Wilson Lopes, o violonista por trás do álbum acústico de Milton Nascimento

18/03/2026

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Por: Lucas Vieira

Fotos: Marcos Hermes

18/03/2026

Nascido na cidade mineira de Pitangui em 1966, o maestro Wilson Lopes mudou-se para Belo Horizonte no começo da década de 1970. Na adolescência, passou a se dedicar integralmente aos estudos musicais e, com 15 anos, fez seu primeiro show instrumental ao lado do irmão, Beto Lopes, no Palácio das Artes.

Foi nesse mesmo centro cultural que o artista conheceu o guitarrista Toninho Horta, por intermédio de uma professora. Com a proximidade, o autor de “Manuel, O Audaz” convidou Wilson para seu casamento, uma festa que mudaria a vida do guitarrista para sempre.

*

Era uma tarde bonita no começo da década de 1980. Em um momento da festa, Wilson viu Milton Nascimento passar ao seu lado. Não resistiu. Bateu no ombro do cantor e disse: “Ô Miltão Doidão”. A brincadeira não surtiu o efeito esperado. Bituca parou, encarou o músico com seriedade e saiu sem falar nada.

Wilson passou a festa toda arrependido do ato. De repente, viu Milton se aproximar e dizer, em tom sério: “Quem é o doidão aqui?”. O climão não durou muito. Quase que imediatamente, o cantor abriu um sorriso e mostrou que estava brincando. Ali nasceu uma longa amizade, que, ao longo de quatro décadas, rendeu composições, gravações, turnês ao redor do mundo e muitas alegrias.

Os violonistas 

Ao longo de seus quase 60 anos de carreira, Milton Nascimento tocou com uma infinidade de violonistas e guitarristas que o acompanharam em discos e shows. Entre o final da década de 1960 e ao longo dos anos 1970, esteve ligado, principalmente, a músicos que fizeram parte do Clube da Esquina. Beto Guedes, Lô Borges, Tavinho Moura, Tavito e Fredera – estes dois últimos, membros do lendário grupo progressivo Som Imaginário – são alguns dos nomes que tocaram com o cantor durante o período.

A partir dos anos 1980, outros nomes de origens diferentes se somam aos encartes dos LPs do cantor, como Hélio Delmiro, Heitor TP, Bento Menezes e Celso Fonseca. Mas, entre os recordistas em aparições nos álbuns de Milton da primeira metade de sua carreira, ninguém supera Toninho Horta e Nelson Angelo.

Além de ter composições inesquecíveis como “Aqui, Oh” e “Beijo Partido” gravadas pelo cantor, Toninho Horta adicionou harmonias elaboradas e solos jazzísticos aos discos de Milton com um estilo inconfundível. Presença constante nas gravações da EMI-Odeon – gravadora que tinha também em seu casting Gonzaguinha, Simone, Nana Caymmi e outros grandes nomes da MPB nos anos 1970 –, Nelson Ângelo gravou com Bituca desde a década de 1960, assinando violões e guitarras em obras como Milton Nascimento (1969), Milagres dos Peixes (1973), Minas (1975) e Geraes (1976). 

Dez anos depois da história do casamento, Milton estava em um momento de tristeza e convidou Wilson Lopes para ir a sua casa. A dupla passou dias tocando e compuseram as canções “De Um Modo Geral” e “Coisas de Minas”, que entraram no disco Angelus (1994), o primeiro em que o músico trabalhou com o cantor. Ao longo dos anos, também assinaram as parcerias “O Cavaleiro”, “A Lágrima e o Rio” e “Sexta-Feira”.

Depois da gravação de Angelus, Wilson passou a acompanhar Bituca nos palcos, participando da maioria dos projetos do cantor ao longo das últimas três décadas. Além de tocar guitarra, violão e viola caipira, foi arranjador e diretor musical de diversos projetos de Milton Nascimento.

Quando entrou na banda de Milton, Wilson tocava em bares com uma guitarra emprestada. Primeiro, foi presenteado pelo cantor com um violão de cordas de aço Yamaha. Conforme foi montando seu equipamento, passou a usar uma guitarra Paul Reed Smith (PRS) e poucos pedais, com predileção para os efeitos de delay – que costuma usar ligado o tempo todo –, boost e compressor, ativados principalmente nos solos.

Após a longa travessia ao lado de Milton Nascimento, Wilson Lopes consegue identificar o que é preciso para um violonista tocar com o cantor: “O músico precisa ser bom de bola, estudar muito. Também é preciso ser perspicaz. O Milton dá toda a liberdade para os instrumentistas, mas é necessário saber a hora de tocar muito e o momento de não tocar. Tem que ser autêntico, respirar a música do Bituca e ter sensibilidade, que é algo que ele tem de sobra”.

