Lançado em dezembro, Pequenas Lembranças (2025) é a estreia solo de Miguel Góes. Depois de participar da banda Dônica com Tom Veloso, Zé Ibarra, Lucas Nunes e Deco Almeida, ele retorna ao estúdio para álbum instrumental, com pegada de trilha sonora.
Compositor e produtor, o carioca entrega um som que passeia com naturalidade pelo jazz e MPB, com inspirações que vão de João Gilberto a Brian Wilson (Beach Boys). “Num processo muito natural as referências foram se somando. Quando percebi, a estética do disco já estava definida”, comenta Miguel.
Um time grande ajudou a tirar o álbum do papel. Além do reencontro com os parceiros do Dônica, a orquestra de Miguel em Pequenas Lembranças traz Marcos Schaimberg na produção, Gabriel Nigri (bateria), Lucas Vollers (piano), João Moschkovich (guitarra), Antonio Fischer-Band (arranjo), Mafram do Maracanã (percussão), Ivan Sacerdote (clarinete), Sarah Cesário (violino), Tais Soares (violino), Clara Santos (viola), Flavia Chagas (violoncelo), Raphael Resende (trompa), Maria Bernardo (clarinete), Jorginho Trompete (trompete), Vitor Zangrando (flauta), Eric Camargo (violão) e Filipe Moura (sax).
Em entrevista à Noize, Miguel destrincha o álbum: como foi construir a estreia em um processo colaborativo, memórias que o inspiraram na composição, próximos passos do projeto e ainda comenta seus filmes favoritos.
Pequenas Lembranças é seu primeiro álbum solo, como este trabalho irá se diferenciar da trajetória em grupo, com o Dônica? O álbum é solo, mas também não é, já que traz colaborações de peso, inclusive com os ex-parceiros de Dônica, como foi revistar a parceria?
Acho que primeiro porque é um trabalho instrumental, então já é uma proposta distinta do que a gente tinha com a Dônica. Para além disso, é o fato de eu estar sozinho, já sinto que surgem outras referências. Quando fazemos um trabalho em grupo é evidente que somos indivíduos com suas próprias percepções artísticas, mas quando a gente se junta, existe um objetivo em comum ali, foi o caso do Dônica.
Mas, quando estou sozinho, posso enveredar para onde eu quiser e foi essa a graça do disco solo. Também foi muito legal voltar ao estúdio com os meninos da Dônica. Nós paramos com a banda em 2019-2020 e logo comecei a trabalhar neste disco. Fiquei um tempo sem estar em contato com os meninos no âmbito profissional e de realização artística. Então, voltar a isso depois de um tempo e dentro desse projeto foi muito legal.
O álbum traz essa pegada de trilha sonora. Quais são seus filmes favoritos?
Vou falar só três porque senão passo toda a entrevista falando sobre isso [risos] Na época em que estava fazendo o disco, meu filme favorito era O Espelho (1975) do Tarkovski. Assim como o álbum, é uma história sobre a memória. Com certeza, continua um dos meus filmes favoritos, não vejo há muito tempo, mas foi um daqueles que fez minha cabeça.
Em segundo, cito o documentário O Homem Urso (2005), do Herzog. Ele acompanha a história de um homem que, todo verão, vai viver com os ursos e ele faz isso durante 13 anos. As imagens, o personagem, é tudo muito forte, é um filme maravilhoso.
Por fim, In Water (2023) do Hong Sang-Soo. Ele é meu artista favorito da vida! Lança uns dois filmes por ano com, sei lá, um trocado e um sonho, e sempre me impressionam. É um diretor que está sempre se reinventando, seus filmes são uma lindeza, obras que dão mais vontade de viver, sabe?
A faixa “Venham todos vocês sonhadores!” nasceu de um momento compartilhado com a Dônica em uma turnê do Caetano Veloso e Gilberto Gil na Europa. Conta essa história pra gente? O que essa música representa dentro da narrativa do álbum?
Isso aconteceu quando a gente estava na Europa, em uma cidade pequena na Itália, para turnê Caetano e do Gil. A gente chegou um dia depois deles nessa cidadezinha que quase parecia uma cidade fantasma, o hotel não tinha serviço de quarto e, morrendo de fome, fomos procurar algum lugar para comer. Chegamos em um bar, bem pequeno, com uns coroas bebendo cerveja. Sentamos e começamos a beber também
Quando o bar fechou, eles ainda tinham cerveja. Arrumaram copos descartáveis e ficaram bebendo do lado de fora. O grupo esperava os meninos terminarem a bebida, junto com alguns senhores mais velhos que também estavam ali. Tudo corria bem, num clima tranquilo, até que, de repente, esses homens começaram a fazer um chiado, pedindo silêncio — “shut up, shut up”. O pedido foi direcionado ao grupo, que ficou assustado, tentando entender o que estava acontecendo. Todos se calaram, e então um deles começou a cantar uma canção de caráter tradicional.
