Scientist, atração da Virada Cultural, exalta a tecnologia periférica e o digital: “muito superior que analógico”

22/05/2026

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Por: Guilherme Espir

Fotos: Divulgação

O reggae e todos os movimentos musicais que o antecederam e sucederam, assim como o bues, hip-hop, jazz, ou samba, originaram-se na quebrada. A estética periférica é indivisível do contexto musical e mesmo localizada numa ilha no meio do Caribe, a música jamaicana é celebrada com paixão do Maranhão ao Japão, tudo ao mesmo tempo. Abordando todo esse contexto, conversamos com o lendário Hopeton Overton Brown, ou como ficou conhecido por seu público, “Scientist”, uma das mentes brilhantes por trás da arte de virar as estruturas do groove reggaeiro do avesso. Ele vai estar no palco da Virada Cultural no domingo (24/5), 00h [veja a programação completa aqui].

O groove diferente da ragga virou uma febre e até hoje o mundo todo se pergunta como uma ilha tão pequena como a Jamaica conseguiu criar tanto, cunhando a primeira música eletrônica, tudo graças a arte de mixar o Dub. O problema é que o Reggae foi muito mal documentado e isso não aconteceu por mero acaso. Era do interesse do governo reprimir os artistas que faziam as massas pensarem.

Isso se deve a uma combinação de contratos predatórios, informalidade e uma indústria fonográfica historicamente desigual com artistas jamaicanos. Diversos músicos passaram e ainda passam décadas travando batalhas jurídicas envolvendo direitos autorais, créditos de composição e royalties não pagos. Parte dessas disputas ajudou a expor como muitos pioneiros do roots reggae abriram mão de direitos vitalícios em troca de pagamentos imediatos no início de suas carreiras, num contexto tecnológico e jurídico completamente diferente do atual.

No meio de tantas incertezas históricas, buscar as informações na fonte ajuda a reparar a história. É como fazer a mixagem de uma versão dubwise. Nessa verdadeira aula magna de história falamos sobre a história do Dub e sobre a importância de se contar os fatos de forma imparcial, respeitando a cronologia e olhando para a música com tato e sem a visão meramente exótica que foi exportada e que esvazia o movimento, assim como seus criadores e colaboradores.

Ao conversar com o Scientist, fica claro como todo o contexto pioneiro de engenharia sonora dos Sound Systems e da mix de dub, seja ao vivo ou em estúdio, é ofuscado por quem conta a história. O balanço diferente, aliado ao caráter autodidata e Do It Yourself (faça você mesmo) influenciou até mesmo o punk rock e é necessário que essa arte seja vista como uma música eletrônica que influencia as pistas de dança até hoje. E não como um movimento de jamaicanos que apenas empilhavam caixas de som pelas ruas ou que gravavam de forma pré-histórica com fitas e uma Roland Space Echo.

Você começou a trabalhar com King Tubby numa época em que o Dub ainda estava sendo moldado. Como era aquilo e o que te inspirou a entrar nesse universo?

Bom, eu fui inspirado pelo álbum Roots of Dub do King Tubby. Eu era um jovem engenheiro eletrônico começando na área, porque o próprio Tubby também era um engenheiro eletrônico veterano, e foi isso que me motivou a querer trabalhar como engenheiro.

Estava lendo um livro e achei interessante descobrir que você trabalhava com seu pai ajustando equipamentos quando criança. Foi isso que realmente te colocou em contato com o universo em que você passou a viver depois, com engenharia de som/estúdio/produção e tudo mais. Como era trabalhar com King Tubby naquela época?

Às vezes era como alguém querendo aprender a nadar e o instrutor simplesmente empurra você na piscina. Eu tive que aprender sozinho. Me deram a plataforma, mas tive que aprender tudo sozinho usando minha experiência com eletrônica.

A maioria dos caras que trabalhavam com sound systems tinha esse background de engenharia, e eu acho que o resultado da música — considerando os recursos disponíveis naquela época — era realmente impressionante. O que você pode dizer sobre a forma como vocês precisavam se adaptar para alcançar o som que ouviam na cabeça, mesmo com as pessoas dizendo que a Jamaica não tinha os melhores recursos?

Bom, isso não é verdade. Isso é um equívoco. A Jamaica tinha estúdios muito, muito bons — melhores até do que muitos dos que existiam nos Estados Unidos. A única forma de alcançar aquele nível de produção era tendo equipamento de verdade.

