Em “Todas as Mensagens que Nunca te Enviei”, Raidol aponta o futuro do pop amazônico 

30/03/2026

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Por: Vitória Prates

Fotos: Tereza Maciel e Aryanne Almeida

Após Mandinga (2022), Raidol apresenta Todas as Mensagens que Nunca te Enviei (2026). A artista paraense, que tocou no The Town em 2025, enxerga o trabalho como “um ponto de virada”. O trabalho nasce desse lugar de transição: deixar para trás relações, expectativas e versões de si que já não fazem sentido para ela. 

Na composição, Raidol se debruçou em suas próprias experiências. Histórias de amor que nunca foram concretizadas, “mensagens muito íntimas” que ficaram nos rascunhos, silêncios prolongados, sentimentos que não encontraram espaço no tempo certo. “São coisas que eu não consegui dizer nem pra mim mesma naquele momento”, conta. Tudo que permaneceu guardado aparece com força total em Todas as Mensagens que Nunca te Enviei.

A intensidade confessional aproxima Raidol de uma tradição artística que encontra eco em Frida Kahlo, que dizia pintar a si mesma por ser o tema que mais conhecia, e em musas de marcante interpretação, caso de Maria Bethânia e Elis Regina. Aqui, o gesto se traduz em música. Se o ponto de partida é o desabafo, o caminho leva ao amor-próprio: “Eu tô me escolhendo mais”, canta, sintetizando o eixo central do trabalho.

Por mais que parta da própria vida, a artista contou com colaborações preciosas em todas as faixas: Bruno Mattos assina a composição de “Esse teu jeito assim”, enquanto Maderito Fora do Normal divide os vocais; Amanda de Paula aparece em duas faixas, incluindo “Já Deu Minha Hora”, que ganha a voz de Rebeca Lindsay; e Luê encerra o percurso em “Lovezinho”: “Não são só feats, são encontros que ajudam a dar verdade”, resume. 

Sonoramente, Todas as Mensagens que Nunca te Enviei reafirma Raidol como parte de um movimento maior. Misturando sintetizadores e linguagens contemporâneas às raízes do brega e do melody, ela constrói o que define como pop amazônico: “um som que nasce do território”, conectado às aparelhagens, às ruas e às vivências do Norte, mas aberto ao diálogo com o pop global. “Não é sobre modernizar, é sobre expandir”, diz ela, que se inspira na sonoridade que ouve em suas andanças e pesquisas musicais pelos territórios.

Batemos um papo com ela sobre o novo EP. Confira abaixo:

Você define o projeto como o início do encerramento de uma fase. O que está ficando para trás e o que começa a se desenhar agora?  

Eu vejo esse projeto como um ponto de virada. É o início do encerramento de uma fase onde eu ainda estava muito atravessada por coisas que já não me cabiam mais; relações, expectativas, formas de me colocar no mundo que não me completavam de verdade…

O que fica pra trás são esses excessos de apego, principalmente no campo afetivo. Eu vivi um momento em que priorizei muito o amor, as relações, e isso foi importante, mas também me consumiu em alguns níveis. Essas “mensagens não enviadas” são justamente esse acúmulo que eu precisava organizar pra conseguir seguir mais leve.

E o que começa a se desenhar agora é um lugar de muita clareza e direção. Eu tô me escolhendo mais, entendendo com mais firmeza quem eu sou como artista e onde eu quero chegar. Existe uma mudança de eixo muito forte: eu passo a colocar minha carreira no centro, meus projetos, minha visão.

Esse movimento já começa a se materializar nos próximos passos. Eu vou gravar uma live session do EP na Ilha de Mosqueiro, que pra mim é um lugar muito simbólico. E também já estou preparando um novo EP, produzido pelo Félix Robatto, que aponta para uma próxima camada da minha pesquisa sonora.

Eu tenho sonhos grandes e hoje eu sinto que tenho também a maturidade e a gana necessárias para correr atrás de cada um deles. Então esse trabalho não é só o início de um fechamento, ele é  um ponto de partida muito mais consciente e ambicioso pro que vem agora.

O título do EP chama atenção. Que tipo de mensagens são essas que não foram enviadas?  

São mensagens muito íntimas, que nasceram em momentos de intensidade; de amor, de frustração, de dúvida, de silêncio também. Não são só coisas que eu deixei de dizer pra alguém, mas coisas que eu não consegui dizer nem pra mim mesma naquele momento.

