Em uma entrevista de 1995, Roberta Miranda foi questionada sobre seu sucesso. “Você trouxe uma nova maneira de compor para o sertanejo”, observou o repórter. Deslanchando como cantora, Roberta já era compositora de longa data. Compôs “Majestade, o Sabiá”, sucesso na voz de Jair Rodrigues — e que, até hoje, é sua canetada favorita. “Quando entrei para esse meio machista do sertanejo, demorou muito para provar que uma mulher nordestina estava compondo por aí”, respondeu ela.
Roberta, é claro, não foi pioneira. Antes dela, Inezita Barroso, as Irmãs Galvão e Inhana (da dupla com Cascatinha) já cantavam canções caipiras, mas eram reconhecidas como intérpretes. Com o tempo, surgiram cantoras que assinavam suas próprias composições, como Paula Fernandes, resgatando o romantismo do campo, e Maria Cecília, que despontou com Rodolfo na onda do sertanejo universitário. “Minha iniciação na composição foi um processo de entrega, descoberta, aprendizado e interiorização para transformar sentimentos e emoções em poesia”, conta ela.
Essas mulheres já acumulavam canções cadastradas no Ecad, assinadas individualmente ou em parceria. Roberta, por ter sido compositora antes de intérprete, somava centenas quando despontou. “Nunca fiz música pensando em algum intérprete, homem ou mulher. Faço a música e ponto. As pessoas que se adaptam às minhas canções”, explica. “Sofri podações. Muitos homens já falaram que só cantariam minhas músicas se entrassem na parceria”, revela.
O “femi” do feminejo
Por muito tempo, a presença feminina no sertanejo ocorreu de forma isolada. Até que, em 2016, o Brasil ouvia uma cantora de voz firme cantar para o marido traidor “toma aqui os 50 reais”. Em outra estação, num sertanejo misturado com bolero, outra cantora convidava o infiel a “morar no motel” com a amante. Se antes as músicas românticas, conhecidas como bregas, eram dominadas por vozes masculinas, a partir daquele momento, mais mulheres começaram a cantar sobre se embebedar e sofrer, amar, trair e perdoar (ou não).
Eram Naiara Azevedo, Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Simone e Simaria. A mídia identificou o fenômeno – muitos “timbres diferentes” femininos dominando as rádios sertanejas – e o batizou de “feminejo”. A indústria musical aderiu ao termo e logo o sertanejo, esse gênero migrante e adaptável como o próprio Brasil, mostrou que também podia ser um pouco mais feminino.
Maria(s) vão com as outras
Em 2019, concluí minha dissertação de mestrado sobre a situação das compositoras do sertanejo até o tal feminejo. Naquele momento, crescia o número de mulheres atuando como intérpretes e autoras nesse meio historicamente masculino. Ao traçar uma linha do tempo, percebi que, embora sempre presentes, as mulheres tinham pouca representatividade. Algumas foram apagadas como compositoras, não creditadas ou esquecidas – como mostra uma importante pesquisa de Ana Carolina Murgel, da Unicamp.
Constatei o que já suspeitava: muitas músicas falavam sobre mulher, mas poucas eram sobre a perspectiva delas. Canções sertanejas dos anos 70, 80 e 90 criavam estereótipos femininos bem demarcados, que, na pesquisa, classifiquei como duas “Marias”. De um lado das canções, a personagem feminina era “Maria Madalena”, aquela culpada por partir o coração do homem – tida como ardilosa, interesseira, venenosa. Já a “Virgem Maria” era a mulher idealizada do romantismo: pura, fiel, futura mãe e parceira ideal.
Com a entrada mais assertiva das mulheres como compositoras, as músicas ganharam narradoras com mais nuances. A mulher empoderada podia ser romântica, mas ainda assim, “pegadora”. A que bebia demais não era, necessariamente, libertária. Compositoras passaram a descrever experiências tidas como “femininas” de forma mais complexa e realista. Isso gerou identificação e ampliou o alcance dessas canções – ainda que, majoritariamente, falem da experiência de mulher hétero, dentro de uma norma.
O maior fenômeno foi Marília Mendonça. Abraçada por conservadores e progressistas, Marília também começou como compositora antes de subir num palco. Quando faleceu, em 2021, deixou mais de 300 músicas, gravadas por outros nomes do gênero. “Compunha para outros homens cantarem, então, dava um jeito de escrever aquilo que as mulheres gostariam de ouvir”, dizia.
Marília também inspirou parcerias entre mulheres. Com as amigas Maiara e Maraisa, formou o projeto As Patroas, onde compunham, cantavam e tocavam juntas. A partir dali, mais mulheres começaram a surgir nos escritórios sertanejos. Em 2023, as mulheres intérpretes dominaram o ranking de músicas sertanejas mais tocadas no primeiro semestre, segundo a Crowley.
Ainda assim, poucas compositoras colhiam e colhem os mesmos frutos. Dados do Ecad mostram que, em 2022, apenas 8 das 100 músicas mais tocadas foram compostas exclusivamente por mulheres. Além disso, estimativas da UBC e do Ecad apontam que as mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais distribuídos no Brasil.
