Mr. Bungle e a criatividade na música extrema: uma entrevista com o baixista Trevor Dunn

02/02/2026

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Por: Guilherme Espir

Fotos: Divulgação/ Buzz Osborne, Fernando Yokota

02/02/2026

O Mr. Bungle se consagra como uma das bandas mais peculiares da música extrema. O supergrupo californiano, formado em 1985 por Mike Patton (do Faith No More, nos vocais), Dave Lombardo (ex-Slayer, na bateria), Scott Ian (do Anthrax, na guitarra base), Trevor Dunn (baixo) e Trey Spruance (guitarra solo) tem quatro discos de estúdio: Mr. Bungle (1991), Disco Volante (1995), California (1999) e, após um hiato, The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo (2020). Acompanhamos o último show da banda no Brasil em São Paulo, no dia 26 de janeiro, oportunidade em que também entrevistamos o baixista, Trevor Dunn.

Uma coisa, podemos adiantar: no papel e no palco, é uma das formações mais técnicas e completas que já presenciei ao vivo. 

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O show em São Paulo

Com o setlist focado nos discos mais recentes e na filosofia do trash, o grupo soube intercalar o peso das faixas mais recentes com covers pouco usuais, como a música tema da série Narcos (“Tuyo”, cover do Rodrigo Amarante), além do cover de Eric Carmen ao som de “All By Myself” (com sua letra alterada por Patton), além de alguma faixas de outros discos do grupo, como o Califórnia que foi relembrado ao som de “Retrovertigo”. 

Tão impressionante nos fones de ouvido, o Mr. Bungle agrada ainda mais ao vivo. Se você gosta de metal, precisa assistir a um show desses caras. 

Formação de peso

O grupo passou por diversas mudanças, não só em termos de configuração mas principalmente alterações estéticas — conforme foram incorporando influências que caminhavam do reggae ao trash, passando até mesmo pelo funk. 

Assisti-los ao vivo é uma oportunidade rara de dissecar a química telepática de um supergrupo de instrumentistas.

O Dave Lombardo costuma ser reduzido ao seu papel no Slayer. Porém seu trabalho no Mr. Bungle é tão notável quanto seus discos gravados ao lado do Kerry King e Tom Araya. Só que, sobre o palco, Dave Lombardo é ainda mais impressionante: preciso como um metrônomo e responsável por dar forma e fluidez ao som pesado e rapidíssimo do grupo, suas linhas não só são executadas de forma impecável, mas também desafiam qualquer BPM.

Mike Patton é um dos cantores com maior domínio técnico da voz, independentemente do estilo que cante. Capaz de produzir as mais bizarras cacofonias e os guturais mais sinistros da cena, Patton canta em português, chama a roda de Pomba-Gira e desafia não só o tempo, mas também suas próprias cordas vocais. Com os trejeitos de um MC e acesso a alguns samplers, chega a ser um show à parte observar a facilidade com a qual ele articula sua voz. 

Já Scott Ian, líder do Anthrax, e amigo da galera do Sepultura e envolvido em diversos outros projetos marcantes. O cidadão se tornou um dos maiores nomes quando o assunto é metal e guitarra base. E o que seria do Mr. Bungle sem o Trevor Dunn? Baixista capaz de tocar praticamente qualquer coisa, é do Trevor o swing do ska que permeia grande parte do repertório do primeiro disco do Mr. Bungle.

Trevor é um baixista de aguçada percepção musical e facilmente um dos mais versáteis, ainda mais considerando o contexto da música pesada. É possível escutar suas quatro cordas em discos de bandas como Ahleuchatistas, dezenas de projetos ao lado do John Zorn e o Melvins, por exemplo. Acho que é seguro dizer que poucas sessões rítmicas tocaram com tanto entrosamento, precisão e pressão, tal qual a dupla Dave Lombardo e Trevor Dunn.

Multi-instrumentista de mão cheia, Trey Spruance é um daqueles workaholics do mundo da música. Líder do grupo experimental Secret Schiefs 3, o guitarrista é um grande pesquisador e seu fraseado incorpora elementos até mesmo da música indiana e dos bálcãs. 

