Década de 1960. O menino Lô Borges, de 10 anos de idade, descia as escadas de um prédio – desde o 17º andar – localizado no centro de Belo Horizonte. Sua mãe havia pedido para que ele comprasse leite e pão para o café da tarde. Lô seguia na missão até que ouviu um canto sublime acompanhado de um violão, lá pelo quarto ou terceiro andar. Ele parou e ficou. E esqueceu de comprar o leite e o pão. Era Bituca, 10 anos mais velho do que Lô. Era Milton Nascimento – Milton e um violão.
O caso contado por Lô Borges, tanto no documentário Nada Será Como Antes – A Música do Clube da Esquina (2023), dirigido por Ana Rieper, como em muitas entrevistas por aí, é um encontro seminal e mágico da turma do Clube da Esquina. Milton e um violão são capazes de parar tudo – adiam um café da tarde mineiro, rearranjam rotas, renovam o espírito, transformam o Brasil, o mundo. E é disso, dessa combinação singela e absolutamente arrebatadora, que Tarde, o disco do NRC, é feito.
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Com gravações de meados dos anos 2000, o repertório traz o violão de Wilson Lopes fazendo a cama perfeita para a voz maior da nossa música, às vezes com eventualíssimas e discretas linhas de percussão e de acordeom. Em mais de uma ocasião ao longo da década passada, as faixas quase viram a luz do dia e algumas delas chegaram a sair em EPs dispersos, mas apenas agora surgem oficialmente compiladas em um disco.
“Eu descobri essas gravações e me apaixonei. Comecei a escutar muito – isso muito antes de vir a me tornar empresário do meu pai. Quando me tornei empresário, quis desengavetar isso. Pensei: as pessoas também precisam viver essa maravilha”, conta Augusto Nascimento, filho e empresário de Milton. Ele ainda relembra uma passagem sintomática do poder das versões presentes em Tarde – intimistas, singelas e, mais do que nunca, com a voz de Milton em primeiro plano. “Eu estava indo buscar o Herbie Hancock e o Wayne Shorter em um hotel no Rio de Janeiro para que eles fossem jantar com o meu pai. E eu estava ouvindo esse álbum. Isso foi, sei lá, 2013, 2014. O Herbie entrou no carro, me deu oi, olhou para o Wayne e falou: é impressionante como a gente só precisa ouvir uma nota para saber que é o Milton”.
O repertório atravessa décadas, reunindo canções de diferentes épocas e compostas com parceiros diversos de Bituca – Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant, além de Tavinho Moura, Nelson Ângelo e Chico Buarque, têm versos espalhados por Tarde. Ao longo de mais de meio século de música, Milton e seus discos unem múltiplos ecos e influências, colocando regionalismos e raízes brasileiras a luz de jazz e música clássica, com células rítmicas sendo ornamentadas por produções e arranjos complexos.
Aqui, a lógica se alterna – como se, em uma matriosca, fossem desencaixadas as bonecas maiores até restar a última, a que não é um invólucro, mas um ser maciço. “É uma forma mais despida da música do meu pai. Uma obra que sempre foi aquela coisa mais jazzística, com arranjos grandiosos e maravilhosos – e que são incríveis. Só que eu também gosto da experiência de escutar esses grandes clássicos nessa cara mais íntima, mais próxima da voz. Está mais fora do mundo que ele sempre habitou. Há esse contraste. Ele ali, um violão, às vezes uma sanfona, uma percussãozinha. E tem sua beleza, sua mensagem, seu recado”, reflete Augusto.
A beleza, a mensagem e o recado chegam no embalo do violão belíssimo, habilidoso e, sobretudo, respeitoso de Wilson Lopes. Amigo, parceiro musical, guitarrista, arranjador e diretor musical de Milton há mais de 30 anos, o músico mineiro manuseia o violão com classe ímpar, mantendo-se fiel às canções como foram feitas, mas guiando os acordes e dedilhados pelos detalhes e surpresas que tornam as composições tão especiais.
