Coloque uma pitada de Azymuth, um tempero de Tim Maia, um bocadinho de Marcos Valle e misture com Arthur Verocai — é com essa combinação que o ouvinte se depara já nos primeiros minutos de Animal Invisível, disco do projeto autointitulado de Guri Assis. A estreia foi lançada em abril pelo selo nova-iorquino NuBlu Records, e segue na toada dos singles “Didi” e “Que Delícia é Viver” — com faixas instrumentais que propõem o mix grooveado de jazz, soul e samba.
Animal Invisível é um projeto que nasce da pandemia — o que justifica plenamente o nome, pois, em meio a incertezas, nos deparamos com aquele vírus, então desconhecido. Guri Assis tentou transformar parte do período de isolamento em imersão criativa. Talvez em resposta a isso, suas canções soam como uma manhã ensolarada de domingo, quando se coloca um vinil pra rodar e se vê uma fresta de luz entrando pela janela.
É, também, a continuidade do projeto musical do músico gaúcho, figura já conhecida nas cenas paulista e porto-alegrense, desde os tempos de banda Pública até às parcerias com Otto a Céu, passando por Luiz Melodia e Angela Ro Ro.
Participam deste primeiro álbum músicos como Pupillo (que toca bateria em “Estriquinada”) e o trombonista Antonio Neves, na faixa homônima que abre o disco.
Leia e ouça Que Delícia é Viver neste faixa a faixa por Guri Assis:
“Que delícia é viver”: A expressão “Que delícia é viver” nasceu de risadas entre amigos em um bar de São Paulo. Desde então, sempre que algo bom acontece, repetimos essa frase. Quando toquei os primeiros acordes dessa música, o primeiro sentimento que tive foi simplesmente alegria.
Ela evoca um som do Rio de Janeiro dos anos 1970 — um dia ensolarado na praia, com cerveja, conversa e risadas entre amigos. Compus essa faixa com o incrível trombonista Antonio Neves, um carioca da gema que representa exatamente tudo isso que descrevi.
“Animal Invisível”: Esta foi a primeira música composta para o álbum. Surgiu durante a pandemia, inspirada por um vídeo do The Roots que eu havia assistido online. O órgão Hammond, os metais e um groove de inspiração americana são a força motriz da faixa. Foi também através dessa música que descobri que poderia gravar remotamente com meus amigos enquanto estávamos em isolamento. Se não fosse por essa música, o álbum não existiria!
“Estriquinada”: Essa faixa foi composta pensando nas pistas de dança brasileiras dos anos 1970 e 1980. O groove é um boogie brasileiro, inspirado por grandes nomes como Marcos Valle, Lincoln Olivetti e Robson Jorge.Foi composta em parceria com Pedro Dantas e conta com um dos maiores nomes da bateria brasileira: Pupillo, baterista fundador da Nação Zumbi.
“Cavalo Indomável”: Essa música começou com um riff de Fender Rhodes e é a única faixa do álbum em que eu não toco guitarra. Em vez disso, gravei Juno, Rhodes e Clavinet. Sempre quis usar um Purdie Shuffle, e essa música pareceu perfeita para isso. Embora remeta a trilhas sonoras vintage de perseguições de carro, ela também carrega uma vibração psicodélica que lembra artistas contemporâneos como Tame Impala.
“Dendê”: “Dendê” é a faixa mais complexa e elaborada do álbum, com harmonias que mudam constantemente. Eu a escrevi um dia sentado na sala de casa — meu cachorro ficou me olhando o tempo todo, então dei à música o nome dele.Embora dendê seja um tipo de óleo usado na culinária baiana, a música em si não tem relação com a Bahia. Ela foi inspirada por grandes arranjadores brasileiros como Arthur Verocai e Moacir Santos. Decidi incluir um quarteto de cordas — e acho que funcionou perfeitamente!
“Didi”: foi escrita para um amigo que certa vez me viu tocar guitarra na casa de outro amigo. Eu estava tentando tocar “Dindi”, de Tom Jobim, mas brincando cantei usando o apelido dele — “Didi”. Foi assim que surgiram a harmonia e a melodia. É uma das minhas favoritas — uma das mais complexas harmonicamente e com enorme potencial para brilhar em apresentações ao vivo.
“Casablanca”: “Casablanca” é a faixa mais experimental do álbum, pois mistura uma grande variedade de estilos e referências — da música árabe ao rock — culminando em camadas de sintetizadores e uma forte melodia com vocoder. Também é a música com o maior número de músicos participando em uma única faixa.
“Pior que acordei bem”: Uma faixa de pista de dança tocada por apenas três músicos. Em certo momento pensei em adicionar metais e arranjos de cordas, mas decidi mantê-la crua. O título (“Pior que acordei bem”) é uma referência bem-humorada àquelas noites de muita bebida em que, de alguma forma, você acorda se sentindo ótimo na manhã seguinte.
“Um lobo à espreita de alguém”: A música mais voltada para o rock no álbum — mas também uma das mais funky. Eu a descreveria como uma mistura de Funkadelic com Azymuth.