São tantas camadas e particularidades que tivemos que trocar uma ideia com o próprio Trevor Dunn pra dissecar a música de um dos grupos mais brilhantes da música extrema. Confira abaixo:

As quatro demos lançadas pelo Mr. Bungle revelam uma banda criativa, abrindo novos caminhos musicais e mostrando um alinhamento raro entre músicos capacitados. Poderia nos contar um pouco sobre a energia crua e avassaladora dessas gravações iniciais?

Éramos jovens — entre 15 e 19 anos, pelo menos antes de OU818. Cheios de testosterona, confusão e curiosidade. Acho que não foi por acaso que Trey, Mike e eu nos encontramos. Fomos atraídos uns aos outros em um ambiente praticamente sem inspiração. Tivemos que ir atrás dela. Essa busca, essa curiosidade, nos levou a nos encontrar e, a partir dali, continuamos a nos inspirar e a nos provocar mutuamente.

Também não existiam regras, além de se opor ao que achávamos mundano e tendencioso. 

Detestávamos tendências, ao mesmo tempo em que abraçávamos algumas delas. Mas permitimos que cada um explorasse livremente, sem medo da rejeição ou das consequências.

Adoraria ouvir também sobre a produção de Mr. Bungle (1991). John Zorn produziu o disco e, sinceramente, considero a experiência sonora desse álbum absolutamente fenomenal.

Gravamos tudo com o nosso engenheiro David Bryson, o mesmo que havia gravado OU818 no estúdio Dancing Dog. Zorn só conseguiu estar presente quando começamos a mixagem, que foi um processo bastante árduo. Os dois montavam uma mix enquanto nós ficávamos enrolando no hotel ou em alguma taqueria próxima. À tarde, entrávamos no estúdio para fazer ajustes.

Zorn sempre nos deu a palavra final na mixagem. Acho que o principal diferencial da experiência dele foi, por exemplo, insistir no uso de um órgão Hammond B3 real com caixa Leslie — em vez de um sample barato e cafona — ou pressionar o Bär a tirar o melhor solo possível. Era a primeira vez que gravávamos em um estúdio tão grande — 24 canais! —, e ele tinha muito mais truques na manga do que nós.

Considerando que muitos dos seus projetos posteriores se conectaram — direta ou indiretamente — com músicos do universo do Zorn [Marc Ribot é um exemplo, especialmente na colaboração em Enigmata, de 2011]. Como trabalhar com ele ajudou a expandir seu vocabulário musical?

Zorn reconheceu nossa seriedade desde o início — provavelmente a única razão pela qual aceitou nos ajudar — e por isso começou a nos contratar individualmente quase de imediato. Patton e Spruance aparecem no álbum Elegy, gravado, acredito, em 1991. Alguns anos depois, passei a tocar em uma versão da Costa Oeste do Masada — e quase substituí o Fred Frith no Naked City!

Eu não diria que ele moldou a identidade do Mr. Bungle, excetopor abrir nossos olhos para as possibilidades da improvisação livre — algo com o qual já tínhamos alguma experiência. Tanto que, quando chegou a hora de gravar Disco Volante (1995), sugerimos que ele produzisse, e ele gentilmente recusou, dizendo: “vocês sabem o que estão fazendo”.

Dito isso, em nível pessoal, ele me colocou para tocar com alguns dos maiores músicos do mundo e exigiu muito das minhas habilidades para alcançar o som que ele buscava como compositor. São tantas lições valiosas ao longo de mais de 20 anos de colaboração que seria impossível listar todas.

Tive de entrevistar Bill Frisell alguns anos atrás, e ele falou bastante sobre o impacto da Downtown Scene [Naked City, Tzadik Records etc.]. O Mr. Bungle absorveu influências desse ecossistema nova-iorquino de vanguarda. Parece uma árvore que continuou se ramificando a partir daquele primeiro projeto, sempre de forma orgânica e autêntica. 

Descobrimos juntos o primeiro disco do Naked City. Ao mesmo tempo, reconheci os nomes de Joey Baron e Mark Dresser no álbum Spy vs Spy do Zorn (1989), assim como Tim Berne’s Fractured Fairytales (também de 89). A partir desses músicos individuais, os galhos dessa árvore se multiplicam infinitamente.