Tem mensagens de saudade, de insistência, de tentativa de fazer dar certo a qualquer custo… e tem também mensagens de limite, de cansaço, de entendimento. Só que muitas delas ficaram no rascunho, porque às vezes a gente não tem maturidade, ou coragem, ou simplesmente o timing pra colocar aquilo no mundo.

O EP é justamente esse lugar onde essas mensagens finalmente encontram um destino. Não necessariamente pra quem elas foram pensadas, mas pra mim, como forma de elaborar, de encerrar e de transformar.

Você construiu o repertório como uma história com começo, meio e fim?  

Totalmente. Desde o início eu pensei o EP como uma narrativa, quase como um pequeno roteiro emocional.  Existe um começo que é mais atravessado pelo encantamento, pela entrega, por esse lugar onde tudo ainda parece possível. Depois vem o meio, que é onde as coisas começam a tensionar, o desgaste, os conflitos internos, a percepção de que algo já não se sustenta como antes.

E o fim não é exatamente um final fechado, mas um ponto de virada. É onde entra o entendimento, o limite, a escolha de si. Não é sobre “superar” de forma linear, mas sobre se reposicionar, se reorganizar emocionalmente. Então sim, o repertório foi construído como uma travessia. Cada faixa ocupa um lugar dentro desse processo: de sentir, atravessar e, de alguma forma, sair diferente do outro lado.

Todas as músicas têm participações, como você escolheu quem iria colaborar contigo no EP?

Pra mim, escolher quem ia participar do EP nunca foi só uma decisão estética. Foi muito sobre conexão, sobre troca real.

Eu acredito muito na construção coletiva. Minha trajetória sempre passou por encontros, por entender que a cena se fortalece quando a gente cria junto. 

Então, mais do que pensar “quem combina com a música”, eu pensei “quem vive esse universo comigo?”, quem tem uma verdade que dialoga com o que eu tô contando ali. O Maderito, por exemplo, entrou de um jeito muito orgânico. Ele escutou o EP ainda em fase de produção, lá na casa do Will Love, que é o produtor do trabalho e também membro da Gang do Eletro. Ele pirou muito na primeira faixa, que é uma composição do Bruno Mattos, e ali já ficou claro que fazia total sentido ele estar dentro.

A Rebeca Lindsay foi um encontro que eu até hoje fico meio em choque (risos). A gente participou de uma mesa juntas no MANA Festival, em Belém, com a Zaynara. Quando a mesa acabou, ela virou pra mim e disse que queria fazer um feat comigo… eu quase caí dura! Tipo, a Rebeca Lindsay te falando isso! Na hora eu já mostrei as músicas pra ela e ela se conectou muito com a segunda faixa, composição minha com Amanda de Paula.

E a Luê… a Luê é uma das grandes musas da minha vida. Uma das maiores artistas da Amazônia, sem dúvida, e uma das razões de eu ser cantora hoje. Então ela precisava estar nesse momento. Tem um lugar muito simbólico nisso também, de fechar um ciclo com alguém que me inspirou desde o início. No fim, cada participação carrega uma história, uma conexão real. Não são só feats, são encontros que ajudam a dar corpo e verdade pra essa travessia que o EP propõe.

O EP mergulha no pop amazônico com base no brega e no melody. Como você chegou nessa estética?

O pop amazônico não é uma escolha recente pra mim, ele é um movimento que eu venho construindo, juntamente com vários outros artistas nortistas, desde o início da minha carreira, lá em 2018. É uma forma de traduzir quem eu sou, de onde eu venho, e como eu enxergo a música dentro desse território.

O brega, especialmente, não é uma referência distante. Ele está intrínseco no som da cidade. Tá no cotidiano dos paraenses, nas ruas, nas festas, nas aparelhagens, nas memórias afetivas. 

Então quando eu trago isso pro meu trabalho, não é uma apropriação, é uma continuidade, é quase inevitável.

E aí o melody entra como esse lugar de expansão, de atualização estética, junto com os elementos do pop. Eu gosto de pensar que esse EP trabalha essa linguagem de forma consciente, conectando tradição e contemporaneidade. 

É sobre afirmar uma identidade amazônica dentro do pop, sem diluir de onde isso vem.

Você sente que está construindo um “novo pop  amazônico ”? Como você definiria esse som?  

