Com aproximadamente duas décadas de trajetória artística, a rapper Stefanie lançou em 2025 o primeiro álbum solo da carreira. Intitulado Bunmi (2025), “meu presente” no idioma Iorubá. O projeto é um presente dela para os fãs, que a acompanham desde o coletivo Simples, passando também pelos grupos Pau-de-Dá-em-Doido e Rimas & Melodias, mas também para ela mesma, que ressalta a importância de não ter desistido nos momentos mais difíceis.
O projeto conta com 10 faixas que refletem sobre a história e as experiências da artista, além de trazer colaborações com nomes importantes de diferentes gerações da música brasileira como Kamau, Daniel Ganjaman, Mahmundi, Luedji Luna e Jonathan Ferr, além da chilena Ana Tijoux.
Em conversa com a Noize, Stefanie contou como cada canção que compõe o álbum foi elaborada e a mensagem que cada uma transmite. Bunmi está em pré-venda no NRC+, confira aqui. Na compra do kit, você recebe livreto com uma entrevista exclusiva e todas as letras do disco.
“Fugir Não Adianta”: Bunmi começa com uma colaboração daquelas que nós não sabíamos que precisávamos entre a rapper e Mahmundi em uma faixa que fala sobre como fugir dos próprios problemas não é uma possibilidade. As vozes das artistas combinam perfeitamente e a canção dá o tom do que vem ao longo das próximas músicas. “Estava com várias coisas ali para resolver, questões de família, filhos e trabalho. Eu queria fugir, se pudesse saía correndo e jogava tudo para o alto, só que eu não posso, porque o meu sonho vai me perseguir,” reflete.
“Por Um Fio (feat. Rodrigo Ogi): Stefanie e Rodrigo Ogi se unem na faixa para contar sobre os livramentos pelos quais passaram em situações de vulnerabilidade. Assédio, racismo, pobreza, violência e saúde mental estão entre os temas abordados na faixa, que fala ainda sobre a importância da fé em momentos desafiadores como os que são retratados na canção. “O que já passei/ E o que ninguém viu/ Se me levantei /Minha prece ouviu/ Quase me entreguei/ Mas Deus interviu/ Livramento eu sei/ Mas foi por um fio,” diz o refrão.
“Não Pirar” (feat. Ana Tijoux, Daniel Ganjaman & Grou): A conexão da rapper brasileira e da chilena Ana Tijoux se deu, além da arte, pela maternidade. A canção reflete sobre a importância do autocuidado e da saúde mental. “Peneirar o que nos faz bem” nas palavras de Stefanie. “O que a gente pode e não pode carregar, o que está ao nosso alcance,” conta. A artista relembra as crises de ansiedade e pânico que sofreu durante o período da pandemia de COVID-19 e sobre como isso a fez aprender a viver o momento presente.
“Desconforto”: Uma das faixas mais impactantes do álbum, “Desconforto” é um relato sobre a maneira como o racismo impactou a vida de Stefanie. Na música, ela relembra situações que viveu desde a infância. Para escrever, ela teve que reviver alguns acontecimentos, e classificou o sentimento como “revoltante”.
“Se fosse só comigo, tava bom,” diz a rapper sobre os episódios comuns à comunidade negra. “Eu quis trazer essa ideia, essa essa experiência que eu tive, essa situação assim de quando eu era criança de uma forma que as pessoas conseguissem compreender o quanto isso acabou abalando a nossa autoestima. E que a gente não vai mais aceitar isso. De maneira alguma.”

“Mundo Dual (feat. Jonathan Ferr)”: Uma das melhores e mais íntimas faixas da canção. Aqui, Stefanie reflete sobre a perda do pai e dos dois irmãos. “Foi duro ver uma casa cheia com tempo ficar vazia/ Às vezes o tratamento é lento e sem anestesia/ Não sei o que foi pior pra mim, qual o maior gatilho/ Se foi perder meus irmãos ou ver minha mãe perder dois filhos,” canta. Se por um lado a saudade dos que se foram só faz crescer, existem as alegrias de um novo integrante na família. “A gente perde e a gente ganha também. Ganhei meu filho onde conseguiu levar uma luz ali, para mim, para minha mãe e para minha tia,” conta. A canção ganha uma camada com a participação do cantor e compositor Jonathan Ferr.
“Nada Pessoal”: Uma canção sobre autoconhecimento. Em “Nada Pessoal” Stefanie deixa de olhar para o mundo exterior para encarar a si mesma. “Eu sempre fui de estar com as pessoas e depois de um tempo eu precisei começar a olhar mais para mim,” explica. A música explora a importância do exercício da solitude, de se acolher e se escutar.
“Outra Realidade” (feat. Iza Sabino, Cris SNJ & Nega Gizza): Somando forças com Iza Sabino, Cris SNJ e Nega Gizza, “Outra Realidade” explora os sonhos que são barrados quando a realidade bate à porta. “Lembro que quando eu era mais nova tinha uma placa perto de casa, de uma vizinha que morava algumas cinco casas abaixo da minha, que falava “aula de piano”. E eu era louca para fazer aula de piano. E eu não fiz, porque eu sabia que minha mãe não tinha condições,” relembra Stefanie sobre um dos gatilhos para a escrita da canção, que bate de frente com a teoria da meritocracia. “Lembro quando eu fazia faculdade Quantas vezes eu tive que descer a pé e eu não tinha dinheiro para condução? Quantas vezes eu passei fome na faculdade? Quantas vezes eu não tive dinheiro para tirar um xerox? E infelizmente não consegui concluir a minha faculdade na época,” relembra.
“MAAT (feat. Rashid, Kamau, Emicida & Rincon Sapiência)”: A canção, batizada com o nome da deusa egípcia da verdade e da justiça é um encontro de Stefanie com Rashid, Kamau, Emicida e Rincon Sapiência, representantes de diferentes gerações do hip hop nacional. Para a rapper, dividir uma faixa do primeiro álbum com eles é, também, uma celebração. “Kamau vem ali, trazendo como um mestre, um grande MC. O Rincón vem trazendo as críticas. O Rashid vem contando a história, né, do antigo Egito. O Emicida também chega pesado. E eu venho falando muito das injustiças, como uma mulher negra. De como muitos acabaram desacreditando da minha arte, como mulheres acabam sofrendo com violências.”
“Puro Love” (feat. Luedji Luna): “É o que eu carrego dentro de mim”, diz Stefanie sobre a colaboração com a cantora e compositora baiana Luedji Luna. Com um dos beats mais envolventes do álbum, a canção sobre o amor próprio e a valorização da autoestima. “Não troco por nada a cor dessa pele que me cobre” canta a artista. Uma das inspirações para a canção foi a frase “Sem amor ninguém segue,” que ela ouviu em uma entrevista de rádio e a fez ver a vida de outra maneira. “Eu amo a minha carreira, eu amo minha família, eu amo meus companheiros, eu amo o que eu faço, sabe?”
“Plenitude”: “Cada um fala o nome. Deus, universo, a fonte, a inteligência infinita que nos guia, que me guiou e me trouxe até aqui,” explica a artista sobre a música de agradecimento que encerra o álbum. “Foi o que me salvou porque eu não tinha fé.” No final da faixa, há um áudio da tia da artista questionando: “Você já fez as suas orações hoje?”. não deixa de agradecer.”