Como mencionei antes, éramos muito curiosos, então seguimos todos esses ramos. Hoje posso dizer que conheço ou já toquei com quase todos esses músicos. Isso sem falar de artistas e bandas como Freddie Redd, Blind Idiot God, The Boredoms, Albert Ayler, Jack McDuff… toda a música que precedeu, influenciou ou fez parte da Downtown Scene. Se você for curioso o suficiente, consegue seguir esses ramos até a Idade Média.

Queria ressaltar a importância do seu entendimento de rocksteady, ska, dub e da música jamaicana em geral para a banda. Acho que isso é um detalhe-chave em todas as camadas sonoras que o Mr. Bungle mistura. 

Em Humboldt County, onde crescemos, sempre houve uma inclinação forte ao reggae. Não éramos exatamente fãs, mas aquilo estava presente. Lembro de ter visto o The Itals quando ainda estava no ensino médio. Depois, o Fishbone passava pela cidade com frequência.

Acabamos nos envolvendo com Oingo Boingo, The Specials, Madness e Bad Manners, então inevitavelmente, aquelas guitarras sincopadas no contratempo e linhas de baixo em arpejos menores começaram a aparecer.

Ao mesmo tempo, o rock alternativo (antes do R.E.M. estragar o termo) era bastante progressivo, e ouvíamos isso tanto no rádio universitário quanto nas bandas locais com quem tocávamos. Penso em coisas como Meat Puppets ou Minutemen — músicas que exploravam contraponto, em vez daquela abordagem metal de todos tocando em uníssono.

Tenho muita curiosidade sobre o processo de composição. A forma como as peças se desenvolvem é fascinante — existe uma forte sensação de estrutura, mas também de imprevisibilidade. Como as composições tomam forma nesse grupo? Considerando o histórico dos músicos, imagino que muita coisa venha da improvisação. 

Passei a maior parte da minha carreira em situações colaborativas ou como músico acompanhante. Ser líder de banda é outra história. É muito mais estressante, com muito mais responsabilidade — emocional e financeira — e muito mais coisas para equilibrar. Faço o possível para manter os músicos interessados e felizes em estar ali. Tenho uma visão musical, mas quero que todos participem, que suas personalidades apareçam, não apenas para reforçar o que escrevi, mas para terem expressão individual.

Atualmente tenho três discos do Trio-Convulsant. O mais recente [Séances, lançado em 2022 pela Pyroclastic Records] é um septeto, embora eu ainda o considere uma versão expandida do trio. Enquanto escrevo isso, estou compondo para o próximo disco com a mesma formação.

O primeiro álbum [Debutantes & Centipedes, de 1999] foi minha estreia como líder durante minha fase em San Francisco e reflete meu interesse pela literatura surrealista — vários títulos vêm diretamente de André Breton. Foi gravado em fita de 2 polegadas! Consegui contratar dois dos melhores músicos “de jazz” que eu conhecia e fazê-los tocar batidas de rock e contrapontos estranhos.

Minha ideia com o Trio-Convulsant sempre foi uma espécie de fusão — mas não aquele jazz elétrico dos anos 80 associado ao termo. Eu pensava em Ahmad Jamal cruzado com Led Zeppelin: power chords dissonantes e melodias atonais que, de algum modo, grooveiam. Gosto de misturar improvisação na própria composição — às vezes como interrupção, às vezes como parte da forma. Dou poucas direções para o improviso, mas deixo claro de onde ele vem e para onde vai. Misturar a nota escrita com o desconhecido borra a estrutura e, idealmente, confunde o ouvinte de um jeito bom.

Os anos 1990 costumam ser lembrados pelo grunge e pelo nu metal, mas você estava na linha de frente de uma música completamente fora das expectativas comerciais. Do ponto de vista de quem viveu aquilo por dentro, como você enxerga esse período — especialmente a cena underground dos anos 1990 e início dos 2000? 

Mudei para São Francisco em 1992 e saí de uma cidade pequena com duas lojas de discos bem medianas para uma área urbana com dezenas delas. Não estava prestando atenção em grunge ou nu metal. Eu meio que já tinha encerrado minha relação com o metal naquela época e nunca tive muito interesse no que era popular. Essas músicas acabam sendo empurradas goela abaixo de qualquer forma.