Em muitos livros estrangeiros que li, principalmente dos Estados Unidos e da Inglaterra, as pessoas geralmente dizem que vocês não tinham os melhores equipamentos naquela época.

Isso é totalmente falso. A única maneira de produzir aquele nível de som era com equipamento adequado. Você não consegue alcançar aquele patamar com equipamento inferior. Por exemplo, o Channel One ainda é um dos estúdios com melhor sonoridade do mundo. Eles tinham equipamentos de ponta, os melhores que você podia conseguir, e a melhor acústica.

Então essa ideia de que as pessoas criam porque a Jamaica supostamente era um país de terceiro mundo está errada. Eles achavam que a gente estava balançando em cipós no meio da selva. Não. Nós tínhamos os melhores equipamentos.

Você pode falar um pouco sobre os grupos e artistas com quem teve a honra de trabalhar? Porque eu sei que você trabalhou com alguns dos maiores músicos da época, e existiam muitas lendas dentro do estúdio durante aquelas décadas.

Bom, praticamente todo mundo que você consegue imaginar — desde Roots Radics até The Revolutionaries, Sly and Robbie, Johnny Clarke, Bob Marley… É difícil lembrar de tudo agora.

Já que você mencionou os Revolutionaries e comentou que a Jamaica tinha estúdios de altíssimo nível naquela época, eu lembrei do disco que eles fizeram com Serge Gainsbourg fora da Jamaica. Muitos jornalistas consideram aquele álbum especial porque foi uma das primeiras vezes que um grupo jamaicano teve a oportunidade de gravar em um estúdio de primeira linha fora da Jamaica. Mas depois do que você me contou agora, isso muda completamente a perspectiva.

Bom, olha só, não se engane. A confusão espalhada pelo mundo é a ideia de que outros gêneros ensinaram o reggae a gravar, quando na verdade, foi exatamente o contrário. O reggae foi o gênero que estabeleceu os padrões. O reggae e o dub são a razão pela qual existem todos esses gêneros hoje, incluindo música eletrônica e hip-hop.

O reggae é um dos gêneros mais difíceis de gravar e mixar. Não é como se o rock fosse um padrão superior ao reggae. Não. É muito mais fácil para mim mixar um disco de rock e produzir um som melhor do que muitos engenheiros de rock conseguem fazer. Por quê? Porque fomos nós que estabelecemos os padrões, não eles. Algumas pessoas distorcem as coisas, e outras querem que elas continuem distorcidas.

Claro. No fim das contas, é uma questão de quem conta a história, né?

Exatamente. Depende de quem está contando a história, porque algumas pessoas querem contar a história de uma forma que faça elas parecerem melhores. Mas nós temos as evidências e os fatos. O reggae foi a primeira música eletrônica. É por isso que hoje existem todos esses subgêneros. E mesmo que outros gêneros usem efeitos sonoros, eles não utilizam os efeitos da forma como nós utilizávamos no Dub. O Dub foi o que transformou a mesa de gravação em um instrumento musical. Isso são fatos.

Realmente um prazer ter essa conversa com você. Considerando o impacto que produtores como Lee Scratch Perry, King Tubby, você mesmo e Prince Jammy tiveram na música, vocês ajudaram a criar uma nova estética para o Reggae e o Dub. Como você enxergava o impacto do seu trabalho como produtor?

É difícil explicar. Era simplesmente o nosso trabalho diário. É como perguntar para um pintor como ele criou uma pintura que ninguém tinha visto antes. Música e pintura são baseadas em imaginação. Aquilo que você consegue imaginar é o que se manifesta através dos seus dedos.

Acho que a melhor forma de descrever isso é dizendo que você precisa ter uma imaginação selvagem. Tudo começa aí. Você escuta um som dentro da sua cabeça e tenta trazer aquilo para o mundo real.

Falando sobre a transição do analógico para o digital nos anos 80: como isso impactou sua abordagem ao Dub?

Primeiro de tudo, muita gente vai discordar do que vou dizer, mas o digital é uma plataforma muito superior ao analógico. As pessoas falam um monte de besteira dizendo que o analógico soa melhor, mas isso não é baseado em fatos de engenharia ou números.

O digital pode soar duas vezes melhor do que o analógico porque eu sei usar as ferramentas corretamente. Para mim, o analógico é um dinossauro. Eu não tive problema nenhum em migrar do analógico para o digital. Hoje faço tudo digitalmente.