Um violão de outro planeta

Embora tenha contado com alguns dos melhores violonistas do Brasil – e também do mundo, a exemplo de Pat Metheny – em suas gravações, o violão do próprio cantor é o que mais se destaca em sua obra. Instrumentista e compositor, Milton Nascimento tem uma assinatura com influência do jazz, da bossa-nova, do samba, do rock da década de 1960 – em especial dos Beatles, banda da qual é um grande fã –, e das tradições musicais mineiras. Bituca tocou o instrumento na maior parte de seus discos e shows.

O equipamento utilizado por Milton ao longo da carreira foi diversificado. Seu principal tipo de violão sempre foi o de cordas de nylon – apesar de também ter usado as de aço – e, nas décadas de 1960 e 1970, uma das principais marcas usadas pelo artista foi a nacional Di Giorgio. Nos anos 1980, usou em algumas gravações e shows os Ovation, caracterizados pelo corpo em fibra de carbono e pela captação que facilita o uso de efeitos.

Entre vários instrumentos, o que mais marcou a carreira de Bituca foi um par de violões de cordas de nylon que ganhou de presente de Pat Metheny, feitos especialmente para o cantor, sob encomenda, pela luthier canadense Linda Manzer, na cor sunburst, e que trazem o desenho do trem e da serra – o mesmo da capa do LP Geraes –na mão. Eles são vistos em diversos shows emblemáticos da carreira do artista, como Tambores de Minas (1999), Gil & Milton (2000), e Uma Travessia (2013).

Sobre o estilo de Milton ao violão, Wilson comenta: “O jeito de tocar do Bituca é único. Ele tem uma mão direita muito boa para as levadas rítmicas, monta acordes de uma forma muito própria, é um violão muito rico. No começo da carreira, ele experimentava afinações alternativas, algo incomum para a época. É muito curioso o fato de que, nos 1950, em Três Pontas, não havia onde aprender música com a complexidade que ele desenvolveu. A única coisa que explica essa erudição, para mim, é o fato que ele respira música 24 horas por dia. Desde muito pequeno ele ficava fazendo som com qualquer coisa que tinha em casa, ele e o Toninho Horta tiravam música ouvindo o rádio e, se não pegassem as notas antes da transmissão terminar, ficavam inventando os acordes que faltavam. Isso é incrível!”. 

Além de músico, Wilson é professor da UFMG, onde criou uma disciplina chamada “A música de Milton Nascimento”, uma das matérias mais requisitadas do curso de música popular. Nas aulas, analisa harmonias e melodias e nuances da obra de Bituca. Em seu mestrado, estudou as primeiras composições do cantor feitas ao lado do letrista Márcio Borges, e também publicou o único songbook com partituras revisadas pelo artista.

Mesmo com tanto estudo e tempo de estrada com Bituca, Wilson revela que foi pego de surpresa pela obra do cantor ao longo de sua jornada. Um dos exemplos se deu quando foi aprender a música “Maria Três Filhos” e não conseguiu sozinho, precisando que o próprio Milton o ensinasse: “Ele estava deitado na cama, com uma meia branca, vendo TV. Quando pedi ajuda, ele sem levantar disse: ‘Ah, essa música é simples, olha aqui, é um samba’. E tocou a canção com a maior facilidade do mundo. Ela é em compasso 4/4 e o violão toca em 9/16, um negócio muito difícil. Não dá pra entender como ele consegue tocar e cantar. Ele é um mistério, às vezes acho que não é desse planeta”.

Em dupla 

Um dos principais frutos da parceria entre Wilson Lopes e Milton Nascimento é o álbum Tarde, gravado em 2007. Mesmo com a presença de outros instrumentos, o disco destaca a intimidade do encontro entre as cordas do instrumentista e a voz de Bituca.

A canção “A Festa” foi a primeira gravada. Juntos, no Rio de Janeiro, Milton e Wilson dividiram os violões da faixa. Em seguida, a dupla se separou e foi decidindo os detalhes do álbum por telefone. “Já éramos tão entrosados que não tinha erro. O Milton me ligava e passávamos horas conversando. Eu criava os arranjos a partir das ideias dele, gravava e, em seguida, ele colocava a voz. É, para mim, um projeto muito emocionante, feito para ouvir do começo ao fim, chamar os amigos e escutar junto, com calma e atenção, sem o imediatismo exagerado de hoje”.

Da gravação de Angelus até A Última Sessão de Música, em 13 de novembro de 2022, foram vários encontros e despedidas entre Milton Nascimento e Wilson Lopes. Porém, nunca um “adeus”, sempre um “até logo”. Sobre a importância do trabalho ao lado de Bituca em sua vida, o maestro comenta: “Eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo. Nos conhecemos daquela forma inusitada e demoramos dez anos para começar a fazer música juntos. Eu tocava em bar e virei guitarrista dele, fiz músicas junto com ele, comecei a fazer arranjos para as músicas dele e virei diretor musical de suas obras. É como ganhar na loteria diversas vezes”.

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #167 que acompanha o disco Tarde, de Milton Nascimento, lançado pelo Noize Record Club.

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Lucas Vieira