O Casarão do Vinil é um dos endereços mais conhecidos pelos colecionadores de discos e amantes de música na cidade de São Paulo. Localizada na Mooca, a loja foi fundada por Manoel Jorge Diniz Dias, também conhecido como Manezinho da Implosão.
A alcunha se deve à profissão do empresário, que é engenheiro de minas e uma das maiores autoridades em implosões controladas do país. Ele foi o responsável, por exemplo, por operações em edifícios como o presídio do Carandiru, em São Paulo e o edifício Palace II, no Rio de Janeiro. Dias aprendeu com Hugo Takahashi, que ele carinhosamente chama de “papa das implosões”, a dominar a técnica.
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A história do Casarão propriamente começou depois de outro empreendimento iniciado pelo engenheiro, que em 2000, adquiriu em um leilão, um lote de produtos antigos do catálogo da Avon.
“Avon vende produtos de beleza, mas também um catálogo de roupa, sapatos, todas essas coisas. E quando acaba ficando muito repetido, eles fazem grandes leilões. Comprei cinco carretas de roupas femininas, calcinha, sutiã, combinação. E aí, não tinha onde colocar isso, foi um ato meio impensado,” explica o empresário, que abriu uma loja na Rua do Oratório para vender os produtos.
“Foi um grande fracasso”, relembra. “De cada cinco pessoas que entravam na loja, quatro eram para roubar e uma para dar cobertura. O ponto não era bom.” Fechar a loja, no entanto, não foi uma ideia. Manezinho resolveu mudar de ramo e transformou o negócio em uma espécie de sebo. “Comprava livro, pagava R$ 1, e se fosse à base de troca, pagaria o dobro.”
A oferta de discos passou a chegar junto com os livros, o que despertou o interesse do empresário por este segmento. “Aluguei o casarão em 2001, há 25 anos, para guardar os discos mais caros e fiquei 15 anos só comprando os discos”, conta. Em determinado período, o engenheiro comprava 2 mil LPs por dia e chegou a ter um acervo de 1,5 milhão de discos. Hoje, o acervo possui cerca de um milhão de itens.
Quando questionado sobre a maneira como adquire os produtos, Manezinho explica que é muito comum que as pessoas vão até a loja para vender — como aconteceu, inclusive, durante a visita da Noize ao estabelecimento.
“A partir daquele momento eu passei a comprar no sistema de escambo e aí eu fiquei fascinado e comecei a comprar”, relembra, sobre a construção do acervo milionário. “E teve todo tipo, como aqueles caçadores de relíquias. Fiquei viajando pelo Brasil, cheguei em um cara que tinha oito lojas lá na Galeria [do Rock]. Ele estava vendendo o vinil para comprar um imóvel. Eu vendi o imóvel para comprar o vinil,” brinca. Manezinho comprou 200 mil discos dele, que foram transportados em cinco caminhões.
Durante o tempo em que a mídia esteve em baixa, Manezinho atribui a sobrevivência do vinil aos vendedores de discos, que continuaram acreditando no potencial, além de Djs, pesquisadores e colecionadores. Hoje, com o retorno da popularidade dos discos, o mercado vive um novo momento de glória.
O engenheiro conta ainda que os discos de rock são os mais procurados pelos frequentadores do Casarão do Vinil. Por isso, surge uma estratégia de organização dos discos na loja: os discos de rock não ficam separados de outros estilos na loja. Para ele, isso evita que as pessoas entrem, vejam apenas esses e saiam.
“A gente usava o formato de garimpo,” explica. “Então, o cara tem que garimpar e quando garimpa para pegar o rock, vai ver o clássico, a MPB. Então, no fim, o cara pegava 10 de rock e 30 de outros ritmos”.
As joias do Casarão
Em um acervo tão vasto, se destacam algumas obras, é o caso do compacto do sexteto que originou a lendária banda os Mutantes: O’Seis. “É um compactozinho, de duas músicas. Sabe quem é? Pré-Mutantes. Rita Lee com 17 e 18 anos. Eu tenho cinco deles.”
“A estreia do Roberto Carlos é emblemática porque ele renegou o disco e ele foi um disco que ele lançou com o piano de João Gilberto“, conta sobre o álbum Louco Por Você, lançado pelo Rei em 1961. O disco foi vendido para um integrante de um grupo de rap.
Novas lojas
Além do ponto já consolidado no endereço na Mooca, Manezinho adquiriu duas mansões na Bela Vista, onde será inaugurada, no segundo semestre deste ano, a ampliação do Casarão que terá uma capacidade seis vezes maior que a primeira loja, além de funcionar como um centro cultural.
A ideia é classificar o Casarão do Vinil como um ponto turístico da capital paulista, para isso, o engenheiro buscou uma localização privilegiada e o apelo arquitetônico para a abertura do novo endereço.
“Aqui vai se tornar não só uma loja, mas um ponto de encontro da galera da cultura. Vai ter um piano, vai ter quadro, livros raros. Objetos de colecionismo, revistas antigas, fitas cassete, tudo o que você imaginar”, explica o engenheiro sobre os novos espaços, localizados na Rua dos Franceses. A ideia de ampliar parte da ambição de não ser apenas a maior loja de vinis da América Latina, mas figurar entre as maiores do mundo.