Eu sinto que estou fazendo parte de um movimento maior, mais do que construindo algo sozinha. Existe uma geração de artistas no Pará e na Amazônia que está olhando para essas referências com muito orgulho e, ao mesmo tempo, propondo novas leituras.

Quando eu falo de pop amazônico, eu tô falando de um som que nasce do território. Que tem o brega, o melody, as aparelhagens, as vivências da cidade, mas que também dialoga com o pop global, com outras estéticas, com outras tecnologias.

Não é sobre “modernizar” o que já existe, mas sobre expandir. É pegar essas bases que são muito fortes culturalmente e levar pra outros lugares, outras narrativas, outras sonoridades. Então, pra mim, esse “ pop amazônico” é um som que é profundamente identitário, mas ao mesmo tempo muito aberto. Ele carrega memória, mas também aponta pro futuro. É urbano, é emocional, é tecnológico e, principalmente, é feito por pessoas que entendem esse território de dentro pra fora.

De que forma o território atravessa sua criação hoje, tanto sonora quanto visualmente?  

O território me atravessa de forma muito profunda, tanto no som quanto na imagem. Eu não consigo me dissociar disso, porque a minha criação nasce justamente dessa vivência. O brega, o melody, as texturas, as narrativas, tudo vem desse cotidiano amazônico, das ruas, das festas, das pessoas. Mas também tem um lugar de pesquisa. 

Eu sou uma artista que investiga a música amazônica, que acompanha a cena cultural, que se interessa por entender como esses sons se transformam em diferentes contextos. E isso vem muito das experiências que eu tive circulando por vários territórios.

Eu já fiz shows em lugares como o Quilombo do Curiaú, no Amapá, em Rio Branco, no Acre, em Manaus, e trânsito por todas as mesorregiões do Pará. Cada lugar desses me atravessou de alguma forma. Eu costumo dizer que sou quase como a Transamazônica (risos). O meu som vai interligando tudo isso, tudo que me atravessou ao longo do caminho. Então, tanto sonoramente quanto visualmente, o que eu faço é resultado direto desses encontros. É um corpo em movimento, que carrega esses territórios dentro de si.

Você cita nomes como Fafá de Belém, Elis Regina e Maria Bethânia em referências, o que você absorve dessas artistas na sua forma de interpretar?   

Eu acho que dessas artistas, eu absorvo de tudo. A coragem de sentir muito e de colocar isso pra fora sem filtro. A Fafá de Belém… eu me derreto completamente [risos]. Para mim, ela é uma força da natureza. Existe uma presença, uma potência na interpretação dela que vem de um lugar muito verdadeiro, muito visceral, e ao mesmo tempo muito conectado com o território. Ela canta com o corpo inteiro, com a história dela, com a Amazônia atravessando tudo e isso me inspira profundamente.

Da Elis Regina eu aprendo muito sobre a precisão emocional. Ela tinha um controle impressionante da interpretação, sabia exatamente onde tocar, como conduzir uma música, como fazer cada palavra ter um peso específico. E a Maria Bethânia me ensina sobre rito, sobre presença cênica, sobre transformar a música em um momento quase sagrado. Existe uma construção ali que vai além da canção, que vira experiência. Então eu acho que o que eu levo dessas três é essa ideia de que cantar não é só executar uma música; é interpretar, é viver aquilo, é se colocar inteira.

O quanto da RAIDOL produtora cultural influencia a RAIDOL artista?

Influencia muito, eu diria que é impossível separar completamente as duas [risos]. A Raidol produtora me dá uma visão muito estratégica do que eu tô construindo. Eu penso o projeto artístico com começo, meio e continuidade, entendo posicionamento, narrativa, circulação, como cada movimento pode potencializar o outro. Isso me ajuda a não ficar refém só do impulso criativo, mas transformar ideia em projeto, em entrega, em carreira de fato.

Ao mesmo tempo, eu preciso tomar cuidado para não engessar a artista. Porque a arte também precisa de risco, de intuição, de espaço para errar e descobrir coisas novas. Então existe um equilíbrio constante aí. Mas no fim, eu vejo isso como uma força. Eu consigo sonhar como artista e me estruturar como produtora. Eu penso a estética, mas também penso o palco, o público, a experiência, a longevidade do trabalho. A Raidol artista cria, sente e se expõe. A Raidol produtora garante que isso chegue ao mundo do jeito que merece.

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