“É outra roupa, claro. Só a roupa que muda. Quando eu estou ali, tocando guitarra, não vou encher a mão que nem no violão, nem pode tocar muito, se não atrapalha. Quando é violão e voz, tem que meio que dar conta de tudo – dos baixos, da harmonia, do contracanto, da respiração toda. Mas a essência permanece”, afirma Wilson. “Esse disco foi muito em cima dessa coisa de não ter arranjo. Não vamos inventar. Vou tocar a música que você compôs e você canta. Vai ficar simples, vamos dizer assim. Sem paranauê. Essa foi a ideia, e eu acho linda. Sempre abracei essa ideia. [Tanto em Tarde quanto nos trabalhos de orquestração durante as turnês e shows] faço o máximo para ficar a cara do Bituca. E o Bituca é muito assim… As composições dele são muito ricas em detalhes. Tendo o contato com o Bituca de verdade, não só tirando ali do disco, você percebe algumas coisas, algumas notinhas que ele faz questão. E isso dá uma cor. Sempre tento fazer respeitando o Bituca”.
Em Tarde, despem-se camadas e as canções voltam para casa – elas retornam para esquinas, fazendas, apartamentos e becos. Como Milton as fez, as tocou e as ouviu pela primeira vez. Demonstram toda essa poética-estética da precisão, da qual Milton é dotado de maneira inigualável e quase espiritual e que, para quaisquer meros mortais, é uma aptidão inalcançável.
“A música do Milton é única demais, não tem condição. Ele navega em tudo quanto é lado desse planeta. Ele tem muita música com característica do jazz – temas curtíssimos e o pau quebra depois. Você acha que a ‘música’ é do tamanho do planeta e, vai ver, ela é desse tamanhozinho. ‘Lilia’ [faixa instrumental do disco Clube da Esquina], por exemplo, é curta”, aponta Wilson.
“O Wayne Shorter falava: ‘O Milton é engraçado, ele compõe umas músicas que parecem de ninar, mas, na hora que você vai tocar, você quebra a cara’”, completa. O que torna tudo ainda mais assombroso é o fato de Bituca, Doutor Honoris Causa em Música pela faculdade Berklee College of Music, sempre ter criado – entre andamentos enigmáticos e melodias sinuosas – a partir de sentimento, de sensação. “É mágico, é instinto. Ele não sabe, não pensa em nada. Uma vez eu perguntei para ele assim: Milton, quando você fez ‘Ponta de Areia’, você pensou que ia fazer uma música que é um compasso de 4 e um de 5? Ele falou: você que tá falando isso. É uma coisa que sempre digo: o Bituca é um gênero musical. Você não consegue encaixá-lo”, define Wilson.
Embora o disco seja escorado no minimalismo e em elementos pinçados com cuidado e critério, sua gravação e, agora, lançamento se devem a um esforço de muitas mãos, capazes de, enfim, colocar, após quase duas décadas, o projeto no mundo. Da arte de capa, assinada e presenteada pela célebre dupla de artistas OsGêmeos – amigos de Milton e Augusto –, aos personagens que, lá nos idos de 2007, participaram ativamente da realização das gravações acústicas.

“Várias pessoas são muito importantes. OsGêmeos que nos presentearam com algumas artes para o meu pai e toparam que a gente usasse uma dessas artes como capa, de forma inédita. Não tenho nem como explicar minha alegria com isso. É uma ligação entre artes. O Wilson Lopes, que acompanha meu pai há muito tempo e que toca nesse álbum todo. O Lincoln Cheib, baterista que o acompanha há muito tempo e que também está presente nesse álbum. E a empresária da época, a Marilene Gondim, que foi quem realmente fez o projeto”, lembra Augusto.
