Audiofilia na moda: vinil e som hi-fi viraram obsessão do mercado fashion

04/02/2026

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Por: Damy Coelho

Fotos: Reprodução/Loius Vuitton, Burberry, Valentino; Divulgação/Ale Virgillio

04/02/2026

Dando um breve scroll nas redes sociais, você já deve ter notado uma tendência: influenciadores de diferentes nichos comentando a mais nova fixação por discos de vinil, ou o boom de listening bars — espaços mais descolados que um boteco comum, que investem na audição musical de qualidade, com curadoria e um imponente (muitas vezes, bonito e aparente) sistema de som. 

Esses são alguns indícios de que a audiofilia está na moda. No caso, literalmente. Antes restrita a um espaço nichado, a prática de ouvir música em alta definição — incluindo o kit completo: vinil, toca-discos, caixas de som — agora está presente em campanhas de grifes de luxo. Em um momento em que o setor busca novos códigos de desejo, o hi-fi surge como símbolo de tempo, atenção e ritual, valores raros em meio à aceleração da vida contemporânea. 

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De Pharrell Williams ao Little Dragons (ou da Louis Vuitton à Chanel)

O cruzamento entre moda e audiofilia ficou evidente na última Semana de Moda de Paris, no desfile da coleção outono-inverno masculina da Louis Vuitton. Sob direção criativa de ninguém menos que Pharrell Williams, a marca apresentou a coleção em uma casa cenográfica, idealizada em parceria com o escritório japonês NOT A HOTEL

Os modelos desfilavam entre móveis de assinatura, paredes de vidro e um imponente listening room, com caixas de som, toca-discos e vinis estampando a icônica logomarca da maison. Naquele espaço, os vinis ganharam status de obra de arte.

Por falar em desfile, a Hermès também chamou a atenção no último sábado (24/1) ao apresentar uma bolsa que remete a aparelhos de rádio vintage, logo eleita ao status de “must have”.

Essa relação entre moda e música vem sendo percebida no mercado desde o ano passado. A Chanel, por exemplo, enviou como press kit vinis e toca-discos para promover o perfume Chance, e ainda organizou uma roda de conversa com Solange, Neneh Cherry, Angèle e Yukimi, do Little Dragon, em um projeto co-criado pela Wax Poetics, publicação referência no mercado do vinil. 

Já a Burberry lançou um vinil zootrópico para acompanhar a coleção verão 2025, inspirada no espírito dos festivais, desenvolvido pelo designer Drew Tetz. No disco, toca o hino rave “Sweet Harmony”, do grupo Liquid.

Leia também: 10 picture discs do designer Drew Tetz que queremos na nossa coleção

A Valentino, por sua vez, inaugurou um listening room em sua flagship de Nova York, o L’Atelier Sonoro. O luxuoso espaço permitia, a quem circulasse por lá, parar um pouquinho para apreciar um som de qualidade. 

E essa tendência não se restringe às casas de luxo. No Brasil, a Hering entrou na onda ao reunir Bruna Marquezine e Seu Jorge em uma campanha natalina que também ganhou edição em vinil, reforçando como a música — em seu suporte físico e simbólico — voltou a ser um ativo cultural e estético para as marcas.

Na campanha, eles cantam “Descobridor dos Sete Mares”, clássico de Tim Maia, do álbum homônimo de 1983.

Tempo é rei

Hoje, a audiofilia entra no universo da moda e do lifestyle como símbolo de estética e autenticidade. Conversamos com Chantal Sordi, editora de comportamento da Elle Brasil que também toca na noite como DJ. Para ela, a audiofilia está na moda por motivos que vão além do boom dos listening bars ou do crescimento na venda de vinil: é uma questão de comportamento pós-pandêmico:

Existe uma fadiga do consumo rápido de música. Após anos ouvindo tudo em fone bluetooth, playlist de algoritmo e som comprimido, as pessoas estão redescobrindo o prazer de ouvir com atenção

É como se as pessoas estivessem redescobrindo o prazer do ritual de ouvir música — ou seja, de pegar um vinil, trocar de lado, colocar a agulha e ouvir cada detalhe de um disco em alto e bom som — especialmente se for em uma caixa de alta fidelidade. Nos acostumamos a ouvir música sempre fazendo outra coisa, e objetos que nos façam prestar atenção somente na audição em si, como acontece com o vinil ou os listening rooms, são vistos hoje como símbolos culturais com valor de mercado para a indústria fashion.

