“Preciso dar voz ao Lúcio”: Silva lança “Rolidei” e revela lado íntimo e artístico em documentário

20/04/2026

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Por: Pedro Figueiredo

Fotos: Divulgação/Wallace Domingues

Um dos expoentes da nova MPB, o cantor e compositor Silva dá um novo passo na carreira com o lançamento de Rolidei (2026), que chegou às plataformas no dia 8 de abril. O projeto, sucessor de Encantado (2024), vem acompanhado de um documentário curta-metragem, no qual o artista se propõe a compartilhar uma parte da vida dele, até então, deixada no âmbito particular.

Batizado de SILVA, LÚCIO (2026), o filme tem direção de Carol Pires e William Sossai e foi exibido no dia da audição do álbum, em um cinema lotado por convidados, imprensa e fãs entusiasmados.

LÚCIO, SILVA

No filme, o cantor explica que deu um nome à própria voz e que gostaria de mostrar mais do Lúcio. A partir disso vemos depoimentos da mãe, do tio e do irmão do artista, além, claro, dele próprio. “Conseguir fazer um doc que eu consiga dizer mais de onde eu venho, por exemplo, do momento em que meu avô descobriu que eu era gay,” exemplifica em conversa com a Noize.

“Então, isso é muito importante para mim também, porque eu coloco o Silva num lugar muito estético assim, né, da musicalidade. E é legal vir com esse lugar humano, das dores, das inseguranças e dos medos. E eu achei que seria legal compartilhar também, porque a gente é um pouco de tudo isso.”

Silva, que evita ao máximo mostrar seus familiares em redes sociais, explicou que a estratégia para ficar mais confortável com a ideia foi trazer pessoas de confiança para o projeto audiovisual. 

“O Sossai, que fez a direção de fotografia, filmou vários clipes meus, então a gente já tem muita intimidade. Num de nível assim: em “Feliz e Ponto” tinha ficado pelado para a câmera, sabe? Eu sou extremamente tímido, então, ele é um cara que me conhece bem.”

“E Carol Pires que é um figuraça, né?”, completa o artista. “Uma jornalista maravilhosa, que me arranca risada, me deixa super à vontade para contar minhas coisas. Então, eu tava bem munido ali de pessoas que me deixavam muito à vontade.”

Polêmicas e descontentamentos

O documentário também aborda o episódio no qual o artista, que estava se apresentando em Brasília, desabafou no palco sobre descontentamentos em relação à indústria musical.

Foi uma coisa que realmente saiu. Foi ‘1, 2, 3 e vai.’ Essa é uma coisa tão maluca para mim, no dia seguinte àquela repercussão tinha um gente me ligando, até a Ivete [Sangalo] me ligou para me tranquilizar. Então foi uma coisa muito maluca.

“Eu sou o tipo de pessoa tão controlada que isso talvez seja até um problema”, reflete o artista. “Mas esse dia foi muito forte para mim, era 7 de setembro, em Brasília, Bolsonaro preso e era um festival superlegal que eu tocava só às 10 da noite”.

Apesar de estar num momento de felicidade, todo o contexto político do momento trouxe à tona também uma indignação que ele estava guardando há algum tempo. “Aquele dia eu perdi o controle”, diz Silva. “Eu acredito em muita coisa que eu falei, que eu realmente acredito e reitero. O que eu não acho legal, na minha visão, é que eu não gosto de citar nomes”.

A repercussão nas redes sociais gerou memes, com os quais o artista revela ter achado graça. “Quando fizeram a figurinha lá, eu com a mão na cintura ‘provoke society’, pô, agora vira Carla Sofia Gascón da MPB, nem que seja por uma semana”, brinca. 

Ele conta ainda que Paula Lavigne foi uma das pessoas que ligaram para ele após o episódio. Eu estava no mesmo hotel que ela e Caetano ela falou assim: “Ah, Silva desce aqui para falar com a gente”. 

Rolidei

Apesar de ser o sétimo álbum de Silva, a audição foi a primeira vez em que ele se arriscava num projeto dessa dimensão. O capixaba explicou que a ideia partiu mais das pessoas ao seu redor do que dele propriamente. 

