O jazz tem muitas casas, e Santo Antônio do Pinhal é uma delas. De 22 e 24 de agosto, esse foi cenário do Jazz na Serra, festival gratuito na Mantiqueira que encheu o centro da cidade, enquanto o público, de todas as idades, mantinha os ouvidos atentos. Nesta terceira edição, o evento cresceu.
Dos quatro artistas no ano de estreia, em 2019, o número subiu para dez atrações. E o próprio festival chegou mais longe antes mesmo de a primeira banda subir ao palco. Para o diretor Pedro Pimenta, também ex-secretário de Turismo e Cultura de Santo Antônio do Pinhal, foi uma surpresa ver como o Jazz na Serra levou muitos turistas até lá.
“É muito legal que a gente tenha conseguido mostrar que cultura gera movimento e pode ser um motor econômico, capaz de fazer com que uma cidade de 7 mil habitantes tenha mais fluxo fora de temporada, ao ponto de estarmos com as pousadas 100% ocupadas”, divide.
Como fã de música, Pedro compartilha: “a ideia era fazer um festival ao qual a gente gostaria de ir”. Para que isso acontecesse, contou com Joabe Reis assinando a curadoria do festival. Trombonista, compositor e produtor, Joabe já esteve em festivais de jazz ao redor do mundo, experiência que fez a diferença na hora de pensar na programação.
“Para além de tocar, sempre saio de casa para ir a shows. E quando eu estou fora do Brasil, também. Acho que esse background, de certa forma, me ajudou a visualizar o festival.” Assim o line-up foi formado, unindo artistas que estão em diferentes momentos de suas carreiras, mas que nos palcos do Jazz na Serra, foram ouvidos com a mesma curiosidade por quem estava presente.
“O jazz nasceu nas ruas, na periferia americana, mas hoje, nem todos têm acesso a ele”, Joabe analisa. “Festivais como esse, gratuitos, são muito importantes porque você acaba captando a atenção de pessoas que nunca tiveram a oportunidade de presenciar um show de jazz, muitas vezes com ingressos caros.” O que garantiu a estrutura e a gratuidade do festival foi a sua seleção no Edital Fomento CultSP, que conta com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc). O Jazz na Serra figurou entre os vinte projetos escolhidos dentre os mais de mil inscritos.

A tradição dá as caras
A noite de sexta-feira (22) começou com choro, gênero que surgiu no Rio de Janeiro no século XIX e tem sua tradição mantida por grupos como o Regional Ginga Ligeira. No palco da Praça do Artesão, o quinteto celebrou seus dez anos de estrada com composições autorais, intercaladas com histórias sobre as canções. No show seguinte, a tradição continuou pairando no ar.
Filho de Arismar Espírito Santo – multi-instrumentista que colaborou com artistas como Hermeto Pascoal e Toninho Horta –, Thiago Espírito Santo se apresentou em sexteto e estreou um novo repertório que mescla jazz, funk e outros ritmos, como o bolero. Para encerrar, tocaram “Levanta a Poeira”, uma homenagem a Dominguinhos.
Na serra e na rua
No sábado (23), o Jazz na Serra convidou o público a se movimentar para além do embalo da música, isso porque a programação se dividiu em dois palcos: um na Praça do Artesão, outro no Boulevard Araucária. Ir de um a outro não levava mais do que cinco minutos.
Esse foi o trajeto feito pela Orleans Street Jazz Band, que fez da rua o seu palco. Inspirada pela atmosfera de Nova Orleans, berço do jazz, a banda atraiu olhares curiosos e foi acompanhada pelo público, que começava a se preparar para o dia. Uma das principais saxofonistas do Brasil, Sintia Piccin chegou em sexteto no Boulevard Araucária. Ela apresentou canções do seu primeiro EP, Freedom of Mind (2019) assim como composições mais recentes, caso de “Fubá” e “Downtown SP”.
Salomão Soares & Vanessa Moreno ocuparam um dos horários mais marcantes de todo festival, quando o dia se transforma em noite. As faixas de Outros Ventos (2025) disco lançado em junho de 2025, foram as que mais tiveram espaço no setlist. No fim do show, Vanessa convidou a plateia para harmonizar uma canção de Hermeto Pascoal.
“Gosto das músicas que não têm texto, porque às vezes elas nos atravessam em outro lugar”, disse. A apresentação mais dançante do festival ficou por conta da Dejavu Session, projeto encabeçado pelo curador do festival, Joabe Reis. Criado em 2022, o projeto se inspirou nas noites do Na Mata Café, em São Paulo, que movimentava as jazz sessions da cidade no início dos anos 2000.
É esse o déjà vu dos instrumentistas, cujos arranjos interessantes também deixam o público se perguntando: “onde é que já ouvi isso antes?”. No Boulevard Araucária, foram de João Donato a Yussef Dayes. Quem ficou até o fim do show da Dejavu Session não encontrou muito espaço na Praça do Artesão, onde o público se reunia à espera de Hamilton de Holanda.

