Conheça Rodrigo Branco, o artista por trás da capa da estreia de Yago Oproprio

29/05/2026

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Por: Rodrigo Branco

Fotos: Naira Matita, Enio César, Acervo Pessoal

Minha família fez um processo migratório comum: sair de um contexto periférico para outro — do rural, no interior da Bahia, para a periferia de São Paulo. Cresci no Grajaú, zona sul de São Paulo. Foi onde comecei meu contato com as artes: vi meu tio pintar a óleo, vi o Niggaz grafitar e pirei. 

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Meu pai morreu quando eu era mais novo. Ele gostava de fotografar, era aquela história do pai que tira muitas fotos da família, mas ele mesmo não aparece.  Outro aspecto que me marcou foi ir ao Circo Escola Grajaú. Tenho questões na visão desde a infância — não me conheço sem óculos. Então, lembro de ter dificuldade para entender o que estava acontecendo no picadeiro. Ao tentar enxergar o espetáculo e os palhaços, sempre via o rosto deles de forma abstrata.

Percebo que a busca pela abstração nas minhas pinturas vem dessas memórias. Uma das minhas pinturas surge de uma foto minha — daquelas clássicas dos anos 1990, que a gente tirava na escola, usando beca e segurando diploma. Nessa pintura, aplico a abstração no meu rosto, mais especificamente na boca.

Eu tiro a boca porque não gosto do meu sorriso na foto. O Fernando Marar [diretor criativo de Oproprio] viu essa obra e acreditou que ela tinha a ver com o que ele buscava para a capa do disco. A ideia era pegar fotos e transformá-las em telas.

Criei a tela a partir das fotos do Ênio César. Fizemos tudo no meu ateliê. Essa coisa de abstrair a boca vem do Yago. Comecei produzindo as telas para a capa mantendo a boca, porque não vislumbrava tirar o instrumento de trabalho de quem canta, mas ele pirou justamente nessa contradição, quase como provocação.

Tem outras coisas que nos conectam, como o gosto pelas cores primárias. Hoje, acho incrível ver essa tela se transpondo para outros lugares: ela está em lambes na rua, na capa de um disco de vinil…  Tenho meu próprio ateliê no centro de São Paulo. Dou aulas aqui desde 2023.

Esse ateliê, e o processo de dar aulas, foram a resposta que encontrei para voltar a me conectar com a pintura. No pós-pandemia, eu estava produzindo com ódio do mundo. Ainda estava tentando entender o que seria da minha vida, dos meus projetos, o que queria e o que não queria.

Hoje, vejo que tanto as aulas quanto o convite para fazer a capa do Yago me resgataram. Me vejo novamente apaixonado pela pintura. Todas essas conexões ressignificam os meus processos. Estou investigando a pintura e retomando minhas histórias.

Comecei me apropriando das fotografias do meu pai: as imagens do início da relação dele com a minha mãe, dos meus avós construindo a casa onde moravam. Quando começaram a asfaltar as ruas do Grajaú — antes disso, a região parecia um grande sítio. Agora, meu interesse na pintura é contar um pouco desse processo histórico, que fala sobre mim, mas, sobretudo, sobre uma região carregada de memórias.

*Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize #160 que acompanha o disco Oproprio, de Yago Oproprio, lançado pelo Noize Record Club, em 2025

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