Vinil sem vitrola: por que tanta gente compra discos mesmo sem ter onde tocar?

30/01/2026

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Por: Damy Coelho

Fotos: Acervo Pessoal, Divulgação/Ayumi Ranzini, Pixabay

30/01/2026

Em outubro de 2025, a Carol Monteiro, da página Pilhando, postou um vídeo mostrando sua mais nova aquisição: o vinil de Oproprio (2024), estreia de Yago Oprorio, lançado pelo Noize Record Club.

Até aí, tudo bem — trata-se de uma edição em vinil azul, e Carol é muito fã do cantor. O que chama a atenção é ela ter confessado que não sabe como vai ouvir o disco. “Assinei a Noize e não tenho uma vitrola. E também não cancelei, porque chegaram outros vinis perfeitos!”, disse ela.

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Mas o que motiva uma pessoa a comprar vinis — e, às vezes, até começar sua própria coleção — sem ter uma vitrola? A explicação mora em vários fatores: o fetiche pelo analógico por parte da Gen Z, a valorização da mídia física em detrimento do streaming e o comportamento de fã são alguns dos exemplos. Fomos atrás de especialistas e fãs de vinil para entender melhor este fenômeno.

Conexões reais em um mundo acelerado

Carol tem 25 anos e o namorado, Bruno Lima, 27. Eles integram a Geração Z, que representa os nascidos entre 1997 e 2012, parcela importante nesse retorno do analógico que bomba nos feeds das redes sociais.

Apesar de terem crescido como “nativos digitais”, muitos jovens da Geração Z estão valorizando experiências analógicas como resposta à fadiga digital e à busca por autenticidade: relatórios como o Key Production 2025 destacam o interesse crescente pela mídia analógica por Gen Zs e millennials, como CDs e vinis. O The Guardian até chamou a atenção para jovens que optam pelos chamados “dumb phones” (celulares antigos ou sem aplicativos, marca dos aparelhos “smarts”).

Um estudo realizado em janeiro de 2025 pela Vinyl Alliance, organização internacional que reúne players do mercado do vinil, ajuda a dimensionar a relação de uma nova geração com os LPs. A pesquisa ouviu 1.100 pessoas da geração Z e 1.052 indivíduos das gerações X e millennial, em diferentes países, para entender como cada grupo se relaciona com o bolachão. O resultado é claro: a Gen Z está entre os maiores consumidores de vinil da atualidade — e nem sempre isso significa ter uma vitrola em casa.

Segundo o levantamento, 76% dos jovens entrevistados compram discos ao menos uma vez por mês. Para 47%, o vinil é um produto caro, mas vale o investimento por ser algo “para a vida toda”. A relação com o LP passa menos pela praticidade e mais pela experiência: 84% compram seus discos em lojas físicas, e 57% dizem preferir esse ambiente pelo ritual e pela possibilidade de conversar com outros entusiastas.

Leia também: Gen Z ouve música em vinil e impulsiona vendas em lojas físicas, revela pesquisa

Esse apreço pelo vinil também passa, claro, pelo artista. É o caso da cantora do Distrito Federal, Pratanes. Recentemente, ela realizou o desejo de ver seu álbum, Azeite (2024), materializado em vinil — e ela também não tinha um toca-discos. “Até então, minha relação com os vinis era de admiração, uma afinidade meio intocável”, conta. “Sempre achei mágica essa coisa da música estar impressa num objeto, um código que vira som, sem internet, sem mensalidade.”

O vinil de Azeite nasceu de uma parceria com o coletivo Capivara do Ar, de Brasília, que escolheu o disco para inaugurar um selo dedicado ao formato. “Era um sonho que parecia muito distante, principalmente porque todo o processo do álbum foi independente e caseiro, feito no meu quarto”, lembra a artista. “Agora, em 2026, isso está materializado e começando a chegar nas pessoas. Isso é o sentido de tudo.”