Acostumado a se apresentar em eventos de jazz do mundo todo, essa recepção chamou a atenção de Hamilton, que aprecia a troca única com os brasileiros. “É uma sensação de pertencimento e de gratidão, poder devolver tudo que eu aprendi e o que me alimenta, através da música e do show”, conta à Noize.
“O Brasil é muito querido lá fora. A gente vê como a música brasileira é respeitada e admirada por lá, então chegar e tocar no Brasil, tendo uma recepção dessas, quer dizer que a gente tá no caminho certo.” Conhecido por tocar com um bandolim de dez cordas, Holanda já foi indicado 17 vezes ao Grammy. Em setembro, vai começar a trabalhar um novo álbum, inspirado em Jorge Ben.
A noite chegou ao fim com Ellen Oléria, que fez um baile na praça, convidando o soul, o funk e o samba a se juntarem ao jazz. “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil; “Ébano”, de Luiz Melodia; além de “Jorge da Capadócia” e “5 Minutos”, de Jorge Ben, foram algumas das canções que mais arrancaram reações do público.

2026 está logo aí
No último dia do festival (24), a cidade já começava a ficar mais vazia, mas isso não afetou a animação de quem se programou para ver as últimas atrações: Trio Corrente e Americana Jazz Big Band. Sob o sol forte do meio-dia, o público se refugiou nas sombras e, quem não conseguiu um espaço, se protegeu como dava.

Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Edu Ribeiro (bateria) agradeceram a quem enfrentou o calor para vê-los, e em troca, presentearam o público com um samba-jazz moderno, além de muito entrosamento entre si – algo reconhecido também pelas duas estatuetas do Grammy e do Grammy Latino que carregam na bagagem.
Ao Jazz na Serra, o Trio Corrente mostrou seus arranjos de músicas de Tom Jobim e Chico Buarque. O Clube da Esquina também entrou na roda. “Estamos perto de Minas, então a gente tinha que tocar essa canção”, brincaram. A Americana Jazz Big Band enfrentou sem medo a responsabilidade de encerrar o festival.
Com quase 20 instrumentistas no palco da Praça do Artesão, essa estrutura resgata algo que se popularizou nos Estados Unidos na Era do Swing, período que teve seu ápice ocorreu entre as décadas de 1930 e 1940. Aqui no Brasil, Sylvio Mazzuca liderou uma das mais famosas big bands nacionais, a Sylvio Mazzuca e Sua Orquestra.
No Jazz na Serra, o grupo acenou a grandes nomes do estilo, como Count Basie e Quincy Jones, que foi maestro antes de ganhar destaque como produtor musical. Mas também reservou espaço para a música brasileira, sobretudo com a participação de ODARA, que emprestou sua voz em “Dindi”, de Tom Jobim, um dos grandes momentos da Americana Jazz Big Band e também do festival.
Antes de fazer as malas e voltar para casa, sobrou tempo para Joabe Reis pensar em 2026. “Se eu for convocado para a próxima edição como curador, tenho planos de trazer alguns artistas que são referências e também criar espaço para os novos artistas que estão chegando na música instrumental”, comenta Joabe. “Ano que vem, tentaria dobrar essa aposta e fazer um festival ainda mais incrível, quem sabe trazer alguns nomes internacionais.”