Antes que polêmicas envolvendo o mercado financeiro ou o boicote a marcas de sandálias invadissem o noticiário de celebridades, os portais foram tomados por fotos de Rosalía curtindo o ano novo no Rio de Janeiro. Teve de tudo: flagra da cantora passeando em uma loja de discos carioca, tomando açaí e até um vídeo pulando ondinhas ao som de Dire Straits com uma “morena misteriosa”.
Mas de “misteriosa”, a morena em questão não tem nada: era ninguém menos que Loli Bahia, modelo francesa disputada por marcas que vão de Chanel a Louis Vuitton, uma das grandes revelações dos últimos anos nas passarelas internacionais. Loli já estampou capas da Vogue francesa, da Dazed e outras publicações hypadas. Além de modelo, ela também toca trombone e bateria. E ela leva a sério a missão; chegou até a estudar no Conservatório de Lyon, na cidade natal dela.
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Por aqui, ela não era tão conhecida. Por isso, houve um estranhamento em torno de um nome, tão, digamos, abrasileirado. Na verdade, a modelo, filha de mãe argelina e pai espanhol, não carrega conexões familiares com o Brasil. “Loli Bahia” veio de um dicionário de nomes árabes que os pais consultaram durante a gravidez — ou seja, é um nome composto, sendo “Loli” apelido para “Dolores”. Já “Bahia” significa “deslumbre” — mostrando que o mesmo nome dado ao estado brasileiro não veio à toa.
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“Tem Seu Jorge?”
As conexões de Loli com o Brasil vêm de outro lugar: a música. A modelo é aficionada por bossa nova e samba rock. No seu Instagram, em um post de 2023, ela aparece dando uma voltinha de carro pela Georgia ouvindo nada menos que “Olha a Pipa”, de Jorge Ben [do álbum Alô, Alô, como Vai?, de 1980]. E ela gosta mesmo do Jorge Ben: em um vídeo publicado pela Vogue francesa em 2024, a modelo fazia compras em sua loja de discos favorita de Paris e foi logo perguntando ao vendedor: “Tem alguma coisa de música brasileira? Um Jorge Ben Jor… Seu Jorge?”.

Mostrando que sabe muito, Loli explicou que sua relação com a música brasileira veio do pai, fã da nossa cultura, que chegou até a fazer aula de capoeira. No vídeo para a Vogue, a modelo não consegue discos de Ben ou Seu Jorge, mas leva outros três bolachões para a casa — sendo um deles, um clássico da bossa nova. Ela até chega a selecionar o disco Senhora da Terra (1979), da Elza Soares (que também saiu pelo NRC). De toda forma, temos aqui os três discos escolhidos por ela:
Marvin Gaye – I Want You (1976)
Uma das músicas favoritas da modelo dá o título deste álbum, divisor de águas na carreira de Gaye. Lançado pela Motown, I Want You marca uma mudança na direção musical de Gaye, incorporando sintetizadores (marcantes na instrumental “After the Dance”) e elementos de funk e soul num som grooveado, com letras que exploram amor e (muita) sensualidade. Produzido por Gaye e Leon Ware, o disco foi inspirado em Janis Hunter, com quem o cantor um longo caso. Com faixas como “I Want You” e “After the Dance”, obteve sucesso comercial e críticas mistas. De todo modo, solidificou Marvin Gaye como um dos principais artistas do soul e influência direta para o R & B e o neosoul dos anos 90.
Michael Jackson – Off the Wall (1979)
Na mesma Vogue, Loli afirma ser maluca pelo som de Michael Jackson desde a adolescência. Então, uma de suas escolhas na loja de vinis não podia ser diferente. Ela levou pra casa o Off the Wall (1989). E não foi qualquer edição, mas sim uma japonesa, que conta com pouco mais de mil registros no Discogs. O disco, clássico absoluto na carreira de MJ, teve seis singles de nove músicas prensadas (!) e produção do próprio em parceria com Quincy Jones. Dele, vieram clássicos como “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” e “Rock with You“, num caldeirão elegante de disco, funk, soul e pop sofisticado. Marca, também, a fase em que Paul McCartney e Michael ainda eram amigos — é do ex-Beatle a faixa “Girlfriend”. Foi só em 1985 que a amizade seria para sempre abalada, quando Michael comprou os direitos autorais dos Beatles sem Paul ficar sabendo.
Sérgio Mendes – Sergio Mendes & Brasil 77’ (1977)
Loli conta que foi o pai que a aplicou nos sons brasileiros — “desde então, estou imersa nessa sonoridade, conta”. Para a matéria da Vogue, ela elegeu um dos grandes pilares da internacionalização da bossa nova, Sérgio Mendes. Sergio Mendes & Brasil 77’ (1977) surge depois do auge comercial do Brasil ’66, grupo que levou a bossa nova e o pop brasileiro para o mainstream norte-americano nos anos 1960. Nos anos 70, Mendes reformula o projeto: o Brasil ’77 reflete um som mais alinhado ao soul, funk, soft rock, com poucos elementos de bossa, mas que ainda refletem a identidade do estilo musical. Destaque para a superbanda que o acompanhava: Anthony Jackson, Nathan Watts, Steve Gadd, Michael Sembello, Dave Grusin, e ninguém menos que Stevie Wonder, que assina “Love City”, “The Real Thing” e ainda toca clarinete. Este clássico, cuja foto de capa simula um time de futebol, reforça o diálogo entre a tradição brasileira e o soul.