“Eu sou meio caramujo, meio rato de estúdio, aquela coisa. Então, quando o álbum fica pronto, eu só quero lançar e todo mundo falou: ‘Não, vamos comemorar, vamos fazer um evento. É importante as pessoas ouvirem, é legal você ver a reação das pessoas”, diz.

O álbum surgiu em um contexto de pós-carnaval, em 2025. Em um festival que ocorreu já no final das celebrações carnavalescas, Silva teve que substituir Pedro Sampaio, tocando em um horário muito mais tarde do que o que costuma se apresentar. “Eu voltei desse carnaval tão feliz, disse: ‘Cara, como é que é massa viver de música, eu tô fazendo isso há tanto tempo”, recorda.

Falei: ‘Cara, eu preciso fazer um álbum que tenha essa sensação que eu estou sentindo agora: voltei do carnaval, fiquei março inteiro aqui em casa, compondo, fazendo os meus bons drinks, tomando o sol, com o violão na mão. E aí começou a sair o Rolidei

O resultado pode ser ouvido ao longo das 12 faixas do álbum, escrito nas férias do artista. Para ele, o período afastado dos palcos foi essencial para a composição deste trabalho. “Eu amo ser um artista de estúdio, amo a parte composição, a parte artesão da coisa, sabe? Adoro”. Os shows, ele conta, nem são encarados como trabalho. “Aprendi com o Hélio Delmiro, que tocava com Elis Regina. Ele fala que o trabalho do músico é ensaiando, é no estúdio e o show não é trabalho, é uma celebração do que todo o trabalho que você fez.”

É no estúdio que Silva se sente mais à vontade para expressar ideias. A música, aliás, o acompanha em quase todos os momentos. “Tenho um playlist de música ambiente, playlists assim para eu meditar antes de show, para eu ter um dia quando eu tô muito estressado, quando tô muito ansioso”, afirma.

Acredito muito no poder da música para qualquer coisa que a gente queira fazer: para festa, para entretenimento, para fazer a gente pensar, para expandir a cabeça. E eu gosto de misturar isso no meu trabalho

O disco também tem como uma de suas características uma inspiração no trabalho de João Donato, um dos artistas favoritos de Silva — o músico tem, inclusive, uma foto de Donato tocando piano feita por Jorge Bispo pendurada na parede do estúdio de sua casa. “Ele é o meu grande herói da música. Talvez o anti-herói também.”

“O João era tão legal, tão divertido e tocava muito, né? Quando gravamos juntos, ele tinha 84 anos. E era o melhor músico da sala. Em termos de performance, mesmo, a mão ali tocando muito.”

Refêrencias musicais

“Eu quero ser esse tipo de artista, assim como o Donato é, com uma música capaz de te transportar para outro lugar”, explica Silva, que tem também como mestres nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moacir Santos.

“Também tô numa fase Mariana Lima, tô apaixonado. Ela tem um coolness, né? Até hoje, ela é tão maneira, ela é maravilhosa.” compartilha o cantor que também tem ouvido clássicos como Images on Guitar (1972), de Baden Powell e Estudando o Samba (1976), de Tom Zé, além de projetos recentes, como o recém-lançado Kiss All the Time. Disco, Occasionally. (2026, do britânico Harry Styles.

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Eu tenho uma tendência retrô. Tanto que a minha a minha diva pop predileta sempre foi Amy Winehouse, digo da nossa geração, né? Porque ela era maravilhosa, incomparável, inigualável, nunca vai existir outra, mas ela trazia essas referências de Shangri-Las de Diana Washington, das grandes do jazz e tal

O músico conta que estranha o fato de músicas atuais muitas vezes beberem das mesmas referências contemporâneas: “É como se o passado não tivesse existido para essa música chegar até aqui onde chegou.” Ele relembra um antigo professor de violão que o aconselhou a conhecer a história da música para ser um artista melhor. “‘Quer ser um músico bom, um bom produtor, um artista bom, você tem que entender das décadas’, ele falava isso para mim”, conta sobre quando ganhou um CD com gravações em MPB das décadas de 1930 a 1990.

