Após o lançamento do EP Vênus 95 (2022), Amanda Sarmento lançou um disco cheio que nasce do encontro profundo entre a sombra e a transformação. Disponível em todas as plataformas digitais desde 19 de junho, ECLIPSE (2026) pavimenta a trajetória da cantora, compositora e rapper carioca.
Produzido por Iuri Rio Branco, o trabalho reúne doze faixas que funcionam como um mosaico de referências: do rap e R&B, bases da sua formação, ao afrobeat, trap, drill e texturas eletrônicas mais densas. A construção de ECLIPSE funciona como um diário de bordo emocional, no qual a sonoridade — que transita entre o rap, R&B, afrobeat, trap, soul, drill e música eletrônica — serve como palco para diferentes estados de espírito.
Logo na abertura, o álbum estabelece um clima envolvente, quase nostálgico do R&B dos anos 90. O clima romântico segue em “QUENTE”, que mergulha nas referências do hip-hop dos anos 2000, unindo a estética de nomes como Beyoncé e Ciara a uma crônica urbana sobre a rotina caótica e bela do Rio de Janeiro.
No entanto, a narrativa logo ganha contornos de libertação. Em “ME DEIXA LIVRE”, a artista confronta a necessidade de voar solo em busca de seus próprios horizontes, mesmo amando quem ficou para trás. A partir daí, o disco deságua em uma atmosfera mais densa, marcada por temas como os envolvimentos perigosos da realidade carioca — vide a batida de afrobeat em “VOCÊ NO PLANTÃO” — e segue transitando em diferentes sonoridades.
Empresariada pela atriz Clara Moneke (Dona de Mim, Vai na Fé), a cantora detalha os ciclos emocionais que moldaram cada faixa, celebrando a maturidade de quem, hoje, aceita que força e fragilidade podem coexistir. “É um álbum sobre aceitar as próprias contradições. Mais do que apresentar um novo trabalho, sinto que estou apresentando uma versão mais completa de quem eu sou como artista e como pessoa”, finaliza.
Leia o faixa a faixa ECLIPSE:
“OBSESSÃO”: Uma das que eu já tenho há muito tempo e é para mim a música que fez o disco nascer. Eu já tinha feito ela há muito tempo com o meu produtor, CARLO, e, como ele é daqui do Rio de Janeiro, a gente sempre tá em contato um com o outro e eu sempre tô colando lá no estúdio dele. Em uma dessas vezes, a gente estava junto no estúdio e a música surgiu. Eu estava com umas referências de cantoras de R&B gringas que eu gosto muito e queria fazer algo nessa mesma vibe, aí surgiu “OBSESSÃO” falando sobre realmente estar obcecada por alguém, pensar em alguém toda hora… isso acontece muito quando a gente está conhecendo uma pessoa, né? De pensar o tempo todo na pessoa e isso se tornar um pouco uma coisa obsessiva. Eu usei umas referências também da música “Onda”, do Cassiano, e aí no estúdio casou completamente com o beat e sobre essa coisa, né, de feitiço, de obsessão e, enfim, gosto muito de falar sobre o mar também. Quando eu conheci o Iuri Rio Branco e fomos juntos para o estúdio, eu levei essa música e ele mexeu também, trouxe outras ideias até chegar no resultado final.
“QUENTE”: Eu queria muito que a sonoridade lembrasse o hip-hop, sabe? Dos anos 2000. Quando eu era criança, eu era viciada em videoclipes de hip-hop, eu amava assistir. Eu era viciada na Ciara, na Pussycat Dolls, Beyoncé… Então eu quis trazer na sonoridade dela essas referências, misturando com R&B brasileiro também. Na sonoridade dela, ela traz isso e, na letra, eu quis falar muito sobre o Rio de Janeiro, sobre minha vivência aqui. O primeiro verso que surgiu foi realmente o primeiro verso da música e depois ela foi deslanchando, né? Essa música nasceu assim, fala sobre o Rio, fala sobre minha vivência, eu que moro hoje em dia no centro do Rio, sempre tô na praia vendo todo esse caos e toda essa beleza acontecer.