Na época, pareceu algo escocês, mas depois se descobriu que era irlandês. O momento foi vivido intensamente: a música era linda, o canto impressionava e, naquele contexto, a voz soava quase angelical. Todos ficaram arrepiados. Anos depois, uma frase específica ainda era lembrada — “Come all you dreamers” —, associada à melodia daquela canção.
É uma história guardada com muito carinho, por ter sido vivida coletivamente, como um momento compartilhado. A frase carrega um astral que eleva o clima e dialoga com o disco, que em certos momentos pode soar melancólico. Esse contraste, essa oposição da faixa em relação ao restante do álbum, acaba reforçando seu impacto — algo visto como especialmente interessante.
A primeira faixa do álbum nasce em 2015 e, desde 2021, o projeto está em maturação. Como foi construir o som do álbum?
Comecei a compor a primeira faixa em 2015, junto com o Tom, Lucas e o Zé, arranjamos um pouco e até chegamos a tocar em ensaios, mas depois cada um seguiu sua vida. Passei anos sem compor e voltei na pandemia, foi quando percebi que estava construindo um disco. Foi algo super natural, entendi que seria um disco instrumental, e, a partir disso, puxei as referências de estética e linguagem. Conversando com X, meu produtor, o jazz veio, muitos movimentos da música brasileira foram influenciados pelo jazz, da Bossa Nova à MPB. Em sequência, veio a música de cinema e a narrativa do disco já estava bem definida.
Com Pequenas Lembranças no mundo, quais são seus próximos passos?
O próximo passo é fazer mais! Já estou pirando no próximo disco, tenho algumas composições pronta e decidindo se elas me bastam ou se tenho que compor mais. Já estou na loucura de produzir a próxima obra, fiquei tanto tempo produzindo Pequenas Lembranças que é como se ele já estivesse pronto há muito tempo. Artisticamente, é como se o demônio tivesse sido exorcizado há muito tempo [risos]. Mas tenho outros demônios que também precisam ser exorcizados com um outro projeto artístico.
Você já cresceu respirando o backstage da cultura. De que forma essa convivência com câmera, estúdio e espetáculo influenciou diretamente o conceito do álbum?
Acho que crescer nesse ambiente influenciou minha cabeça, de forma direta ou indireta. Mas, na forma de fazer o disco, não estava pensando nisso, o cinema, por exemplo, não veio diretamente, não acordei pensando em: “Vou fazer um disco com músicas inspirado por cinema” nasceu quando eu estava construindo a roupagem do álbum e muitas das minhas influências são de trilhas sonoras. Minhas pessoas me falaram que se sentiram ouvindo a trilha sonora de um filme que não existe, fico feliz com isso.
Como você chegou em Pequenas Lembranças como título? Que tipo de memória ou sensação você queria que o ouvinte acessasse?
É uma luta decidir o nome do disco. Mas, enquanto eu produzia, a questão da lembrança e da memória estava muito presente comigo, exatamente por causa das pequenas histórias que fui contando, queria construir pequenos lugares que as pessoas pudessem visitar, sabe? Vejo a memória dessa forma: um lugar que você visita dentro de si mais do que uma história que se conta. Por exemplo, da história da Dônica, não lembro o começo, meio e fim dela, certo? Mas a história vem inteira na minha cabeça. Até por esse conceito que as músicas são curtas, como pequenas lembranças.
O disco reuniu quase 20 músicos, como você articulou esse processo coletivo para que todas as peças se encaixassem no projeto?
Compondo o disco comecei a desenhar a forma que queria que ele soasse, tinha uma visão clara para ele e poderia chegar nela sozinho, mas sabia que se montasse um time de pessoas para contribuir comigo seria muito mais interessante e, com a colaboração, essa visão foi se transformando. Poderia sentar e escrever todos os arranjos de corda, mas iria demorar uma eternidade e muito provavelmente não sairiam tão interessantes quanto os arranjos do Antônio. Às vezes era mais um processo de conversa do que de tocar junto.
Escolhi pessoas que se encaixaram na minha vida e, mais do que isso, pessoas talentosíssimas e artisticamente muito interessantes, cada um contribuiu à sua maneira para concretizar a minha visão, que também foi se transformando, o que é muito legal.
Com as parcerias me senti como um diretor em um set de filmagem. O diretor tem uma visão para sua cena de como ele quer a luz, por exemplo, mas não é ele que vai cuidar da luz, né? Me senti nessa função, muitas faixas estavam no estúdio dirigindo.