“Então para o Rolidei, a minha pesquisa foi muito importante, sabe? Comecei a ouvir coisas da América Central que a gente como brasileiro dá uma ignorada às vezes, que é mais o Pará que tem essa referência”, explica. “E aí fui beber de tudo que é música latino-americana que tem a ver com o mar,. A música litorânea, latino-americana, que tem muito a ver comigo”.

Um dos pontos fortes do álbum é o instrumental, onde o artista mais investe tempo no momento de trabalhar as músicas. “Se a minha cama não estiver bem arrumada, eu não quero deitar, entendeu? É meio que é isso para a música.” Explica Silva, que revela que se considera mais criterioso com a bateria e prefere as orgânicas às eletrônicas. 

O músico queria ter feito a gravação do álbum com a banda toda de uma vez em estúdio, mas a logística não permitiu a realização desse desejo em Rolidei. Ele, no entanto, conta que ainda quer fazer um projeto nessa configuração.

Outro aspecto interessante do álbum é a ausência de colaborações. Silva, que já gravou com nomes como Marisa Monte, Anitta, Ludmilla, Ivete Sangalo, Carminho, Fernada Takai, Lulu Santos, Don L e muitos outros artistas, explica a decisão de não trazer um feat:

“Quando ia pensar em alguém para cantar, eu fiquei com um pouco de ciúme da música, confesso. Mas claro, tem muita gente ainda que eu quero fazer feat”, revela o artista, que cita entre os nomes com os quais gostaria de trabalhar a paulistana Céu, de quem é declaradamente fã, Rubel e Maria Gadú. “Com Criolo, colaboraria de novo, inclusive eu acho que eu faria um disco inteiro com ele. A gente sempre fala nisso”.

A trajetória artística de Silva começou pela música indie, mas o desejo  de se conectar com o público brasileiro de forma mais intensa o fez mudar a rota. Quando questionado sobre ter conseguido atingir esse objetivo, o músico diz que conseguiu “alguma coisa disso”.

“Eu gosto muito de ver entrevista, de todo mundo que eu gosto. Lembro que teve uma pergunta no Roda Viva para Elis, acho que foi a última entrevista dela. Alguém perguntou para ela: ‘Elis, você cantou para o povo? Você acha que você contou para o povo?’. Aí ela falou assim: ‘Eu não. Gostaria muito de ter contado para todo povo brasileiro, mas eu não. Infelizmente, não.”

Artista de rádio

O artista compartilha o sonho da grande estrela da música brasileira, mas compreende as limitações da indústria atual, assim como a cantora entendia.

A Elis já falava isso lá atrás, nas entrevistas dela. ‘Ó, cuidado com as rádios, hein? As rádios não estão nem tocando música brasileira, hein?’

“Hoje, o que chega para as pessoas nas rádios não dá para competir. Não tem como eu competir com o agro, não tem como eu competir com dinheiro que é investido no sertanejo, com dinheiro que é investido no funk. Não tem como”, reflete.

A MPB virou tipo uma prateleirinha, uma prateleirinha que ainda bem que ela ainda é ouvida, tem gente que gosta muito, tem festivais dedicados à MPB. A gente teve uma crescente nessa geração nova de ouvintes. Mas falar com o povo mesmo, eu acho que ainda não falei, mas fica aqui a minha vontade.

Silva ressalta que a produção foi feita em um dos anos mais difíceis da vida dele. “Muitas mudanças, família, as coisas que a gente tem na vida, né? E no meio disso, muito trabalho. Eu geralmente, quando tô fazendo disco, gosto de ter uma vida mais tranquila. Não pude ter essa vida mais tranquila.”

Apesar disso, o cantor conta que o álbum é justamente o que ele precisava: “Eu preciso ir para o palco tocando músicas que me causem o que esse álbum me causa. Porque, senão, eu ia surtar, eu ia ficar mal. A gente tá no mundo com muita notícia ruim e eu espero muito que Rolidei seja bom para mim e que, claro, que seja bom para as pessoas”, finaliza.

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Pedro Figueiredo

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