“ME DEIXA LIVRE”: A terceira música tem muita relação com o que eu estava vivendo na época, mais do que tudo. Ela explica o álbum e dá várias pistas do que é um eclipse acontecendo, sabe? Do que é o céu mudando. Mas essa também é muito o que eu estava vivendo ali na época de deixar as coisas aqui no Rio e ir para São Paulo gravar e de ter uma pessoa aqui no Rio que eu amo, mas que eu preciso também estar pronta para voar sozinha e alcançar meus próprios voos. É muito importante sempre lembrar disso mesmo quando você está dentro de um relacionamento, sabe? Então essa música fala sobre isso, sobre trilhar os meus próprios caminhos, porque assim na liberdade eu me sinto confortável para voltar para casa, para voltar para as minhas raízes, para meus amigos, para quem eu amo.
“VOCÊ NO PLANTÃO”: Fala muito sobre uma vivência aqui do Rio que estamos acostumadas a ver, que é de mulheres que se envolvem com pessoas envolvidas no crime, de certa forma, e sofrem muito com isso. Isso é algo recorrente perto de onde eu moro, perto das pessoas que eu conheço, sabe? É uma realidade de muita gente e, de certa forma, eu quis falar sobre isso nessa música. Ela é um afrobeat e foi muito bom fazê-la no estúdio. O afrobeat traz toda uma ancestralidade e eu gosto demais.
“EU JÁ SOFRI DEMAIS” (part. Ruas Mc): A música que eu tenho com Ruas Mc é um garage e eu amo demais o garage. O garage é um gênero que me foi apresentado quando eu comecei a fazer R&B, que é o R&B misturado com o drill, e aí eu comecei a conhecer essa cena underground aqui do Rio de Janeiro, do grime, do drill. E aí, um artista aqui do Rio de Janeiro, da cena underground, me convidou para fazer um garage e eu conheci esse ritmo que eu já amava, mas não conhecia o nome, e comecei a explorar. Várias cantoras de R&B gringas, como a Jorja Smith, estão fazendo garage. Levei pro estúdio, pro Iuri e algumas referências, fizemos esse instrumental e aí ele me apresentou o Ruas Mc, muito brabo. Ele amassou na letra, eu gostei muito do flow que ele colocou, de como a música ficou e é uma das minhas favoritas do disco, principalmente pela sonoridade dela. Como ela soa, sabe? Amo demais música eletrônica, essa vibe “vamos sair para a noite”. Eu sou meio clubber, então essa música é perfeita para mim.
“SOUL EU”: Faz parte de uma sequência em que eu quis diminuir a frequência do disco assim, né? Porque tá chegando perto do interlúdio. Então, “SOUL EU” é essa música que vai diminuindo o ritmo. A música volta pro R&B e eu gostei muito de escrevê-la. Ela é a única do álbum que eu escrevi com outra pessoa, o DaPaz, um escritor aqui do Rio. Ele está muito acostumado a fazer R&B e pagode. A gente chegou nessa, que é uma das minhas favoritas também, e eu gosto muito da letra dela, acho ela um estilo de R&B clássico.
“CHEGA MAIS PERTO” (part. Dona Maria Poeta): Muito importante para mim. No álbum, é o Interlúdio. Eu sempre quis fazer um R&B mais alternativo e eu fico muito feliz com o resultado que a gente conseguiu nessa música, reunindo todas as referências que eu levei, que eu pensava, que a gente trocou em estúdio. Ela tem como produtores o Iuri e a Mahmundi. Fiquei muito feliz porque a Mahmundi é minha ref, e ver esse lado de produção foi muito legal, nossa troca sobre composição. Foi um dos dias de estúdio que eu tava com um bloqueio criativo, então foi muito legal ter essa presença lá, sabe? E, para completar tem o áudio da Dona Maria Poeta que é a avó da Clara [Moneke], a avozinha da Clara que é uma poetisa incrível e eu, como boa leitora, amo poetisas, sempre trago nos meus projetos alguma escritora negra, alguma poetisa negra e poder colocá-la foi incrível. A Clara me mostrou o áudio da avó dela cantando no violão e eu falei: “cara, isso tem que estar no disco de algum jeito”.