Você acha que perdeu alguma coisa nessa transição?

Eu? Sou totalmente a favor do digital. Não quero nem olhar para uma mesa analógica porque conheço os problemas do sistema analógico.

Por que é mais fácil?

Mesas analógicas têm muito mais problemas técnicos. Com mesas digitais a qualidade não varia tanto de console para console. A melhor coisa da eletrônica digital é a precisão.

Lembro de ler uma entrevista do Prince Jammy em que ele dizia que os botões das mesas analógicas dificultavam alcançar precisão total.

Quem não sabe exatamente o que está fazendo vai dizer isso mesmo. Mas para mim, sabendo manipular corretamente o console, eu consigo fazer praticamente tudo digitalmente com precisão. É simplesmente uma plataforma melhor.

Com consoles analógicos você precisa de pré-amplificadores, seções de EQ e várias outras partes duplicadas em cada canal. Isso exige fontes enormes de energia e gera muito calor. O calor reduz a vida útil dos componentes. Sistemas digitais não sofrem desses mesmos problemas.

Você também não precisa se preocupar com diferenças de alinhamento entre estúdios como acontecia com fitas analógicas. Com fita, você podia gravar perfeitamente em um estúdio e depois reproduzir de forma diferente em outro. O digital eliminou esse problema.

E quando o digital chegou, a fita virou praticamente obsoleta para você?

Sim. Do ponto de vista técnico, a fita é um dinossauro. Não soa melhor que o digital.

As medições não mostram isso. Os instrumentos de teste não mostram o analógico sendo melhor. Engenheiros trabalham com dados, não com sentimentos.

Toda máquina de fita tem defeitos embutidos, assim como toca-discos. Existe wow and flutter. Existe atrito. Toda vez que a fita passa pelo cabeçote ela desgasta tanto a fita quanto a máquina. No digital, você não tem esse problema.

Isso é muito interessante porque, hoje, muita gente romantiza equipamentos analógicos.

Mas em que elas estão baseando isso? Sentimentos? Ou dados reais de engenharia?

Você pode enviar um sinal de 16kHz para uma máquina de fita e imediatamente perceber distorção e instabilidade causadas por wow and flutter. Isso é mensurável.

Parece que as pessoas estão mais preocupadas com a máquina em si do que com aquilo que o produtor consegue criar com ela.

Exatamente. Alguém como eu baseia tudo em fatos de engenharia. No analógico existe bleed e crosstalk entre canais. No digital? Zero bleed. Então seguimos os dados, não os sentimentos.

Voltando à influência do Dub na música eletrônica: por que você acha que os pioneiros jamaicanos ainda não recebem o devido crédito pela influência em gêneros como Dubstep, Techno e música eletrônica moderna/contemporânea?

Muitas entrevistas e documentários espalham besteira porque as pessoas falando não estavam lá desde o começo. Eu estava. Eu ajudei a desenvolver técnicas de engenharia que moldaram a forma como os estúdios soam.

Quando as pessoas me dizem que o analógico soa melhor, eu queria ter tido gravadores digitais naquela época no Channel One, porque eu consigo ouvir a perda de qualidade causada pela fita.

Eu sei como os Roots Radics soavam dentro do estúdio e consigo ouvir o que se perde na fita. A fita nunca gira numa velocidade perfeitamente constante. Toda máquina de fita possui flutter. No momento em que você grava em fita, aquilo já se torna uma segunda geração do sinal.

Então, do ponto de vista da engenharia, é impossível soar melhor.

Qual papel a cultura dos sound systems ainda desempenha na preservação do Dub como gênero musical e movimento cultural?

Na Jamaica, os sound systems eram usados para expressar aquilo que o povo estava vivendo, porque as rádios tradicionais não queriam tocar músicas que enfrentavam opressão ou criticavam governos. Os sound systems ajudavam a espalhar essas mensagens — e em muitos sentidos ainda fazem isso hoje.

O que você acha que ajudou o Dub a se expandir globalmente para além da Jamaica?

Definitivamente o Reino Unido e a Europa. Ironicamente, hoje você encontra mais fãs de Dub fora da Jamaica do que dentro da própria Jamaica. O Dub acabou sendo mais aceito internacionalmente do que no país onde foi criado.

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Entusiasta do groove, eis aqui um meliante que orbita do jazz ao hip-hop, desde que tenha groove. Sem ele, a vida seria um erro.
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Guilherme Espir

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