Mil Tons
“O meu pai é o meu pai aqui em casa – que eu assisto novela, que a gente vê filme, faz viagens de motorhome pelo mundo. E, em paralelo é essa figura amada pelo mundo todo. Amada por mim. Meu pai é meu maior ídolo, sem dúvidas”, diz Augusto. “Essa relação, por mais que sejam polos diferentes, se reflete na minha vida como empresário dele. Meu pai foi quem acreditou em mim – enquanto muita gente até me ridicularizava, ele acreditou. Apostou as fichas em mim e colocou toda a confiança possível”. Augusto, nome essencial para que Tarde fosse lançado, ainda conta que, ao lado dos Beatles, os discos que ele mais escuta acompanhado do pai são os do próprio Milton. Em casa, em churrascos, viagens – enquanto Bituca conta as histórias e fala sobre os personagens por trás das canções. “Eu tenho a chance de beber direto da fonte e me apaixonar e me descobrir cada vez mais através da obra do meu pai. É muito além de trabalho para mim: administrar a obra ele é uma missão de vida”.
Ele cita “Pai Grande”, “Dança dos Meninos” e “De Magia, de Dança e Pés” como canções especiais, mas ressalta que suas audições vão e vêm em meio a fases e diferentes momentos da vida. “Um álbum que eu tenho muito, assim, no meu afetivo é o Geraes (1976). Tá sempre ali. Yauaretê (1987) também. Às vezes, o Clube da Esquina (1972) vem muito. É bom que é uma obra tão extensa e dá para poder viver cada fase. Tudo se encaixa para cada momento”.
Entre as mais amadas e estudadas obras do cancioneiro brasileiro, a discografia de Milton une o sonho, a fantasia e a vida real. O onírico e o palpável. A voz, os acordes, as harmonias e toda a atmosfera das criações de Milton promovem uma nostalgia fulminante, mas, ao mesmo tempo, despertam uma ainda mais poderosa vontade de viver. O olhar pelo retrovisor, claro, é saudoso – mas a estrada à frente é instigante e atraente.
Ser dono de canções e de uma trajetória desse calibre vem da forma como Bituca vê, pensa, cria e se relaciona. Uma paciência, uma serenidade e uma forma tão única de enxergar o mundo e as emoções. Gostar de prosa, mas valorizar o silêncio, ambos desfrutados entre amigos e pessoas amadas. “Se você quiser conquistar o Bituca, é ficar sentado do lado dele e não falar nada. Horas, dias, não importa”, revela Wilson, lembrando os tantos momentos compartilhados madrugada adentro, entre acordes de violão e histórias sobre a vida. Wilson até conta uma “piada de caipira”, para elucidar o jeito de ser de Bituca. “Tem dois capiaus pescando. Ficam em silêncio. Passarinho passando, o vento… Eles não falam nada um com o outro, cada um com a sua vara. Passa um elefante voando. Um olhou, o outro olhou. Não falam nada, nem uma palavra. Duas horas depois, passa outro elefante voando. Nada de novo, nem comentário. Um tempão depois, passa outro voando. Aí um dos capiaus fala: ‘É, acho que o ninho é para lá’”, conta, entre sorrisos. “O Bituca é isso. Ele fica quietinho”.
O resultado dessa personalidade e desse espírito, para a sorte do mundo, é música. Caetano Veloso, no prefácio do livro Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina (1996), escrito por Márcio Borges, também destaca a relação entre o jeito mineiro de ser e a forma como o Clube da Esquina, simbolizado por Milton, soube manejar novidades e tendências culturais, entregando um clássico absoluto. “Eles traziam o que só Minas pode trazer: os frutos de um paciente amadurecimento dos impulsos culturais do povo brasileiro, o esboço (ainda que muito bem-acabado) de uma síntese possível. Minas pode desconfiar das experiências arriscadas e, sobretudo, dos anúncios arrogantes de duvidosas descobertas. Mas está se preparando para aprofundar as questões que foram sugeridas pelas descobertas anteriores cuja validade foi confirmada pelo tempo. Em Minas o caldo engrossa, o tempero entranha, o sentimento se verticaliza”, Caetano resume lindamente.
O caldo, o tempero e o sentimento estão especialmente pungentes em Tarde, em versões despidas, ainda mais próximas da voz incomparável de Milton. O efeito é como o sentido pelo pequeno Lô Borges descendo as escadas do lendário Edifício Levy, há mais de 60 anos – hipnotizado e seduzido, como se ouvisse o mais belo canto da sereia, a ponto de deixar o café da tarde para depois.
