Na noite de quinta-feira (19), Viagra Boys e Interpol se apresentaram em um sideshow do Lollapalooza Brasil na Audio, em São Paulo, reunindo fãs em um dos eventos paralelos mais aguardados da semana — e com ingressos esgotados.
Os suecos do Viagra Boys abriram os trabalhos. Com o cancelamento da apresentação no Primavera Sound 2022, o público estava ansioso para ver ao vivo Sebastian Murphy (vocal), Linus Hillborg (guitarra), Elias Jungqvist (teclados), Henrik “Benke” Höckert (baixo), Tor Sjödén (bateria) e Oskar Carls (guitarra-saxofone). Os fãs que já acompanhavam os shows pelo YouTube já sabiam o que esperar: uma mistura de garage-pós-punk-hardcore e muita energia caótica no palco.
As pessoas já se amontoavam na pista quando as luzes baixaram ao som de uma imprevisível “Água de Beber”, de Tom Jobim, enquanto o público pedia “Viagra!, Viagra!”. Era o clima perfeito. Logo, os suecos subiram ao palco para mandar a primeira da noite, “Man Made Of Meat”, single do viagr aboys (2025), álbum que alavancou a carreira da banda formada em Estocolmo dez anos antes. Nas letras, denunciam com ironia o status quo, seja da sociedade, da masculinidade tóxica ou da política.
O repertório do show foi pautado no último disco, mas também rolaram faixas do Street Worms (2018), Welfare Jazz (2021) e Cave World (2022). O melhor ficou para a reta final, com a energética “Sports” rolando enquanto Sebastian mandava uma flexão no palco. A letra, impagável, exalta esportes como vôlei, basquete, fazer compras online e fumar um cigarro.
A quebra de expectativa é o cerne da banda. Sebastian quase sempre aparece sem camisa, exibindo a barriga tatuada e óculos de surfista — suas marcas registradas. Já o guitarrista (que também assume o sax) entrega na performance: dança em cima do PA e se joga no chão com o instrumento. Aliás, quantas vezes você viu um mosh durante um solo de sax? O show do Viagra Boys te entrega isso.
O público, aliás, foi um capítulo à parte, completamente entregue à energia e ao carisma do grupo. Era possível ver rodas de mosh de homens e mulheres e muito stage dive — inclusive dos integrantes (voltaremos a essa parte mais tarde). Sebastian foi certeiro nos momentos em que conversou com o público: gritou “fuck the fascists” enquanto Benke empunhava o baixo com os mesmos dizeres. Ele ainda emendou um “Free Palestine” enquanto o público vibrava.
Em outro momento, o vocalista deu uma palinha de suas primeiras horas no Brasil: afirmou não ter tomado tantas cervejas, mas não perdeu a oportunidade de mandar quatro caipirinhas (inclusive, foi flagrado por fãs num boteco em frente ao show). Sebastian ainda exaltou o pão de queijo como a melhor coisa que já comeu na vida — e olha que ele estava em São Paulo.
O frontman ainda encontrou espaço para se jogar no público (literalmente. Duas vezes). No fim, até o tecladista entrou na onda e se jogou no stage dive também. Por pouco, não levou o teclado junto. Era tanto caos no palco que a gente não sabia para onde olhar. O público saiu do show em êxtase.
A estrutura da Audio permite um show mais quente e próximo do público que saiu de casa naquela noite exclusivamente para ver as duas bandas. Mas, como visto, não dá para esperar pouco do Viagra Boys. Seguimos com expectativas altas até o festival.
Turn on the lights
Mas a noite não terminava ali. O mesmo público que moshou como se não houvesse um Lollapalooza pela frente ainda aguardava o Interpol. A banda mantém um público cativo no Brasil desde sua primeira passagem pelo país, em 2008, e seu pós-punk soturno cheio de lirismo já virou figurinha carimbada no festival.
Responsável por encerrar a noite, o Interpol tinha a difícil missão de suceder o caos do Viagra Boys — e conseguiu, à sua maneira. O público seguiu entregue, mas em outra vibe: atento a cada movimento de Paul Banks, ao carisma de Daniel Kessler e à precisão de Urian Hackney, baterista que substitui Sam Fogarino nas turnês enquanto o músico passa por um tratamento de saúde. A bateria de Urian, da escola punk de quem já tocou com nomes como Iggy Pop, se fez ecoar na Audio.
O palco minimalista do primeiro show deu lugar à estrutura de luzes do Interpol, já vista nas apresentações anteriores por aqui. Paul Banks surgiu com os cabelos platinados (!) e abriu com “All the Rage Back Home”, de El Pintor (2014). Como em apresentações recentes, o repertório de Antics (2004) teve destaque, com “C’mere”, “Evil” e “Narc”, seguido por faixas de Our Love to Admire (2007) e da estreia Turn On the Bright Lights (2002).
Durante as músicas do disco, as luzes vermelhas dominavam o palco, remetendo à icônica capa. Parte da plateia — em sua maioria, millennials de preto — reagia com familiaridade, inclusive comentando o verso “you should be in my space”, de “Narc” (hoje uma espécie de piada interna nostálgica entre os fãs, que remetia ao “MySpace”, uma rede social que não existe mais).
Colocar as duas bandas juntas poderia ser uma jogada de risco — caos e contenção, yin e yang —, mas, no fim, funcionou. O público parecia ser o mesmo, dessas combinações que só fazem sentido para fãs de rock alternativo dos trópicos.
Agora é esperar o “valendo” das duas bandas no festival, na tarde desta sexta (20/3).
