernização da música brasileira, inserindo uma identidade própria ao samba-canção, dosando drama e teatralidade. Maysa fez ricas incursões pelo repertório standard de diferentes países, sem medo de colocar seu gingado em clássicos em francês ou espanhol.

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“Ne me quitte pas”, do belga Jacques Brel, é um desses casos. A canção ganhou uma versão de Maysa no Maysa Sings Songs Before Dawn (1961). O disco de repertório internacional também incluía “A Noite do Meu Bem”, da amiga Dolores Duran. Ao lado de Maysa, ela foi uma das raras cantoras-compositoras conhecidas da época, em um cenário dominado por homens.

Ayrton Montarroyos, intérprete e pesquisador musical, destaca que Maysa foi uma cantora importante, mas, sobretudo, uma compositora importante. “Numa época em que a mulher ou não compunha ou aparecia pouco tocando violão, Maysa era uma musicista. Isso assustava muito — assustou o próprio marido, que pediu para que a foto dela não fosse colocada no primeiro disco”, lembra ele, sobre a capa de Convite para ouvir Maysa (1956) ter só orquídeas, sem imagens da cantora. “Mas a importância social dela foi muito grande. Maysa veio para assinar a canção de fossa, o samba-canção. Seu timbre era muito diferente e já pronunciava um pouco a bossa nova”, explica.

O estilo único da artista transformou sua interpretação para “Ne me quitte pas” em um mito. Maysa foi ovacionada pelos franceses, serviu de trilha para amores e histórias: Pedro Almodóvar usou a versão no longa A Lei do Desejo (1987). Por aqui, voltou ao imaginário popular na abertura da minissérie Presença de Anita (2001), escrita por Manoel Carlos. O autor também assina a minissérie Maysa: Quando fala o coração (2009), ambas da Rede Globo.

Dois anos antes, a trajetória de Maysa foi revisitada com cuidado e ampla pesquisa no livro Maysa: Só Numa Multidão de Amores (2007), do jornalista Lira Neto, que teve total apoio de Jayme Monjardim, filho da artista. Jayme é o guardião de diários, correspondências, revistas e toda sorte de acervo que sua mãe colecionou durante anos. Importante diretor de novelas e parceiro de Manoel Carlos, Jayme Monjardim confiou a Maneco o desafio de levar, com total liberdade, a história de sua mãe para a televisão. 

A minissérie foi sucesso de público e de crítica, tanto que a própria Globo teria se arrependido de produzir apenas 9 episódios ao invés dos 16 propostos por Manoel Carlos. Fato é que faixas como “Meu Mundo Caiu” e “Barquinho” conquistaram uma nova geração de ouvintes, como conta Ayrton Montarroyos: “Fiquei apaixonado por ela já nas chamadas. Eu já tinha um contato com a música dela sem saber, em ‘Presença de Anita’, que foi uma música que me tocava muito desde criança. Depois, entrei de cabeça na discografia dela”, relembra. 

Ayrton cantou o repertório de Maysa ao lado de Catto e Alice Caymmi no espetáculo Uma noite para Maysa, de 2023. Três artistas com cantos únicos e carreiras bem demarcadas por suas identidades próprias, mas que sempre louvaram as belezas dramáticas de Maysa. 

Alice gravou com maestria “Meu Mundo Caiu” em Rainha dos Raios (2015), enquanto Catto celebrou Maysa com uma canção. Em “Maysa”, assinada por Zé Manoel e Ronaldo Bastos, Catto reverbera os versos: “Nada foi como antes depois que aconteceu Maysa / Meu mundo caiu / E agora ninguém é mais feliz que eu”. 

“Maysa foi uma das artistas mais transgressoras do Brasil”, define Catto. “Ela tinha uma rebeldia, um bom humor, uma acidez, como raramente vimos nesse país. Maysa vivia como uma rockstar, uma mulher muito à frente de seu tempo, que viveu muitas questões de insubmissão ao patriarcado. Muitos a reduzem à ideia de mulher triste por amor, quando, na verdade, ela também falava de liberdade. Maysa tinha essa liberdade extremamente sedutora, que me é muito inspiradora”, diz.

Montarroyos lamenta a falta interesse dos jovens por essa história. “Já entendi que a saga do Brasil é fazer coisas belíssimas para ninguém”, sentencia. “E olha que Maysa era cantora dos jovens. Nos 70, ela dá uma guinada na carreira e vira uma cantora da intelectualidade jovem brasileira, do estudante universitário. Ela teve um papel muito importante nessa renovação do canto brasileiro”.

Em 2007, em seu livro Meus discos e nada mais (Jaboticaba), o DJ Zé Pedro, pesquisador ávido da música brasileira, já celebrava em Maysa essa possível juventude: Para mim, é uma cantora pop. Se tivesse vinte e poucos anos hoje, seria porta-voz de muitos adolescentes que desejam se encontrar, assim como ela. Uma Ângela Ro Ro fora do seu tempo. Uma Cássia Eller que nasceu cedo demais. Um Cazuza de saias — artistas com trajetórias acidentadas como a dela, que também transformaram suas vidas em canções”. E selava: “meu desejo para todo o brasileiro nascido neste país sem memória é que todos conheçam Maysa”. 

Para Ayrton, o samba-canção e a fossa não morrem nunca. “É inerente ao ser humano: as pessoas sofrem de amor, e até hoje existe o estilo sofrência, que é, sim, uma derivação disso. É uma faceta da nossa cultura, um arquétipo do sentimento humano brasileiro: sofrer por amor e contar isso em canções. Isso vai desde Ary Barroso a Simone e Simaria, de Maysa a João Gomes”, finaliza. 

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #166 que acompanha o disco Caminhos Selvagens, de Catto, lançado pelo Noize Record Club.

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