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Mesmo sem vitrola, Pratanes já comprava discos em sebos — tanto por admiração estética quanto pela vontade de ter seus álbuns favoritos “fora das nuvens”. “Caso algo aconteça e todas as plataformas explodam”, brinca. O toca-discos só chegou depois, como presente da família. “Demorei até ter coragem de colocá-lo pra tocar.”

Vinil como objeto que marca a identidade

Para a pesquisadora e especialista em tendências Nina Grando, o fenômeno envolve camadas diferentes. Uma delas é o que ela chama de consumo conspícuo — aquele feito para ser visto e compartilhado, inclusive nas redes sociais. “O vinil conta quem você é. É uma forma de se comunicar com o outro. As pessoas batem o olho e entendem seu gosto, sua curadoria”, explica. “Tudo vira conteúdo”.

Mas reduzir o comportamento apenas à estética seria simplificar demais. Nina aponta um segundo vetor: o medo do desaparecimento das músicas, que podem se perder em plataformas de streaming quando essas se tornarem obsoletas, ou mesmo que um artista saia dessas plataformas. O fato de não podermos tocar nessas músicas (no caso, literalmente) junto ao medo de que as plataformas sumam da web, como já aconteceram com diversas redes sociais, ajuda a explicar o fenômeno.

É quase um fear of vanishing media. Se eu sou fã de um artista, o que faço se ele sair das plataformas? Como vou escutá-lo? Existe o receio de que um filme, um disco, uma obra suma do catálogo de uma plataforma. A mídia física vira algo pé no chão, um registro que fica.

Nesse sentido, mesmo quem não tem toca-discos encontra valor em juntar LPs. “Às vezes a pessoa leva o disco pra tocar na casa de um amigo, numa festa, ou simplesmente fica feliz em tê-lo”, analisa. “Entre tudo o que ela escuta no streaming, aqueles discos físicos são a curadoria final — o que mora na casa dela.”

O desejo pelo vinil como material, que serve tanto como objeto de decoração quanto como uma marcação de quem se é no mundo, também passa por Carol e Bruno, o casal da página Pilhando. “Pra gente, o vinil é uma extensão da nossa personalidade”, explicam. “Ele mostra quem somos, o que escutamos. É totalmente o oposto do streaming.”

Mesmo sem tocar os discos no início, ter uma coleção de vinis, para eles, fazia sentido. “Funciona como álbum de figurinha”, dizem. “A gente compra as figurinhas antes de comprar o álbum. Tem relação com decoração, coleção, memória — e também com comprar algo diretamente do artista que você ama.”

Achamos que o vinil, além da música, é um objeto de arte que traz memórias da nossa vida, comunica quem nós somos, o que a gente ama. E é sempre bom ter um pedaço do artista que você gosta com você.

O toca-discos veio depois, quando o investimento coube no orçamento. “A gente sempre soube que teria um em algum momento”, contam. “Enquanto isso, íamos garimpando vinis e comprando edições limitadas, como as da Noize“, define. “É muito prazeroso ver sua coleção de discos aumentando cada vez mais, e ainda com uma curadoria maravilhosa.”

Nativa do mundo digital, a geração Z não viveu a transição do analógico para o streaming. Para Nina, isso ajuda a explicar o fascínio pelo tangível. “Existe uma necessidade de sentir coisas que o digital não proporciona: o cheiro, o toque, o projeto gráfico”, afirma. “O vinil pede pausa. Existe um ritual ali — escolher, tirar da capa, colocar a agulha. É o oposto da playlist que toca enquanto você faz outra coisa.”

Mais do que nostalgia, o vinil se torna uma resposta ao excesso de velocidade. “É quase um ‘opa, para o mundo que eu quero descer’”, resume Nina. Assim, mesmo sem vitrola, o disco cumpre seu papel: materializar identidades e oferecer um intervalo na efemeridade do digital.

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30/01/2026

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Damy Coelho