Minha versão dos anos 90 consistia em tocar jazz para sobreviver — restaurantes, clubes, casamentos — tocando seis dias por semana, enquanto conhecia músicos criativos como Graham Connah, John Schott e Ben Goldberg, que me ensinaram as nuances de Charles Mingus, Steve Lacy ou Anthony Braxton. Eu enlouquecia comprando discos. 

Eu e o Mike fazíamos verdadeiras peregrinações: dirigíamos até Berkeley e passávamos por Amoeba, Tower, Rasputin’s e Virgin em uma única tarde.

Eu estava descobrindo muita música antiga. E pode apostar que o Trey fazia o mesmo, e a gente trocava ideias. Isso explica bastante do que se ouve em Disco Volante (1995).

Dizem que os anos 90 na Bay Area foram uma época de festa intensa — raves e drogas sintéticas. Eu passava a maior parte do tempo no meu apartamento estudando contrabaixo e indo tocar à noite, e não bebia. Nas noites livres, subia até o Castro Theater para ver filmes de arte ou alugava filmes do Luis Buñuel ou do David Cronenberg. Tinha praticamente zero vida social, mas usava a cidade como fonte de cultura que eu não conhecia antes.

Uma coisa que amo no Mr. Bungle é a forma como vocês fundem gêneros e distorcem formas musicais, muitas vezes empilhando várias composições em uma única faixa. Como você explica a ruptura entre o som pesado das demos e o resultado final do primeiro álbum de estúdio?

Eu diria simplesmente: maturidade. Aprendemos fazendo. Nossa primeira demo foi gravada por nós mesmos em um gravador de 4 canais. Depois fomos para um estúdio de 8 canais, depois para outro de 16 canais fora da cidade. Cada gravação — incluindo California — foi mais complexa que a anterior.

Sempre ficávamos empolgados em estúdio, explorando todo o potencial e aprendendo no processo. Isso tem pouco a ver com a música em si, que sempre abordamos sem limites.

Sua química musical com o Mike Patton é notável, especialmente considerando quantos projetos diferentes vocês já fizeram juntos — muitas vezes criando bandas inteiramente novas, como o Tomahawk. Você pode falar sobre essa relação, não apenas em termos de tempo de colaboração, mas também sobre como vocês nunca fazem a mesma coisa duas vezes? 

Patton e eu nos conhecemos no ensino fundamental, quando eu estava começando a aprender baixo. Nos conectamos pela música, trocando discos para gravar em fita. Lembro especificamente da trilha sonora do filme Heavy Metal como algo importante naquela época.

Acabei colocando ele em uma banda em que eu tocava, sem ter muita noção de que ele realmente sabia cantar. Todas as bandas em que tocamos juntos foram muito diferentes — com líderes e abordagens distintas. O Tomahawk, por exemplo, já existia antes de eu entrar, sendo liderado por Patton e Duane Denison. O Mr. Bungle é claramente uma banda colaborativa, e o Fantômas é liderado pelo próprio Patton.

Meu trabalho como baixista é encontrar e executar meu papel, potencializando a visão do líder da banda. Acho que, por termos crescido no mesmo ambiente culturalmente vazio, compartilhamos certas referências — e isso também vale para o Trey.

Uma das minhas melhores qualidades é conseguir trabalhar com líderes intensos e fazê-los achar que estão tomando todas as decisões [risos].

Para encerrar, muito obrigado por essa oportunidade. Gostaria de saber o quanto você conhece da música brasileira e quais elementos da nossa cultura rítmica e musical mais ressoam com você como ouvinte e amante do som.

Conheço bastante música brasileira. 

Meu primeiro contato foi com as canções do Jobim que aparecem em muitos songbooks de jazz nos EUA, provavelmente por causa do Stan Getz. Os Mutantes, Chico Buarque, Villa-Lobos, Caetano Veloso, Joyce, Tom Zé, Sepultura e, claro, Hermeto Pascoal são apenas alguns nomes que vêm à mente e que estão no meu radar há anos.

Também conheci melhor o forró por meio do grande percussionista Mauro Refosco, em Nova York. Acho que a diversidade dessa lista fala muito sobre a amplitude da música brasileira.

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02/02/2026

Entusiasta do groove, eis aqui um meliante que orbita do jazz ao hip-hop, desde que tenha groove. Sem ele, a vida seria um erro.
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Guilherme Espir