De quinta (21/5) a domingo (26/5), o Parque Ibirapuera, em São Paulo, recebeu a quarta edição do C6 Fest. Assim como nas demais edições, o line-up foi dividido em shows de jazz na quinta e sexta, no Auditório Ibirapuera, com destaque para Anouar Brahem Quartet e Hermeto Pascoal Big Band.
Já o final de semana teve shows maiores no Parque, nos palcos Arena Heineken, Tenda Metlife e Pacubra, dedicados aos DJ sets. Entre as atrações, destaque para The XX, BaianaSystem, Robert Plant com Suzi Dian apresentando o álbum Saving Grace (2025) e Mano Brown celebrando 10 anos do Boogie Naipe (2016) com participação de Rincon Sapiência. Rolou ainda Wolf Alice, Matt Berninger, Lykke Li, Beirut e Magdalena Bay.
Curadoria acertada
Ano após ano, o festival se consolida entre os indies e amantes do jazz no calendário de eventos musicais na capital paulista. Ainda que disputasse a atenção com a Virada Cultural (que, assim como no ano passado, aconteceu no mesmo final de semana do C6), os ingressos para o festival estavam esgotados, mostrando que já conta com público cativo.
Indo na contramão dos megaeventos realizados no Autódromo de Interlagos, o C6 aposta numa estrutura mais enxuta, com dois palcos, tenda eletrônica e programação mais intimista no Teatro Ibirapuera, voltada especialmente para o jazz (como aconteceu na programação de quinta e na sexta).
Um dos méritos do festival é a curadoria acertada da Dueto Produções, sob a batuta de Monique Gardenberg, a mesma que fez fama ao produzir alguns dos eventos mais legais que a capital paulista já teve, como o Tim Festival e o Free Jazz. “Estou num orgulho danado da programação que conseguimos colocar de pé, com tantos talentos novos excepcionais e trabalhos poderosos de ídolos de uma vida inteira”, disse a organizadora.
É dessa curadoria que saem grandes encontros, como Os Paralamas do Sucesso tocando com o Nação Zumbi (no domingo) ou o BaianaSystem se encontrando com os tanzanianos Makaveli e a cantora Kadilida numa parceria que vai render ainda mais frutos, como adiantou Russo Passapusso à Noize.
O festival já trouxe dos celebradíssimos Chic com Nile Rodgers aos clássicos Pretenders e Kraftwerk até os ídolos indies como Wilco, Pavement e Cat Power cantando Bob Dylan. Outro acerto da curadoria é a capacidade de apresentar shows inéditos ao público brasileiro e bem aguardados por aqui. É o caso de Cameron Winter, vocalista da comentadíssima banda Geese, com ingressos esgotados em três dias mesmo fora da programação principal do final de semana, no chamado C6 Lab. Quando ele entrou no palco, o relógio já batia 23h.
A Noize esteve no Parque Ibirapuera ao longo do fim de semana e escolheu os melhores shows de cada dia. Confira nossa seleção abaixo:
Melhores de sábado
BaianaSystem
Durante a tarde de sábado, a forte chuva assolou (quase literalmente) o público que esperava pelos primeiros shows do final de semana. A vocalista Penelope, da banda indie Horsegirl, até brincou com a situação: “O que vocês estão fazendo em um festival com esse tempo?”, disse, ao abrir os trabalhos do final de semana na Tenda Metlife.
Porém, quando o Baiana subiu no palco, a chuva deu uma trégua. Até a lua apareceu, como destacou Russo Passapusso. O grupo agitou o público com a mistura de rock, percussão, guitarra baiana e a singeli music tanzaniana, representada por Makaveli e Kadilida. “Realizamos o sonho de encontrá-los, de encontrar a singeli music no palco. Isso é tudo muito bonito”, disse Russo à Noize.
O repertório incluiu o álbum mais recente, O Mundo dá Voltas (2026), recheado de participações especiais e hits de outros carnavais como “Lucro (Descompromindo)”, do Duas Cidades (2016) e Sulamericano, de O Futuro Não Demora (2019). Outra apresentação que soube aproveitar o espaço de projeções pra fazer um show iluminado, que valoriza a apresentação performática da banda.
Mano Brown part. Rincon Sapiência
Mano Brown foi ao festival com a missão de substituir o rapper Dijon, que não pode vir ao Brasil por motivos pessoais. Acabou fortalecendo a música brasileira num line-up primordialmente gringo. O repertório primordial foi o soul e a disco music classuda do álbum “Boogie Naipe” (2016), que já vem celebrando uma década. Na metade da apresentação, Rincon Sapiência subiu ao palco e também mandou alguns de seus hits, como “A Noite é Nossa” e “Ponta de Lança”.
