Em “Raízes”, Raíssa Fayet canta em crioulo, espanhol e aprofunda laços com a ancestralidade 

05/01/2026

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Por: Revista NOIZE

Fotos: Divulgação/Joaquim Neto e Juan Schenone

05/01/2026

Lançado em dezembro, Raízes (2025) é o segundo álbum de Raíssa Fayet. Depois de (2017), a curitibana apresenta 15 faixas inéditas recheadas de referências ancestrais e sons da floresta, com produção assinada por Dú Gomide e Matê Magnabosco. A artista, vale lembrar, também é ativista e comunicadora. Para este álbum, foi a fundo na pesquisa genética, descobrindo a origem da família materna.

O álbum traz faixas em crioulo, espanhol e samples de cantos indígenas do povo Krahô, entre as principais inspirações para o projeto, Raíssa cita a liderança indígena Célia Xakriabá. No próximo domingo (11/1), ela se apresenta na Praça Nossa Senhora da Salete, em Curitiba. 

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Para os feats, Raíssa reuniu um time diverso de Francisco El Hombre, Ju Strassacapa, Cacau de Sá, Fitti, Helena de Los Andes, Juliana Linhares, Renata Rosa, Jéssica Caitano, Coral, Anna Tréa, Isabela Moraes, Luana Flores e Rubia Divino.

O projeto audiovisual acompanha a narrativa do álbum, a faixa “Floresta”, por exemplo, ganhou um clipe filmado no Ekoa Park, parque ecológico no Paraná, com reserva da Mata Atlântica, além de contar com interpretação em Libras. “Raízes é um chamado à escuta da ancestralidade e ao reconhecimento de que, antes do Brasil da coroa, existe o Brasil do cocar”, comenta Raíssa.

Confira Raízes faixa a faixa: 

“Raiz”: é autobiográfica: narra as magias da trajetória de Raissa, os encantamentos de sua mãe astróloga, as alquimias das mulheres, suas curas e misturas. De uma vida estradeira que une pinhão e pequi, ritmos e levadas, revelando a fusão entre Nordeste e Sul que compõe sua família. Os arranjos de pífanos foram criados pelo mestre pernambucano Alexandre Rodrigues.

“Boca de Fogo”: nascida durante a residência De Repente, que aconteceu durante a pandemia, “Boca de Fogo” é uma canção coletiva onde a palavra se torna ferramenta de transformação. Evoca os elementos, o desapego das amarras e a possibilidade de realizar um voo livre como nunca fizeste antes. Conta com participações especialíssimas de Renata Rosa e Jessica Caitano — Jessica, do Pajeú, terra próxima da minha avó, adiciona versos potentes a esta versão. A faixa ainda traz a rabeca de Renata Rosa e o sitar de Du Gomide.

“Pedra Coração”: primeira música do álbum a abordar o coração: fala sobre sentir tão fundo que o chão parece rachar — e, ainda assim, decidir se jogar. A faixa inicia com a voz da avó de Raissa convidando para um regabofe. É um piseiro dançante, onde ecoa: “O que mais dói é o coração, a terra racha”.

“Vá se Mande”: faixa de forte simbolismo, composta por ao lado de Isabela Moraes, que reflete a impermanência e o movimento. Traz Juliana Linhares nos vocais e o convite à confiança no tempo: “Se for pra ser, peço pro tempo trazer”. A instrumentista refugiada da síria, Myria, participa com o qanun — harpa oriental que costura a canção — tecendo a atmosfera do Oriente Médio. O suingue rítmico aliado ao timbre do instrumento torna a faixa única.

“Me Enfeita”: cantada em português e crioulo de Cabo Verde, “Me Enfeita” é uma declaração de amor entre mulheres — “Me enfeita, como tua boca me beija”. Com Janine Mathias e a cabo-verdiana Nancy Vieira, a faixa flutua num suingue latino-diaspórico com pitadas cabo-verdianas, um balanço que pede para dançar e cantar. A guitarra flamenca adiciona brilho e textura.