Segundo o jornalista especializado em sertanejo Marcão, do site Blognejo, hoje há mais colaboração entre mulheres na composição, apesar de elas ainda representarem uma fatia minoritária. As intérpretes, porém, ainda disputam espaço nos holofotes. Ele aponta como exceções Simone Mendes, Lauana Prado e Ana Castela, que costumam convidar outras cantoras para seus projetos. “Sinto que há uma competição feminina, principalmente depois que a Marília Mendonça se foi. Ela fazia questão de participar de tudo, de cantar com todo mundo. Hoje vemos poucas cantoras fazendo isso”, avalia.
Já a cantora Valéria Barros acredita que, hoje, a união entre mulheres no sertanejo é facilitada. “Na nossa época, não tinha rede social, era até mais difícil encontrar e marcar shows. Hoje, isso mudou”, reflete. A primeira letra de Valéria (“Briga com Ela”) foi assassinada ao lado de outra compositora, Fátima Leão, que a incentivou a seguir na carreira. “Eu nem sabia que tinha esse dom. Foi por força dela que comecei”, conta.
Composições em grupo
Veteranas da composição, como Fátima Leão e Roberta Miranda, veem com naturalidade as mudanças no meio, inclusive o fato de hoje muitos compositores assinarem uma só música. “Hoje existe uma fábrica de compositores, uma nova modalidade. Nós temos de aceitar as mudanças. Ora, se a própria vida é mutável, por que não a música? Mas eu, Roberta Miranda, prefiro compor sozinha”, afirma. Fátima concorda: “Hoje tem muito mais gente compondo, o volume de músicas é muito maior”.
Segundo Fátima, tudo é inspiração quando escreve: a vida no campo, os amores e desamores. “Na hora de compor, não penso em homens ou mulheres. Às vezes, sigo pela maior procura, que é a masculina. Faço música pra quem está de fora do meu muro.”
Fátima é uma exceção à regra. Com carreira consolidada há três décadas, assinou sucessos como “Dormi na Praça”, de Bruno e Marrone, e segue emplacando hits com sua caneta. Ela consta na escassa lista do Ecad de compositoras sertanejas com mais arrecadações em shows em 2024, ao lado de Bia Frazo (com “Vai Lá em Casa Hoje”), Lari Ferreira (com “A Maior Saudade”), Marcia Araujo (com “Ficha Limpa”) e Thauane Fontenelle (com “Seu Brilho Sumiu”). Em uma lista com 100 músicas, só 16 são assinadas por mulheres — a maioria delas, em parceria com outros homens. Esse motivo pode estar em uma tendência atual no sertanejo: os campings de composição.
Trata-se de encontros realizados em fazendas ou locais afastados, onde artistas se reúnem por dias para compor em grupo. A ideia é aproveitar a troca e a inspiração coletiva para criar muitas músicas em pouco tempo.
Essa “maratona criativa” ganhou força no Brasil nos últimos anos, como forma de acelerar a produção e descobrir novos talentos. “É uma prática incorporada do mercado internacional. A Beyoncé, por exemplo, assina uma música ao lado de diversos compositores”, aponta Marcão. “Há uns 20 anos, os compositores eram marginalizados. Depois passaram a se organizar melhor, a se profissionalizar. Hoje em dia, no sertanejo, é mais fácil o compositor determinar o que o artista vai fazer do que o contrário.”
Para Maria Cecília, o problema é que, nesses campings, os homens ainda são maioria. “Por isso, idealizamos um encontro só para mulheres”, conta. Assim nasceu o Maria Vai com as Outras, camping com foco nas compositoras. “É um carinho, uma atenção para tantas mulheres talentosas que têm muito a dizer. Esses encontros são cheios de afetos e trocas maravilhosas”, conta.
A produção sertaneja no Brasil virou uma indústria multimilionária, bem distante das origens rurais de mais de um século atrás, quando a música era cantada por trabalhadores do campo. Hoje, o gênero opera com estruturas profissionais complexas, envolvendo empresários, gravadoras, produtoras e um calendário intenso de shows. Os campings de composição simbolizam essa profissionalização, onde dezenas de compositores se reúnem para criar músicas sob demanda, muitas vezes já direcionadas a artistas ou tendências.
Com tantos encontros e canções sendo feitas em ritmo industrial, como criar um hit que se destaque? “Não existe fórmula mágica, mas existe o que é comercial”, diz Maria Cecília. “Às vezes, uma música vira hit de forma inexplicável, mas, claro, existem caminhos que propiciam essa conexão imediata com o público”, conta. “Tanto eu como o Rodolfo temos em mente, mesmo na contramão das tendências, que manter a qualidade é primordial. Temos responsabilidade com o conteúdo que criamos e optamos por canções atemporais.”
O futuro do sertanejo passa por essas frestas. O tempo das duplas masculinas monopolizando a dor de cotovelo e exaltando o “agro é pop” já não dá conta. Há mais vozes na roda — seja nas composições que colocam a mulher como sujeito do desejo, seja na coragem de jovens artistas em cantar o interior com outras vivências, menos normativas e mais plurais.
* Esta matéria foi publicada originalmente na edição da Revista Noize que acompanha o vinil de Catto, Caminhos Selvagens, lançado pelo Noize Record Club