A Nação Zumbi celebrou em grande estilo os 30 anos do clássico Afrociberdelia (1996). A banda apresentou o repertório do disco no Theatro Municipal de São Paulo, acompanhada pela Orquestra Experimental de Repertório do Municipal, sob regência do maestro Wagner Polistchuk. Foram duas sessões, na segunda (2/2) e na terça-feira (3/2).
O álbum foi executado na íntegra e na ordem original das faixas. Jorge Du Peixe (vocal), Dengue (baixo), Toca Ogan (percussão), Marcos Matias e Da Lua (tambores), Tom Rocha (bateria) e Neilton Carvalho (guitarra) entraram no palco já com “Matheus Enter”. No primeiro momento, a voz do vocalista se misturava aos arranjos orquestrais e à cozinha da banda, o que dificultava um pouco a audição. Mas bastaram alguns minutos para que o som se equalizasse e o público pudesse apreciar cada detalhe dos arranjos sonoros especiais para a ocasião.
A orquestra deu ainda mais magnitude a uma sonoridade que já nasce encorpada. A percussão fez bonito sobre o tapete de violinos, violoncelos, contrabaixos e sopros. E a separação física entre banda e orquestra — com a banda tocando de costas para os instrumentistas — não impediu a sinergia: volta e meia, Dengue virava-se para interagir com os músicos da orquestra, mostrando sintonia total.
Os destaques ficam para a instrumental “Quilombo Groove”, quando Jorge Du Peixe deixa os vocais de lado e assume a percussão, e “Criança de Domingo”, que ganhou contornos grandiosos com os arranjos da orquestra, evocando uma trilha sonora cinematográfica. Os clássicos, claro, incendiaram a plateia: “Sobremesa”, “Etnia”, “Corpo de Lama” e “Manguetown” foram recebidas com entusiasmo.
Jorge Du Peixe estave em constante conexão com a plateia. Em momentos mais explosivos — como nos em “Maracatu Atômico” —, o público vibrava, injetando energia no ambiente pomposo do Theatro. Quando alguém gritava “viva Chico Science”, seus punhos se erguiam em sinal de reverência. Em certo momento, um pedido ecoou da plateia: “toca ‘A Praieira’!”. O vocalista respondeu com bom humor: “vamos tocar uma que não é do disco…. mas essa daí, não” [risos]. A brincadeira faz sentido: a faixa pertence a Da Lama ao Caos (1994), álbum que já ganhou uma extensa turnê comemorativa no ano passado.
O Theatro Municipal, que abrigou a revolucionária Semana de Arte Moderna de 1922, mostrou ser exatamente o espaço que a Nação Zumbi merece ocupar. 30 anos depois, a banda segue reconhecida como uma das mais revolucionárias do país, pelo manguebeat e proposta de misturar o tradicional e o cosmopolita, a ancestralidade e a evolução cibernética.
Desde então, inúmeras bandas beberam dessa fonte ao misturar música brasileira com rock — de Raimundos a Devotos ou Planet Hemp, entre tantas outras. As guitarras somadas à percussão que faz o coração bater mais forte se espalharam pelo país e hoje ecoam nos blocos de carnaval de rua. O movimento, inclusive, será homenageado neste ano pela Grande Rio, uma das principais escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro.
O show terminou com um bis de “Maracatu Atômico”, com a plateia cantando em pé a faixa que Jorge Mautner compôs em um arranha-céu da capital paulista, dedicada ao Recife. Ao final do espetáculo, ouvi um amigo dizer para outro: “o Theatro Municipal não é mais o mesmo”. A colocação não poderia ter sido melhor.
Revolução do mangue
Afrociberdelia é um marco na trajetória do Nação Zumbi. Último álbum gravado com Chico Science, que morreria no ano seguinte em um acidente de carro, o disco também marca a estreia de Pupillo na banda. Após o sucesso do álbum de estreia, produzido por Liminha, o grupo convidou Eduardo Bid para a produção — mantendo a percussão do maracatu como protagonista e cravando a importância do manguebeat na história da música brasileira.