“Puñal Dorao”: canção de domínio público, conhecida na voz de Carmen Linares, Puñal Dorao é a introdução de um cante flamenco que percorre raízes da genética ibérica. Cantada em espanhol, fala das dores do amor romântico. A participação da cantaora Helena de Los Andes intensifica essa travessia emocional.

“Forrada de Chão”: nascida na pandemia, reflete sobre os tempos de sofrimento e o quanto esquecemos após eles passarem — ignorando questões escancaradas. A canção convoca a lembrar onde habita o sagrado da vida, a reconectar-se com a floresta e com a certeza de que também somos floresta, capazes de “forrar a alma de chão”. Traz participação de Juliana Strassacapa, os arranjos de trio de sopro, o beat e o suingue se entrelaçam à presença da multi-instrumentista e percussionista Matê Magnabosco, presente em todas as faixas.

“Floresta”: mergulho profundo na mata, evocando imagens do que há de mais sutil na terra. O clipe da canção, lançado em março de 2025 no Ekoa Park (Mata Atlântica, Morretes-PR), percorre a travessia entre a costura da vida e o reencontro com o ser-floresta que existe em cada um: “Viro floresta, florida fauna em Mim”. Recebeu o prêmio de Melhor Clipe no festival MATE, em Coimbra (Portugal).

“Doce”: é mais uma canção de amor. Relembra um encontro à beira-mar, sob a luz de uma lua cheia. Com pegada moderna e groove envolvente, a letra habita um universo onírico. Participação espcial de Fitti — artista nordestino indicado ao Grammy Latino.

“Primavera”: canta um término de relacionamento: um livro sem dedicatória chamado Seus Pontos Fracos. Raissa o coloca debaixo do braço e vai “entender de onde vem, encontrei fraquezas”. É uma reflexão sobre os modos de amar, os vícios e padrões, a morte simbólica necessária para renascer. Depois de “desaguar num rio, água sagrada”, a canção pede a chegada da estação da renovação: “Venha, primavera, que eu tô querendo brotar”.

“Chamado”: convocação para entrar na roda da vida, nos aprendizados da floresta e em suas medicinas. Um passeio guiado pelos animais de poder e pelas reflexões: “Cê já parou pra pensar que a vida de um povo sofrendo tem a ver com você?” “Por que que a gente mata, fere a terra e se maltrata?” “Dói de ver, rio de nome sagrado secar.” A canção pede firmeza para não deixar a força da moleza nos pegar.

“Pindorama”: inspirada na frase da indígena Célia Xakriabá — “Antes do Brazil da Coroa, existe o Brasil do Cocar” —, Pindoramatrata da invasão da terra ancestral que deu origem ao nome do Brasil originário. A música fala das guerreiras flutuantes, seres encantados que trazem sementes para reflorestar mentes e curar a terra. Mesmo após violências e genocídio, elas resistem, protegendo a vida e a floresta. Trazendo essa ritmica da cumbia, com cantos indigenas, num balanço de groove e protesto.

“Derrubar o Cistema”: com participação de Francisco El Hombre, Derrubar o Cistema denuncia o sistema capitalista que envenena a comida, o tempo e o espírito. É um chamado para reconectar-se ao sagrado da terra e adubar um sistema que acolha todos os povos e a floresta. “Vamos derrubar o Cistema, vamos derrubar, adubar outro sistema que não quer nos matar.”

“Rosa Caveira”: instrumental de Alê Palma, guitarrista flamenco, com vocal de Helena de Los Andes. Uma homenagem a Exu Rosa Caveira — introdução de um “Ponto” que será desdobrado no próximo álbum.

“Domador de Cavalos”: canção da compositora baiana Coral. Coral, mulher trans, narra sua própria transição: deixa para trás um nome que significava “domador de cavalos” e se transforma em Coral — “Hoje não domo cavalos, hoje domo o mar”. A faixa conta com participações de Coral, voz e o violão de Anna Tréa, e no coro: Juliana Linhares, Fitti, Maíra Baldaia e Matê Magnabosco.

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05/01/2026

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