“SUBMERSA” (part. Tássia Reis): A música que toca após chegar mais perto, que faz parte dessa sequência de músicas que eu quis colocar estrategicamente nessa ordem, fecha essa frequência e traz o feat com a minha amada Tassia Reis, que é também minha ref, e foi muito incrível poder fazer esse feat com ela. ela. Eu a conheço há muito tempo, acompanho ela há muito tempo e sempre foi uma referência para mim, sempre tentei mostrar minhas músicas para ela, minhas primeiras músicas quando eu era mais nova… poder estar com ela em estúdio foi demais, trocando papo e vendo as técnicas vocais. Eu tava lendo um livro na época que se chama “Eloquência da Sardinha: Histórias incríveis do mundo submarino”, de Bill François, e esse livro fala sobre esse cientista que estava estudando o mar e o comportamento animal, e aí, me deu um estalo esse livro, ele tem várias frases que foram parar na música. Ele é um exemplo destas minhas referências literárias. Um livro completamente aleatório, mas que se tornou pivô para eu escrever essa música. Eu juntei coisas desse livro com outras românticas que eu queria falar e saiu a “SUBMERSA”.
“MULHER”: Essa é uma das minhas favoritas e eu a tenho há muito tempo; escrevi quando era bem mais nova. Quando eu fazia faculdade de Ciências Sociais, eu tive aula de Antropologia com a professora Luena Nascimento. Ela foi uma mulher muito importante para mim, me ensinou muito, me mostrou um universo da cultura, história, sobre o povo negro, sobre a mulher negra e ela é sobrinha da Beatriz Nascimento, que foi uma escritora, pesquisadora, uma grande intelectual brasileira. Eu me apaixonei pela história da Beatriz Nascimento, pela escrita dela, pelos documentários, eu fiquei hiper focada e escrevi essa música inspirada num poema dela, de um livro que se chama “Quilombola e Intelectual”, que são compilados de várias histórias dela, artigos, documentários que ela já participou, poemas que ela já escreveu. E essa música faz parte de um poema que pertence a esse livro, que se chama “Sonho”. Eu gosto muito do jeito que ela escreve e eu fico muito feliz de poder trazer essa história, contar sobre isso, de poder falar sobre essa professora. Esse período meu da faculdade foi essencial para tudo que eu sou hoje em dia, para toda a minha visão artística, para as referências que eu tenho.
“EU NÃO LIGO”: Essa foi uma música muito divertida de se fazer, ela fluiu bem fácil. Eu amo o R&B, como eu disse, e ela foi muito divertida de fazer, trouxe referências da Luka, né? Da música “To nem aí”, que eu amava ouvir na minha infância. Então, eu quis trazer essa energia, sabe, de uma pessoa que já superou e vai sair com as amigas e não tá nem aí para nada. Eu fiquei muito feliz com o resultado que a gente conseguiu e também com o processo de criação dela.
“ASSALTO”: Quis trazer esse lado mais rimado. Eu gosto muito de me arriscar. É uma música que me tira da minha zona de conforto, mas eu sempre gosto de experimentar diferentes flows. Eu não gosto de ficar com o mesmo flow. Então, neste disco cada música é um gênero, são gêneros que eu ouço, que eu me arrisco a fazer e a tentar ser boa nisso. Aqui, eu trouxe como referência um filme que se chama “Até as Últimas Consequências”, que tem a Queen Latifah, e que eu gosto muito. É também uma das músicas que eu guardo há um tempo porque eu sempre quis falar sobre isso, sobre garotas planejando um assalto, e aí eu fiz essa referência de garotas roubando a cena e o instrumental funcionou muito. Ficou incrível demais esse instrumental super diferente, realmente é uma música que me tirou da zona de conforto.
“MANIFESTO”: Para terminar, é literalmente um mantra de manifestação. Quando eu cheguei no estúdio, quando eu conheci o Iuri, foi a primeira música que a gente fez e eu falei para ele: “Olha, eu tenho só essa frase, eu manifesto e acontece”. E aí surgiu tudo muito fácil. Ele ficou trabalhando no instrumental e eu no outro canto do estúdio trabalhando na letra, que saiu muito rápido também. Eu comecei realmente a pensar em todos os mantras de manifestação que eu conheço, assim, sabe, que eu sempre vejo, que eu sempre leio sobre, que eu sempre estou em casa manifestando. Eu sou muito esotérica, eu tenho muita fé, minha casa é sempre cheia de incensos, plantas e coisas assim. Então, eu comecei a escrever realmente um mantra, sabe? Do que eu queria para minha vida a partir desse disco. Quero muito que essa música funcione como um mantra, não só para mim, mas para as pessoas, porque quando a gente começa a escrever sobre a realidade que a gente quer alcançar, começa a pensar positivamente sobre si, para de se autodepreciar, sabe? Coisas maravilhosas acontecem realmente. não é mentira, sabe?