“Uma vitrola em um press kit ou um vinil em uma campanha comunica imediatamente que aquela marca se importa com processo, com tempo e com emoção, não só com imagem”, defende Chantal. “É por isso que iniciativas como o L’Atelier Sonoro da Valentino ou o vinil zootrópico da Burberry fazem sentido: elas transformam o som em algo visual, exclusivo e memorável, que vai além de um simples lançamento de coleção e tem muito mais potencial de viralizar nas redes sociais”.

A especialista em tendências e head de estratégia da Float Vibes, Nina Grando, concorda:

Pegar num disco, ver o encarte, ir a um listening bar, ou à audição de um disco. O ritual de ouvir música e os encontros proporcionados por ela vêm sendo valorizado. Há um luxo em você parar um pouco o tempo que é tão corrido

Virgil Abloh e as caixas de som customizadas

Mas a associação entre hi-fi e moda estava sendo pavimentada antes mesmo da pandemia, por nomes como Virgil Abloh. Antes de fundar a Off-White e ser diretor criativo da Louis Vuitton, Abloh começou sua carreira como DJ e produtor musical. Era alguém que circulava pela moda e pela música com maestria e viu potencial ao unir essas duas paixões — assim como hoje faz Pharrell Williams, por exemplo.

Essa ligação entre som e estética permeou toda a trajetória do artista, que faleceu em 2021. Um exemplo emblemático é a codireção do clipe “Fashion Killa”, de A$AP Rocky e Rihanna (na época, ainda um proto-casal) ou da parceria emblemática com Kanye West na capa de Yeezus (2013).

Em sua exposição Figures of Speech (2019), no Institute of Contemporary Art de Chicago, figurinos e instalações sonoras coexistiam, permitindo que o público experimentasse a moda como uma performance sensorial. O som não era pano de fundo: era parte do objeto artístico e símbolo de desejo.

Foi ele, por exemplo, quem ajudou a introduzir no metiê fashion o nome de Devon Turnbull, engenheiro de áudio e designer da Ojas, marca conhecida por criar belíssimas caixas de som. Hoje, a Ojas assina caixas estilizadas para a Supreme.

Leia também: 6 caixas de som que também são obras de arte

Com a pandemia, ouvir música em casa se tornou um hábito cotidiano, impulsionando o crescimento do vinil e reacendendo o interesse por sistemas de som de alta fidelidade. No período pós-pandêmico, esse desejo ganhou novas formas e escala, consolidando o vinil como objeto de culto e o hi-fi, como linguagem estética. A moda, atenta aos sinais do comportamento, percebeu rapidamente esse movimento.

É consenso entre as especialistas ouvidas que a audiofilia tem tração para seguir forte em 2026, por se tratar de uma tendência de comportamento e, inclusive, uma marca de identidade. O hi-fi, pelo visto, seguirá sendo cool.

“Assim como a moda vive um retorno ao artesanal e ao sensorial, a música passa pelo mesmo processo. Audiofilia hoje não significa só equipamento caro, mas uma postura: ouvir com mais calma e propósito. Acho que isso tende a crescer em 2026 por se conectar a uma busca maior por experiências reais, menos mediadas por telas e mais ligadas ao tempo presente”, resume Chantal.

“Tudo o que pede calma, tudo o que pede pausa, só vai crescer ainda mais em 2026”, completa Nina Grando.

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