A humanidade sempre olhou para o céu tentando descobrir o que existe para além do planeta que nos habita — e a arte acompanha essa curiosidade há décadas. De Ziggy Stardust, o alienígena roqueiro que chegou à Terra pelas canções de David Bowie, a Lucas Silva e Silva, da série No Mundo da Lua, passando por Deivinho, do filme Marte Um, o imaginário espacial atravessou gerações de sonhadores. Uma dessas pessoas é Caio Horowicz.
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Conhecido por trabalhos no cinema, como Califórnia (2015) e Ainda Estou Aqui (2025), além da série Brasil 70: A Saga do Tri, novidade da Netflix, o ator paulistano agora prepara uma nova missão: sua estreia como músico. O plano é lançar ainda este ano um disco conceitual inspirado pelo universo da ficção científica, pela comunicação entre mundos e pela pergunta que moveu algumas das maiores explorações humanas: como nos apresentamos ao desconhecido?
A ideia nasceu de uma inquietação antiga, descoberta ainda durante sua formação como ator. Em um ensaio na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-USP), Caio teve contato com a história do disco de ouro da Voyager 1, uma cápsula lançada em 1977 pela NASA.
Com direção de ninguém menos que Carl Sagan, o chamado Golden Record funciona como uma espécie de retrato sonoro da Terra: reúne músicas de diferentes culturas, sons da natureza, como trovões e baleias, além de saudações em dezenas de idiomas. A proposta era criar uma pequena antologia da experiência humana, caso a sonda um dia fosse encontrada por alguém no espaço.
Fascinado pela ideia, Caio Horowicz guardou aquela imagem. Anos depois, ela retornaria como ponto de partida para seu primeiro e vindouro álbum. “Fiquei pensando: se eu tivesse que me comunicar com um ser que eu nem sei se existe, o que eu mandaria? Qual seria a minha antologia?”
Antes de chegar ao espaço, porém, a música já fazia parte da trajetória do artista. Caio aprendeu a tocar violão com o pai e logo encontrou seus próprios caminhos pelos instrumentos. “Meu pai era beatlemaníaco, me influenciou muito. Comecei no violão, mas depois fui para a bateria; queria ser o Ringo Starr [risos].”
Também estudou saxofone, impulsionado por uma relação profunda com o jazz que vinha desde que ele era pequeno. Já adulto, enquanto conciliava a carreira de ator, Caio passou a se dedicar mais profundamente ao violão — da teoria à prática no instrumento de nylon.
Sua experiência como intérprete também sempre esteve atravessada pela música. Em California, longa dirigido por Marina Person, Caio viveu um personagem ligado ao universo pós-punk, sensível e apaixonado pela música. Durante a preparação para o papel, criou uma playlist que ajudava a construir a atmosfera emocional da história. A relação com Marina, que começou no set e se transformou em amizade, também foi fortalecida pela conexão com o The Cure.
“Uma das minhas preparações pra viver o personagem foi montar uma playlist, o que faço até hoje”, conta. “90% do tempo de um ator é espera, só o restante é estar em cena. Nesse tempo de espera, eu fico escutando essas playlists.”
O próprio disco de ouro
Caio imagina seu primeiro álbum como uma obra narrativa dividida entre prólogo, interlúdios e epílogo. A história acompanha uma espécie de primeiro contato: um ser humano observando a Terra pela primeira vez, tentando compreender o mundo e estabelecer uma comunicação com algo — ou alguém — distante. “O sci-fi, pra mim, é uma forma de revelar o que é mais humano”, diz.
“O sentimento de solidão pode ser muito épico — essa vontade de se comunicar com alguém que você não está conseguindo alcançar, seja pela distância, seja pelo luto. O alien é metáfora para essa pessoa que você não sabe se existe, se vai conseguir chegar até ela.”
Musicalmente, Caio também busca um encontro entre o imaginário futurista e elementos mais orgânicos. O artista investiga novas possibilidades para o violão de nylon, explorando timbres pouco associados ao instrumento nesse contexto sci-fi, citando como referências Kiko Dinucci e Baden Powell, mestres na experimentação do instrumento. Ao mesmo tempo, mergulhou nos sintetizadores, e passou a experimentar com um Korg Minilogue XD. Entre as referências, também aparecem Arnaldo Antunes, pela relação com a palavra e a experimentação da linguagem, e Radiohead, pela busca constante por novas formas sonoras. Dá pra notar que a mistura é muito potente.
No fim, Caio Horowicz encontra uma ligação curiosa com aquele menino da série da TV Cultura que imaginava viagens espaciais dentro de um quarto. “Acho que sou um pouco mesmo como o Lucas Silva e Silva, sabe? Me interessa muito esse universo de alguém dentro de um quarto tentando se comunicar com uma coisa muito maior.”