Com palco cheio e aproveitando o espaço para incluir projeções, o baile já estava formado, com direito à música pra dançar coladinho e samples conhecidos do público, como “Soup For One”, do Chic, que embala o hit “Dance, Dance, Dance”. Fechando o show, Brown mandou hits dos Racionais, como “Vida Loka pt. 1”, levantando ainda mais o público.
The XX
Após um jejum de nove anos sem vir ao país, a banda formada por Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie xx se mostrou super feliz por estar de volta — isso se comprovava pelos sorrisos dos vocalistas, Romy e Jamie, e pelo carinho trocado com a plateia.
Boas surpresas: Parte do público não foi ao festival necessariamente para ver o rock alternativo do britânico Baxter Dury, mas se encantou pelo carisma e pela performance enlouquecida do artista. O público ria e se encantava a cada “uivo” ou dancinha sensual que ele mandava. Outro destaque ficou para a Wolf Alice. Mergulhada no clima setentista do disco The Clearing (2025), a banda entregou uma performance intensa e a animada, mesmo sob a chuva que caia do lado de fora da Tenda Metlife.
Melhores de domingo
Paralamas part. Nação Zumbi
Os Paralamas do Sucesso desfilaram os hits de mais de 40 anos de carreira na Arena Heineken. Faixas como “Vital e Sua Moto” e “Ska” já embalavam o público quando Herbert Viana chamou ao palco a Nação Zumbi. Esse grande encontro do rock brasileiro rendeu quatro músicas com a percussão forte do Nação em sincronia com a bateria de João Barone, começando com “Selvagem/Polícia” e “A Praieira” — nesse momento, parte do pedia para aumentar o som.
No fim do show, a banda subiu ao palco novamente para encerrar o show com “O Calibre” e “Manguetown”. Como disse Jorge Du Peixe, os Paralamas são uma das melhores bandas do país — e o público ganhou ainda mais com o show sempre azeitado unido à participação de peso do Nação.
Lykke Li
A sueca Lykke Li foi além do megahit “I Follow Rivers” e fez a alegria dos chapados, dos apaixonados e dos viciados em pistinhas. A cantora priorizou o repertório do novo disco, The Afterparty (2026) – cujo single “Lucky Again” ganhou um remix em funk de MC Morena com petrus-wav. Era impressionante ver o público cantando cada faixa do show do início ao fim, mostrando que, mesmo sem ter vindo ao país antes dessa turnê, ela já cativou fãs fiéis por aqui.
Mas provavelmente pouquíssimos esperavam que ela mandasse uma versão de “Sozinho”, hit na voz de Caetano Veloso, em bom português, interrompendo os sintetizadores por um inusitado momento acústico. O momento foi celebrado pela plateia com muitos gritos, palmas e alguns fãs emocionados.
Robert Plant com Suzi Dian (Saving Grace)
Robert Plant subiu ao palco acompanhado do projeto Saving Grace, mergulhando em uma sonoridade folk marcada por referências à música tradicional galesa e arranjos delicados conduzidos por instrumentos como banjo e violoncelo. A dinâmica vocal harmoniosa e cheia de química entre Plant e Suzi Dian deu o tom da apresentação. Outro destaque ficou para Plant, esbanjando simpatia, brincando com o público e arriscando “obrigados” entre uma canção e outra.
O clima da apresentação também destoou do imaginário roqueiro e explosivo do Led. Parte do público acompanhou o show sentados em cadeiras de praia, alguns com taças de vinho, em uma atmosfera até intimista. Ainda assim, quem esperava ouvir clássicos do Led Zeppelin não saiu decepcionado: sucessos da banda apareceram em versões adaptadas à identidade do Saving Grace, incluindo “Ramble On”, “Four Sticks”, “Friends” e “Rock and Roll”, logo depois do bis. O público ficou com gosto de quero mais – e o cantor prometeu voltar.
Boas surpresas: Oklou. A francesa botou todo mundo pra dançar na Tenda Metflife, num set que fluía bem entre o eletrônico e o orgânico, num palco bonito e minimalista. A cantora focou o repertório no hypadíssimo choke enough (2025) e ainda cantou uma música a mais no fim do set, aproveitando que o público estava aquecido.


