Quem assiste aos vídeos virais da carioca Ster, 25 anos, com seu violino em rasteira sincronizada com a síncope do funk, talvez não imagine a profundidade do estudo por trás do arco. Criada na Penha, começou a tocar aos 8 anos impulsionada por um filme da Barbie. Passou pela Escola de Música Villa-Lobos, sonhou com orquestras internacionais, mas encontrou sua verdadeira vocação ao aproximar dois mundos distintos.
A conexão deu origem ao seu “funk erudito” , um movimento que ganha novo capítulo com o lançamento do EP Prelúdio (2026). Produzido por TH4I e participação da rapper King Saints, o projeto marca o primeiro trabalho completo na carreira de instrumentista, cantora e compositora, que já havia divulgado os singles “isso aqui é BR” e “Muleke”, servindo como aquecimento para o seu primeiro álbum completo, previsto para 2027.
“O violino sempre carregou uma bagagem de formalidade, mas ele sempre foi um instrumento para trazer alegria nos bailes de antigamente”, contextualiza. “Sigo fazendo o mesmo, só que trazendo para a cultura brasileira!”
Os instrumentos foram criados para produzir som e criar música. Ainda temos muito o que explorar unindo sons que são historicamente separados. Sei que é meu propósito, e estou só no começo dessa busca da fusão do funk com a música clássica”
Unir a dinâmica sutil de um instrumento acústico com os graves estourados do funk exige coragem e técnica. Em vez de apagar a identidade do violino, a artista buscou no estúdio um equilíbrio dinâmico para garantir o “grão” da sua assinatura sonora.
“Acho que desafiar essas dinâmicas é o principal ponto. É ampliar o timbre do violino, tornando-o mais intenso e agressivo como um funk, e trazer as dinâmicas que já existem na estrutura musical clássica para dentro do ritmo. É um equilíbrio desafiador, mas tenho certeza de que o mundo pode se surpreender”, explica.
Na hora de criar, ela busca fugir de padrões. “Para improvisar, utilizo técnicas do violino e algumas escalas e intervalos da teoria. Agora, para compor, eu sempre procuro sair de qualquer caixinha e criar a estrutura em que acredito, seguindo ou não alguma ‘regra’ musical. Eu gosto de criar sendo livre. Deixo a harmonia e a narrativa me guiarem, trazendo uma melodia mais profunda ou um beat agressivo e sincopado. Crio entendendo que podemos transmitir o que queremos sentir de maneiras infinitas.”
Conheça o EP Prelúdio
Ao longo das cinco faixas do projeto, Ster costura vulnerabilidade, brasilidade e inovação técnica. A abertura fica por conta do choque estético de “Dança de Baile”, que funde o erudito com o som de pista.
” Eu já tinha a vontade de usar o sample de ‘O barbeiro de Sevilha’ [Ópera cômica composto por Gioachino Rossini em 1816] há muito tempo e escolhi trazer junto de um beat mandelão de São Paulo. Ela fala sobre um baile que é classicamente elegante, mas que quando o grave bate não tem como não ficar embrazado. Essa faixa explora muito o funk no estilo agressivo que quero aprofundar. Eu sou esse equilíbrio de profundidade e agressividade, sabe? (risos) “, brinca a cantora.
Mas Prelúdio também expõe dores e transformações da artista. A virada conceitual veio com “Espelho”, a primeira música que ela escreveu e produziu inteiramente sozinha em 2025 , após passar pelo palco do Rock in Rio.
“Eu percebi o quão perdida eu estava como pessoa e como artista, e depois tive um encontro comigo mesma. Lembro que depois de meses e meses, eu escutava a melodia no piano e ela me fazia chorar. Eu não sabia quando ia lançar, mas comecei a colocar letra. Ela se chama ‘Espelho’ porque é a descrição do que aconteceu naquele dia. É a faixa mais vulnerável que já fiz na minha vida, uma conversa comigo mesma. A Ster artista começa ali. É como se fosse o novo funk superação, o novo funk consciente, com um solo de violino muito bonito.”
Essa busca pela própria verdade deu tom ao single “Muleke”, que equilibra os arranjos de cordas com a batida. “Depois de ‘Espelho’, entendi o caminho das letras. Queria trazer esse meu lado feminino, um pouco do que eu sinto e do que eu quero que as pessoas sintam num funk , não só através das letras, mas das melodias.”
Em “Posso Até Tocar um Violino”, a artista flerta diretamente com a estética de trilhas sonoras de cinema. “É um funk muito instrumental que vai crescendo para levar a gente a fechar os olhos e ser transportado. Fala sobre aquela mulher pisciana, intensa, que acredita muito no amor recíproco, mas que quando desiste, desiste de verdade.”
Brasilidade complexa e inspirações contemporâneas
A experiência culmina na faixa-foco “Isso Aqui É BR”, apresentando uma sonoridade exótica ao integrar funk, samba e técnicas de violino.
“Foi a mais difícil de fazer, sem dúvidas. Eu queria que ela fosse um pouco mais minimalista, mas trouxesse muitas nuances do álbum que vem ano que vem. Ela traz pela primeira vez ornamentos clássicos do violino, como trinado e colle, e contrapontos. Trago sons de respiração e uma bateria de escola de samba. Explorei ambientações diferentes de uma maneira mais exótica num tema sobre o Brasil. Falo muito sobre nós, mulheres brasileiras, para enfatizar a nossa cultura.”
Seja inspirando-se na reinvenção constante dos produtores de funk nacionais ou buscando referências internacionais como Rosalía, RAYE e o virtuoso Nicolo Paganini (violinista italiano conhecido por sua velocidade, alcance e novos métodos de afinação], Ster deixa claro que não teme romper fronteiras.
“Meu objetivo é mostrar que a música transcende qualquer espaço e gênero. Ela está em todos os lugares, e pretendo trazer experiências sonoras que possam surpreender o que acreditamos que seja limitado ou impossível. É unir a potência de cada um para que nasça algo novo e lindo “, conclui.