O som do pífano pode ser descrito como vívido e estridente, mas outra de suas características é a capacidade de resistir ao tempo. Em 1924, Manoel Clarindo Biano deu esse instrumento de sopro aos filhos Sebastião e Benedito, ainda crianças, enquanto assumiu a zabumba na primeira formação da Banda de Pífanos de Caruaru – que ainda contava com Martim Grande, primo deles, na caixa.
Um século depois, o pífano continua unindo a família, que ajuda a manter viva uma tradição cultural nordestina. Até hoje, os netos de Manoel continuam no grupo, assumindo a percussão: João na zabumba, Amaro no surdo e José e Jadelson nos pratos. Já nos pífanos, estão Junior Kaboclo e Ariane Rodrigues.
Apesar de carregarem o nome da cidade no nome, os primeiros passos dos Biano não foram dados em terras caruaruenses, mas sim no sertão de Alagoas, onde moravam na época, quando ainda respondiam por Zabumba de Seu Manoel.
A mudança para Pernambuco só aconteceu no fim da década de 1930. Nesse momento, os caminhos da banda já haviam cruzado os de Lampião, que ouviu os pífanos tocados por Sebastião e Benedito em 1927.
Quem também escutou a banda com atenção foi Gilberto Gil. Como conta o pesquisador Carlos Eduardo Pedrasse na sua dissertação de mestrado – Banda de Pifanos de Caruaru: uma análise musical (2002) –, o baiano esteve em Caruaru em 1972, logo depois de voltar do exílio em Londres. A sugestão de conhecer a banda veio de Jards Macalé, que havia visitado a cidade no ano anterior e recomendado o grupo ao amigo.

“Pipoca Moderna” foi uma das músicas que Gil ouviu e registrou na hora. Com o mesmo título, a gravação foi parar na faixa de abertura de Expresso 2222, disco que o cantor e compositor lançou no ano da sua ida à Pernambuco. “A partir dali, as coisas mudaram para nós”, o neto do fundador da Banda de Pífanos, João Biano, disse ao Correio Braziliense, em 2009.
Em vinil
Depois do encontro com o tropicalista, algumas portas se abriram. Uma delas foi o convite da CBS para a gravação de um LP. Naquele momento, com quase cinquenta anos de história, a Banda de Pífanos registrou suas músicas pela primeira vez. No documentário Pipoca Moderna (2019), dirigido por Helder Lopes, Seu Sebastião, protagonista da obra, relembra o episódio.
Bandinha de Pífanos – Zabumba Caruaru (1972), o trabalho de estreia, foi coproduzido por Onildo Almeida, músico e radialista caruaruense que teve diversas composições interpretadas por Gilberto Gil e Luiz Gonzaga – é dele a letra de “Sai do Sereno”, que também entrou em Expresso 2222, assim como “A Feira de Caruaru”, popularizada na voz do Rei do Baião.

Outros três álbuns saíram nos anos 1970: o volume II de Bandinha de Pífanos – Zabumba Caruaru (1973); e dois discos com o mesmo nome, Banda de Pífanos de Caruaru, um lançado em 1976 pela Continental e outro pelo selo Marcus Pereira, em 1979. A Bandinha Vai Tocar (1980), Raízes dos Pífanos (1982) e Tudo é São João (1999) vieram em seguida, preparando o terreno para No Século XXI, no Pátio do Forró (2003), vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras de 2004.
Com o impulso após a gravação dos primeiros trabalhos, a Banda de Pífanos viajou pelo Brasil, mostrando o seu som. Dessa leva de apresentações, uma das mais marcantes aconteceu em 1974, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde o grupo tocou junto com o Quinteto Violado e também com Dominguinhos. “Vamos encerrar o espetáculo com a música de Sebastião, ‘A Briga do Cachorro com a Onça’, em que improvisaremos junto com Dominguinhos”, Toinho Alves, do Quinteto, adiantou ao Jornal do Brasil, que noticiou o show que aconteceria no dia seguinte.
Em briga de cachorro e onça
Ao longo de O Agente Secreto (2025), filme de Kleber Mendonça Filho que concorre em quatro categorias no Oscar e já foi premiado tanto no Festival de Cannes quanto no Globo de Ouro, a tensão vai sendo construída pouco a pouco, até que a corda arrebenta de vez. Na cena em que isso acontece, “A Briga do Cachorro com a Onça” toca ao fundo e aumenta a ansiedade do espectador.

Presente no primeiro disco da Banda de Pífanos, a composição é de 1926 e fruto da parceria entre Manoel e seus dois filhos – embora os créditos sejam dados apenas a Sebastião, no Instagram, João Biano, filho de Benedito, explicou que essa decisão de centralizar a autoria foi uma sugestão do produtor do álbum, para facilitar o recolhimento dos direitos autorais.
Enquanto a trama de O Agente Secreto se desenrola, o carnaval toma a cidade, algo que o cineasta Helder Lopes considera interessante, por se entrelaçar aos primórdios da Banda de Pífanos. “Originalmente, eles tocavam muito mais no carnaval do que no São João. Hoje em dia, as bandas de pífanos são mais associadas ao São João, sobretudo em Caruaru.”
Em Pipoca Moderna, Lopes mergulha na história da banda e, principalmente, na de Sebastião Biano, que faleceu em 2022, dois meses após completar 102 anos – da formação original, ele foi o último a ir. Seu pai, Manoel, morreu em 1955, e o irmão Benedito, em 1999. A ideia do filme surgiu a partir de uma provocação de Gilberto Gil, entrevistado por Helder durante a feitura de outro documentário, Onildo Almeida – O Groove Man (2016).“Quando a gente encerra essa entrevista, Gil vira pra mim e diz: ‘olha, os Biano dão um belo filme também, hein?’.
Lançado em 2019, o documentário acompanha a viagem que o alagoano Sebastião fez de São Paulo – para onde se mudou na década de 1970 – a Caruaru, aos cem anos, para receber o título de Cidadão Caruaruense. Entre outras honrarias que a família carrega, também está a de Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Governo Federal em 2006, durante o primeiro mandato do presidente Lula.
“[Sebastião] Biano falava com o maior orgulho que ele sabia confeccionar, afinar e tocar todos os instrumentos da banda”, Helder compartilha. “Ele foi capaz, ao longo da vida, de plantar a taquara, colher a taquara, fazer os furos, tocar, montar uma banda… Ele protagonizava todo o processo, desde a raiz, literalmente, de onde se tirava o bambu para fazer o pífano, ou ele mesmo criava os animais de onde depois se extrairia o couro para fazer os tambores. Ele era um cara de uma sensibilidade incrível para a música.”
Em 1977, quando perguntado pelo Diario de Pernambuco sobre como poderia se explicar o sucesso da Banda de Pífanos de Caruaru, Sebastião respondeu: “Olha, não é propriamente o sucesso. A realização depende de se acreditar no que se faz, ter confiança. Fazer um trabalho original, autêntico. Buscando inspiração no que temos de mais autêntico, que é esse rico folclore nordestino. O resto vem espontaneamente, dependendo, é claro, da criatividade de cada um. Aconselho aos que estão iniciando agora que não desistam do seu trabalho, mesmo que o sucesso não venha logo, o que importa é o esforço para lançar a Música Popular Nordestina em outros lugares do Brasil e, quem sabe, no Exterior. O importante é divulgar o que é nosso.”